Capítulo quatro

Meus dedos, ainda segurando o jornal, começaram a tremer. Eu olhei para o rosto do homem, para a fotografia impressa que não revelava totalmente sua beleza, quando minhas lágrimas caíram sobre o papel e eu o amassei com minhas mãos suadas.

— Por que Gabriel Lancaster iria querer adotar a minha filha? — eu sussurrei. — E por que você demorou seis semanas para me contar sobre isso?

— A notícia chegou em minhas mãos hoje de manhã. — Ele passou a mão sobre o rosto. — Você não deveria ter se demitido, vai precisar desse emprego para pagar o meu salário.

A voz do detetive era distante, profissional. Ele suspirou, aquele som familiar de decepção que eu havia escutado tantas vezes. Apagou o cigarro e olhou para mim enquanto jogava a fumaça para longe.

— Não vou precisar — minhas mãos não paravam de tremer quando peguei novamente o jornal e o abri para mostrar a ele —, o pai adotivo da minha filha está procurando uma babá. Eu vou me candidatar ao cargo.

— Você está ficando louca, Skay — ele sorriu, ajeitou a gravata surrada, azul, que eu tinha dado para ele e, em seguida, disse: — E depois que se tornar babá da sua própria filha, vai fazer o que? Vai levá-la embora?

— Não é uma péssima ideia.

— Estamos falando de um bilionário — eu não quis olhar nos olhos dele enquanto me dava uma bronca —, tudo bem, eu não devo me importar. Eu sou seu detetive, e minha missão acaba aqui. O que você fizer a partir de agora não é da minha conta.

Uma risada borbulhou, áspera e estranha: — Quanta gentileza a sua. Mas eu agradeço por ter encontrado-a.

— Ainda vamos nos ver, Skay, você ainda está me devendo — o sorriso dele se alargou um milímetro quando ele se afastou, entrando no carro e indo embora.

Ele me deixou sozinha no meio da noite em uma rodovia deserta. Parada no ponto de ônibus, eu deixei meu corpo desabar para trás. Eu finalmente encontrei minha filha; depois de três longos anos de busca, eu deveria estar feliz, mas eu só conseguia pensar em Gabriel Lancaster sendo pai adotivo da minha filha.

Isso chamou minha atenção. Ele era famoso no mundo dos negócios como um homem frio e arrogante. Eu nunca havia cruzado o seu caminho; as empresas da minha família evitavam fazer negócios com ele pela péssima fama e o comportamento hostil. Agora eu teria que me meter na vida dele para ter minha vida de volta.

Quando voltei para o apartamento alugado, arrumei minhas malas. Deixei as chaves na recepção com o pagamento do mês e fui embora. Menos de cem quilômetros me separavam dela; ela estava tão perto esse tempo todo que não imaginei que poderia alcançá-la tão facilmente. Meu estômago estremeceu quando entrei no metrô que me levaria para a próxima estação.

Li o recorte de jornal surrado mais de vinte vezes enquanto viajava ao meu destino. Gabriel estava procurando uma babá e a entrevista aconteceria no seu escritório no centro da cidade. Olhei para a roupa que vestia e soube que não poderia me apresentar daquela forma. A primeira coisa que faria era comprar roupas novas.

Eu precisava desse emprego e, depois que o conseguisse, eu pensaria em um jeito seguro de tirar minha filha do domínio daquele homem.

Minhas mãos tremiam quando desci na última estação. Eu fiquei parada em frente ao prédio por dez minutos. Comprei a melhor roupa que consegui com as economias que tinha guardado por anos. Eu precisava ser cautelosa e convencer o Gabriel a me contratar como babá da minha filha. Essa era a missão da minha vida a partir daquele momento.

O medo queimou quente no meu peito quando cheguei no saguão indicado pela recepcionista. Havia pelo menos vinte mulheres à minha frente, bem vestidas, com seus currículos em mãos, lutando por aquela vaga. Eu não poderia deixar que nenhuma delas vencesse.

Aos poucos a fila avançava. Logo atrás de mim, duas mulheres conversavam e eu não consegui não ouvir o que elas diziam.

— Dizem que ele é um carrasco, que nenhuma babá suportou mais de um mês na casa dele — uma delas disse.

— Mas ele é lindo e muito rico — a outra suspirou —, não sei por que ainda não casou depois da morte da primeira esposa dele.

Eu lutei para não revirar os olhos com a desconexão dos comentários. Tentei focar apenas na minha missão de convencer o Gabriel de que eu seria a melhor opção diante de outras cem. Meu coração acelerava a cada passo que eu dava rumo à sala de entrevistas, imaginando que ela poderia estar ali dentro, que eu a veria depois de três longos anos.

— Próxima! — a voz da mulher à minha frente se elevou enquanto ela estendia a mão para pegar meus documentos. Minha garganta arranhou quando ela segurou minha identidade falsa. Eu não havia pensado na possibilidade de ser descoberta. Por longos segundos, tudo o que ouvi foram meus batimentos cardíacos enquanto ela olhava minha foto e se certificava de que eu era a pessoa que dizia ser.

— Senhora Scarlat, já pode entrar — ela indicou a porta ao lado, devolveu meus documentos e sorriu para mim. — Boa sorte, você vai precisar.

Soltei o ar que havia prendido. meus pulmões queimaram. Eu congelei quando parei em frente à porta trancada à minha frente. Meu coração batendo descontroladamente. Eu já havia lidado com homens iguais ao Gabriel no mundo dos negócios, eu havia feito acordos com muitos deles, mas eu estava apavorada com o que encontraria ali dentro. Eu estava ansiosa por reencontrar minha filha.

Girei a maçaneta enquanto empurrava a porta. O ar gelado da sala invadiu meu rosto. Meu olhar automaticamente deslizou para ele. Cabelos dourados, dentes brancos e perfeitamente alinhados, olhos negros penetrantes e um rosto sombrio que valia milhões de dólares.

Gabriel Lancaster, o pai adotivo da minha filha.

— Aproxime-se, senhora Scarlat. — Meus olhos percorreram a sala; nenhum sinal de criança por perto, nenhum brinquedo jogado, nada que indicasse que minha filha estivesse ali.

— Por que eu devo contratá-la? — ele perguntou quando me virei de repente e nossos olhos se encontraram.

— O que? — Não era a pergunta a se fazer e esse foi o meu pior erro.

— Resposta errada — ele disse, amassando o meu currículo e o jogando aos meus pés. — Pode chamar a próxima candidata.

— Nenhuma opção lá fora será melhor que eu — a resposta saiu rápida e segura, o que fez ele erguer o olhar novamente e dedicar toda a sua atenção a mim. — Eu sou mãe de uma menina com a idade da sua filha. As mulheres que estão lá fora não querem cuidar de uma criança, elas estão interessadas em você.

Ele arqueou a sobrancelha, continuou em silêncio me encarando.

— Tenho a impressão de que a conheço de algum lugar — seus olhos se estreitaram e ele me encarou por longos segundos. — Será que já não nos vimos antes, senhorita Scarlat?

Meu sangue gelou em minhas veias. Eu não estava preparada para aquilo.

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