Mundo de ficçãoIniciar sessãoPOV Gabriel Lancaster
Dei ordens à minha secretária para ela entregar o contrato de trabalho à mulher que havia sido deixada no meu escritório. Olhei para a sala trancada outra vez; entregar minha filha a uma mulher estranha fazia-me sentir impotente e confuso.
Eu odiava a sensação de conhecê-la de algum lugar. O rosto dela parecia familiar demais.
Eu não costumava me arrepender de uma decisão, mas a dúvida pairou sobre meu peito por um breve segundo. Eu deveria ter esperado um pouco mais. Eu deveria saber exatamente quem eu estava prestes a colocar em minha casa.
— Senhor Lancaster, o motorista está esperando — a voz do segurança me chamou de volta.
Afrouxei a gravata, permitindo que o ar entrasse mais rapidamente nos meus pulmões, mas eu sabia que esse não era o motivo da minha falta de ar.
Entrei no elevador, convencendo-me de que eu não tinha outra escolha. Eu precisava de uma babá. Minha esposa havia morrido, eu não confiava na minha própria mãe e precisava garantir a segurança de Charlotte.
Ela ainda era tudo o que eu tinha, e eu garantiria que a nova babá desse sua vida para mantê-la bem.
Eu estava pronto para entrar no carro, sob o fim da tarde fresca e barulhenta, quando alguém gritou o meu nome logo atrás de mim. Ela correu em minha direção, os saltos batendo forte no asfalto quente, prontos para romper a qualquer momento, quando parou ofegante diante de mim enquanto estendia o envelope.
— Desculpe, senhor — ela se inclinou, puxando o ar com força enquanto tentava se acalmar —, a senhorita Scarlet assinou o contrato. Considerei que o senhor iria querer saber rapidamente.
Meus olhos se voltaram para a porta do prédio na esperança de vê-la saindo a qualquer momento, mas ninguém apareceu. Meus olhos caíram sobre o documento, sobre o nome grafado. O nome soava estranho, como se pertencesse a outra pessoa.
— Ela leu o contrato? — Lancei a ela um olhar medidor, enquanto se erguia.
— Não, senhor — minha testa se franziu; isso era inédito para mim —, ela só assinou e foi embora.
Todos temiam fazer negócios comigo porque eu era implacável em cumprir e cobrar tudo aquilo que estava escrito, mas aquela mulher não quis saber das minhas exigências; ela realmente me fez acreditar no seu desespero em ter esse emprego. Ela assinou um documento sem ler, e isso me deixou intrigado.
Assenti, guardando os papéis na minha pasta de couro.
Quando voltei para casa, parecia silencioso demais. Sabendo que Charlotte estaria na sala de jantar, fui até lá e fiquei feliz ao ouvir sua risada invadindo o corredor. Assim que ela me viu, pulou da cadeira direto para os meus braços. Por instinto, afundei o nariz em seus cabelos dourados e suguei o ar. O cheiro que exalava dela me acalmava.
— O senhor chegou mais cedo, papai — ela se afastou, suas pequenas mãos acariciando o meu rosto.
Observei seus traços. Seus olhos tão claros como o céu azul de um dia calmo, seus cabelos dourados soltos e leves. Um sorriso se perdendo em seu rosto tão cheio. Charlotte havia sido adotada em uma tarde de inverno quando tinha seis meses de vida, um mês depois da morte trágica da minha mulher. Esse havia sido o último desejo dela: ter uma filha.
Fiz o que ela queria, e adotar Charlotte foi o melhor presente que minha falecida esposa poderia ter me dado.
O rosto da mulher que contratei como babá veio imediatamente em minhas memórias.
Coloquei Charlotte no assento da cadeira como se quisesse me afastar dos pensamentos. Por que tive a impressão de que Charlotte me fazia lembrar dela?
— Tenho algo para contar. — Puxei a cadeira e me sentei ao lado dela, enquanto Charlotte se inclinava para terminar o seu desenho. — Contratei uma nova babá. Ela chegará amanhã.
— Eu não quero uma babá — ela disse, largando o lápis sobre a mesa. — Por que a tia Emily não cuida de mim?
— Porque a tia Emily não é sua mãe — precisei parar e fechar os olhos. Eu havia tido essa conversa tantas vezes com Charlotte que ela sabia as palavras que eu diria em seguida: — Ela não pode cuidar de você, Charlotte.
— Mas o senhor disse que vai casar com ela…
— Isso ainda vai demorar muito — passei as mãos sobre os braços dela e sorri, mesmo sabendo que ela não gostava da ideia de ter uma babá. — Agora termine o seu desenho. Conversamos depois.
Virei as costas e saí rapidamente, ficando com o ruído do choro dela. Charlotte estava prestes a completar quatro anos, mas era uma criança que não entendia metade das coisas que falava. Ainda assim, eu parava para escutá-la; às vezes, eu atendia os seus pedidos. Ela não fazia ideia de que era órfã, que o pai morrera em um terrível acidente de carro três meses depois que ela nasceu e a mãe morrera enquanto dava à luz a ela.
Eu nunca me interessei em saber quem eram os verdadeiros pais dela; isso não importava, eles estavam mortos e mortos não voltam para reivindicar o que um dia foi seu. Nesse caso, decidi jamais contar a ela suas origens. Eu seria para sempre o seu pai, e Charlotte seria para sempre minha filha.
— Você demorou para chegar — a voz de Emily invadiu meus ouvidos assim que cruzei a porta do meu quarto. Suas mãos correram para me alcançar quando, naturalmente, me desviei dela.
— O que está fazendo aqui? — indaguei, enquanto tirava o paletó e o jogava sobre a cama.
— Vamos nos casar daqui a alguns meses, o que há de mal em eu vir à casa do meu noivo?
— Não me lembro de ter marcado uma data de casamento.
— Não seja cruel, Gabriel — ela voltou a se aproximar, suas mãos deslizando pelo meu braço. — Por que não adiantamos as coisas e nos casamos no próximo final de semana?
— Essa é uma ideia sua ou da minha mãe? — Segurei o braço dela e a afastei. — Preciso tomar um banho e, quando sair, não quero mais vê-la aqui.
— Vou ficar para cuidar da Charlotte — ela elevou a voz quando eu estava pronto para entrar no banho —, aquela menina precisa de uma mãe. Não é justo que você a deixe tanto tempo sozinha.
— Você não vai precisar se preocupar com isso — girei o pescoço e olhei nos olhos dela —, eu contratei uma babá e ela chegará amanhã nesta casa.
Os lábios de Emily se franzindo foram a última coisa que vi antes de entrar no banheiro e fechar a porta.







