Capítulo 05

Henry Rouxx

Em meio a um suspiro, finalmente entramos todos no carro e caimos na estrada.  Depois de muito insistir, Olivia finalmente cedeu ao meu pedido, porém, quem realmente a convenceu foi Caterine.

E isso, definitivamente, me deixou intrigado.

Queria entender o que estava acontecendo entre as duas. Que tipo de conexão era essa capaz de fazer Olivia exercer tanta influência a ponto de convencer minha filha a praticamente intimá-la a ir ao médico.

A mesma menina que a menos de uma hora não falava á anos.

Caterine não fez um pedido.

Foi uma ordem disfarçada.

      — Você... vai no médico, tá?

Observei através do retrovisor, Olivia estava sorrindo para Caterine ao seu lado e confirmando com um gesto, ela perguntou.

    — Depois você vai tomar café comigo?

Assentindo, minha filha bateu palmas e respondeu atropelando as palavras.

    — Eu... sim... gosto de café...

Rindo ao meu lado, minha mãe entrou na conversa.

    — Muito bem, meninas, percebo que já se tornaram amigas...

Franzindo a testa, olhei para minha mãe e a questionei com o olhar e dando de ombros, ela prosseguiu.

    — Vocês merecem mesmo um café delicioso depois do dia de hoje.

De repente, Olivia soltou um gemido de dor quando sem perceber, eu passei por cima de um buraco na estrada e preocupdo, eu olhei pelo retrovisor e encontrei seus olhos.

    — Você está bem? Dói muito?

Ela negou com a cabeça e disse.

    — Não, foi... só um susto e me mexi rapido demais.

Assentindo, engoli em seco conforme prestava atenção na estrada.

O restante do trajeto seguiu em um clima estranho. Para mim estava fora do normal.  Era leve demais para a situação e intenso demais para ser ignorado.

Caterine cantarolava baixinho no banco de trás, batendo os pés no ritmo de uma música que só existia na cabeça dela, algo que eu nunca vi ela fazer. Olivia a observava com um sorriso discreto, quase reverente, como se tivesse medo de quebrar aquele momento frágil demais para palavras enquanto sua mão acariciava o laço rosa no cabelo da minha filha.

Eu continuava tentando entender quando, exatamente, minha filha tinha mudado de postura após falar. É como se ela tovesse amadurecido em questão de minutos logo que começou a falar.

       — Olivia...

Cat gaguejou enquanto inclinava seu corpo para o lado.

     — Médico demora?

Por alguns segundos, Olivia pensou e então murmurou.

      — Às vezes.

Ela respondeu com um sorrisinho cumplice.

    — Mas prometo que será rapido, e assim nós vamos tomar nosso café.

Com um sorriso largo, Caterine bateu palminhas demonstrando sua satisfação.

Desviei o olhar por um instante e, quando tornei a observar, vi Caterine bocejar. Com um movimento lento e cuidadoso, ela se aproximou de Olivia e apoiou a cabeça em seu ombro, com uma delicadeza que não precisava de permissão.

O gesto foi tão natural que ninguém ousou interromper. Nem mesmo Olivia.

Ela ficou tensa por alguns segundos, o tempo exato de decidir se afastaria minha filha ou não, mas, para minha surpresa, Olivia relaxou, aceitando o contato.

Sua mão subiu hesitante até os cabelos de Caterine, fazendo um carinho leve, quase tímido, tão delicado quanto ela própria.

Engoli em seco ao gravar aquela cena na memória.

Era intenso demais ver minha filha se aconchegar em alguém que havia encontrado apenas uma vez em sua pequena vida.

Talvez eu estivesse errado o tempo todo.

O carro seguiu em silêncio depois disso, um silêncio diferente. Era confortável, respeitoso e quase palpável.

O tipo de silêncio que não pede explicações.

Minha mãe foi a primeira a quebrá-lo, em tom baixo, quase como se temesse despertar alguém.

      — Às vezes, as crianças enxergam o que nós adultos ignoramos.

Comentou, olhando para frente.

      — Elas sabem exatamente quem é seguro.

Não respondi seu comentário, pois na verdade, não tinha o que dizer e por isso, apenas concordei em silêncio, sentindo o peso e o alívio daquelas palavras.

No banco de trás, Caterine já respirava de forma lenta e profunda, completamente entregue ao sono. Olivia mantinha o corpo imóvel, como se qualquer movimento pudesse quebrar aquele instante. Seu olhar estava perdido à frente, mas havia paz ali. Uma paz que eu não lembrava de ter visto nela antes. Uma paz que nem mesmo eu conhecia.

Sem esperar, seus olhos encontraram os meus pelo retrovisor e então ela engolio em seco e afastou o olhar como see tentasse recuperar o controle. Houve um constrangimento breve, seguido de um sorriso pequeno, quase culpado e então desviei a atenção para a estrada.

     — Ela dormiu.

Olivia murmurou num sussurro e assentindo, eu respondi.

    — Eu vi.

Respondi sentindo meu peito vibrar e então prossegui.

      — Obrigado, Olivia.

Nesse momento nossos olhos se encontraram mais uma vez e franzindo a testa, ela perguntou confusa.

       — Pelo quê?

Eu dei de ombros como se fosse obvio.

       — Por não ter se afastado.

Olivia engoliu em seco antes de responder.

        — Acho que eu precisava disso tanto quanto ela.

Confessou, em voz baixa, como se estivesse envergonhada.

As palavras ficaram suspensas no ar, carregadas de significados que nenhum de nós estava pronto para nomear.

Continuei dirigindo, atento à estrada, mas com a estranha sensação de que, sem perceber, algo importante havia começado naquele carro.

E que não haveria mais volta.

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