Capítulo 4

Narrado por Clara Luz 

Quem é esse homem? Namorada? Não estou entendendo nada. Ele não parece o tipo que precisa de cem mil ao ponto de se casar pelo dinheiro, veste roupas que parece tão caras quanto as dos Santos, que minha família tenta imitar. Será que é uma fachada? Que se endividou e precisa de dinheiro urgente por isso?

Sinceramente, me sinto como se fosse uma pequena folha no furacão mais forte que esse mundo já viu. Só me dou conta que já estou casada quando o homem me estende a mão, como se esperasse por algo. Estamos na porta do cartório, cada um segurando sua certidão de casamento. Se me pedirem para descrever o que aconteceu lá dentro, eu não faço ideia. São vagas imagens de nós assinando os papéis e a mãe dele recebendo um telefonema e dizendo que precisa ir, que organizaria uma grande festa para comemorar o acontecido.

Olho para a mão dele, confusa com o gesto.

— Estamos casados. Onde estão os cem mil? — questiona sério.

— Ah sim! Claro. Desculpe. — Enfio a mão no bolso do moletom e retiro o celular. — Já vou transferir. Quais seus dados de conta?

Ele informa, e faço a transferência. Realmente deve estar precisando com urgência.

— Pronto — informo.

— Agora precisamos combinar nosso acordo de casamento. Vamos a algum lugar para definir e assinar.

Confiro a hora no celular. Não tenho mais tempo.

— Eu preciso ir agora. Vamos fazer assim, me dá um papel em branco que assino e você pode colocar os termos sozinhos. — Sei que isso é loucura, mas tudo hoje foi loucura.

— Está maluca? Nem me conhece.

— Já nos casamos. Loucura por loucura... — Meu telefone começa a tocar. — Eu realmente tenho que ir.

— Certo. Farei o documento e te procuro depois para que assine.

— Sim, claro. Eu preciso ficar casada por um tempo...

— Um ano. — Ele me interrompe. — Nesse meio tempo, depois de assinarmos o contrato, espero que apareça na minha frente a mesma quantidade de vezes que nos encontramos antes de hoje.

Aff! Grosso!

Reviro os olhos. O que esse homem tem de lindo tem de grosso. Ele me olha com a sobrancelha levantada. Deve ter se incomodado com meu gesto, mas não estou nem me ligando. Esse papel em minha mão me dá superpoderes. Sou livre. Não podem mais me acorrentar ou castigar. Nunca mais passarei por aqueles castigos novamente.

— Um ano está ótimo. E pode ficar tranquilo, não vejo motivo para me encontrar outras vezes com o desconhecido que paguei para casar comigo.

Não sei porque, mas acho que ele gosta quando dou esse tipo de resposta mais atrevida. Seus lábios curvam em um sorriso torto quase imperceptível.

— Ei!! — exclamo quando ele tira o telefone da minha mão. Parou de tocar sem eu atender.

— Vou colocar meu contato aqui e pegar o seu. Nos falaremos novamente para assinar o contrato e em um ano. — Ele mexe no aparece e me devolve. — Foi um prazer fazer negócios com você, Clara Luz Monteiro.

E sem dizer mais nada, ele vai embora. Já disse o quanto o acho grosso? Babaca!

Por alguns instantes fico encarando o contato que ele salvou como “marido”. Até que levo um susto quando o telefone toca novamente em minha mão. E gelo quando vejo que é o meu pai. Da outra vez era minha irmã.

Atendo e coloco o telefone na orelha. Meu alô morre na boca com os gritos do outro lado.

— ONDE VOCÊ SE METEU? VENHA PARA CASA AGORA! AGORA!

— Sim, senhor. Sinto muito. — As palavras saem atrapalhadas e cheias de medo.

E lá se vai todo o pouco atrevimento de minutos atrás.

— Se não chegar em casa em cinco minutos, já sabe. — Ele desliga.

Olho o documento em minha mão. Eu já sei o que acontece quando não consigo fazer o que mandam.

— Mas dessa vez será diferente — falo alto para tentar convencer minhas pernas que ficam moles com as imagens que enchem minha cabeça.

Respiro fundo. Decido que não vou me intimidar. Por isso, caminho devagar até o ponto de ônibus mais próximo. Ele não demora a chegar. Pelo caminho vou encarando a certidão de casamento.

Rafael Costa Valente. Meu marido por um ano.

Por que tenho a sensação que já ouvi esse nome?

Como para responder minha pergunta vejo um outdoor da empresa Valente Security Group com a imagens de vários homens vestidos de preto e armados, e com uma frase dizendo algo sobre segurança da família, casa, negócios... e tudo mais. Rafael Costa Valente é nome do CEO dessa empresa. É nela que Bernardo Santos e sua filha chata trabalham. É onde minha irmã vai fazer teste para trabalhar também. Será? Impossível. Jamais que o CEO da maior empresa do país e considerado um dos dez homens mais ricos do mundo vai se casar com uma desconhecida por míseros cem mil. Deve ser alguém com o mesmo nome e sobrenome. Afinal, eles podem ser os mais ricos, porém não podem comprar o sobrenome dos outros... Pelo menos acho que não. Tem muita gente Costa e Valente também não é raro.

Viajando em pensamentos sonhadores onde um CEO rico e poderoso me salva, quase passo direto do ponto perto de casa. Estava mesmo pensando em passar direto e nunca mais aparecer ali, mas não consigo ser desonesta. Vou pegar minhas coisas e deixar uma carta contando o que fiz e que irei devolver cada centavo com juros assim que conseguir um emprego. Afinal, eu os roubei. Peguei o dinheiro do cofre da família e coloquei na minha conta que eles nem sabem que existe. Quero sair antes que descubram porque sei que não será fácil escapar se souberem. Eles não ficam abrindo o cofre. Graças aos deuses.

Quando entro na sala da casa onde cresci, congelo. Estão todos ali, inclusive o velho asqueroso com o qual querem me casar.

Respira fundo, Clara. Não precisa mais ter medo. Eles não podem te obrigar a nada.

— Sua ladra! — Minha irmã grita. — Vem aqui e me explica direitinho o que fez com os cem mil que roubou do cofre da família.

Merda! Eles descobriram.

Engulo em seco. Planejei tantas formas de responder a isso através da carta que faria, mas todas viraram um borrão. Se não aceitarem que eu pague aos poucos, podem chamar a polícia. Daqui posso sair livre ou presa, mas casada com esse asqueroso... jamais.

Antes que eu possa reagir, meu pai avança e me arrasta para e me j**a nos pés do senhor Santos, que está sentado no sofá, assistindo tudo com um sorriso de deboche no rosto. Velho desgraçado!

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