Capítulo 5

Narrado por Clara Luz

— Eu vou pagar cada centavo com juros — digo ainda no chão, olhando para o meu pai. Não tenho coragem de levantar, meu corpo sente que vai ser pior se o enfrentar.

— Você nos roubou? — Elisa agarra o braço do nosso pai. — Papai, a Clara nos roubou. Ela precisa ser castigada por roubar a própria família.

Lá vem. A maioria dos castigos são induzidos por ela. Minha irmã parece sentir prazer em me ver mal, e nossos pais não percebem... ou não ligam. Acredito que seja a segunda opção.

Antes que nosso pai diga algo, o velho asqueroso levanta, empurrando meu corpo com o pé como se eu fosse um cão de rua com pulga querendo sujar sua roupa cara.

— Você me deu uma filha desonesta como noiva, Monteiro? Alguém capaz de roubar da própria família.

— Isso é um mal-entendido, senhor Santos. — Nosso pai olha para Elisa, deixando claro que ela está estragando seus planos.

Ela passa a mão no vestido azul bebê de mangas longas de renda e saia curta. Me lembro exatamente de quando ela comprou apenas por ver meu olhar interessado nele. É só eu querer algo que ela trata de fazer nossos pais comprarem.

— Não vejo nenhum mal-entendido.

— Eu posso explicar, pai — digo, ousando me levantar. O que é um erro. Ele vem e segura com força o cabelo da minha nunca. Dói tanto quanto humilha ser agredida na frente desse velho que me olha com desdém.

— Fale de uma vez. — Ele intensifica o aperto. — Olha a cena que está nos obrigando a fazer.

— Eu peguei o dinheiro para não precisar me casar com esse velho, para ser livre. Não é nada para vocês, mas eu vou pagar.

— Velho?

— Novo é que o senhor não é. — Meu corpo b**e contra o sofá quando sou jogada pelo meu pai. Às vezes a minha língua me coloca em apuros.

Encaro o velho vindo devagar em minha direção, logo em seguida meu rosto arde com o tapa.

— Menina malcriada! Seu pai fez bem em me dar você. Precisa de um homem com pulso firme para te ensinar a ser submissa. Vamos nos casar o quanto antes.

Faça alguma coisa, Clara. Você roubou e se casou com um desconhecido para fugir disso.

— Eu já sou casada — declaro. Todos me olham.

— Isso é mentira! Quem se casaria com você, coisinha pobre. — Minha irmã debocha. — Está mentindo descaradamente.

— Não é mentira. Eu tenho a certidão. — Pego o papel no bolso do moletom.

Quem toma da minha mão é minha mãe, que estava calada até agora. Ela sempre observa tudo, sem me ajudar ou me agredir, só olha como se visse através de uma televisão. Depois de olhar brevemente o papel, ela passa para o meu pai, que lê e me olha.

Elisa toma o papel dele e depois começa a rir.

— Aqui está a prova que é falso. Rafael Costa Valente? Quando que aquele CEO destruidor se casaria com isso? — ela aponta para mim.

— Você forjou uma certidão. Nos roubou. O que mais vou descobrir, Clara?

Olho para o meu pai. Estranhamente tenho vontade de pedir desculpas e aceitar os castigos para continuar com eles. O medo do desconhecido faz isso. O medo da liberdade. Mas não vou me deixar levar pelo medo.

— Eu me casei sim. O nome pode ser o mesmo, mas é outra pessoa, uma pessoa comum.

— Então traga ele aqui. Só assim vamos acreditar.

Me lembro do meu marido desconhecido dizendo que não quer me ver sem necessidade.

— Não posso chamá-lo — murmuro no canto no chão.

— Estão vendo? É tudo mentira.

— Eu juro que é verdade. Eu só quero ir embora.

— Ir embora? E o nosso dinheiro?

— Já disse que vou pagar.

— Ou você chama o seu “marido” para que se responsabilize por você ou nos casamos hoje — o velho declara, me fazendo engolir seco. Eu vou ter que ligar. — Se eu tiver que me casar assim, terei que te castigar.

Castigar. Odeio essa palavra.

Rezando para que aquele homem me atenda e faça esse favor, pego o celular e procuro seu contato com mãos tremulas.

Primeiro toque... nada. Segundo toque... nada. Terceiro toque...

— Achei que tinha deixado claro.

— Deixou, mas preciso que venha até a minha casa para que minha família acredite que casei.

Ouço uma risada do outro lado.

— Você só pode estar de brincadeira.

— Por favor! — imploro.

— Não. — Fecho os olhos, derrotada com sua negativa. Tudo que fiz foi em vão. Roubei, me casei, por nada. — Nos vemos na assinatura do contrato, como acordamos.

— Se eu estiver viva até lá — murmuro. Mas não sei se ele ouviu, pois logo em seguida escuto o som da ligação encerrada.

Permaneço com o telefone no ouvido. E agora?

Respiro fundo e encaro os quatro que esperam. A minha única chance é ganhar tempo, os distrai e fugir por aquela porta sem olhar para trás. Não foi assim que planejei sair, mas não vejo outro caminho quando posso ver a decisão tomada. Eles vão me casar hoje com esse velho. Ou tentar, já que sou casada.

— E ai? — meu pai pergunta.

— Ele está vindo — minto. — Disse que no máximo meia hora chega.

— Ok. Aceito um chá enquanto aguardamos. — O velho Santos diz.

Pelos próximos minutos observo eles pela sala. Estão sentados nos sofás conversando como se fosse um dia de visita qualquer. Enquanto eu estou no canto da sala, encolhida no chão, encostada na parede, me perguntando se existe um mundo diferente disso lá fora, e se vou conseguir chegar até ele.

A empregada passa pela porta com várias sacolas, e como se adivinhasse meus pensamentos, ela a deixa entreaberta e me encara cúmplice. Ela está me ajudando. Chegou a hora.

Olho os quatro concentrados em alguma conversa e levanto rápido. Meu coração b**e forte em meu peito enquanto corro até a porta, mas antes que eu possa passar por ela, escuto a voz do meu pai.

— Então está decidido. Já que o casamento será hoje, os noivos tem minha permissão para as núpcias antecipadas.

O que? Meus pés grudam no chão quando deveriam estar em disparada para longe daqui. Deus, eu sou mesmo filha desse homem? Porque sei que ele é capaz de amar um filho, pois ama Elisa, só não é capaz de me amar, nem mesmo me tratar como um ser humano. Por que?

— Vamos para o quarto, noiva. — Escuto a voz debochada do velho. E pela primeira vez em minha vida, desmaio. Meu corpo desliga de tudo e de todos. Só espero nunca mais acordar.

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