Mundo de ficçãoIniciar sessãoEros Kane
A mensagem do médico chegou às duas da tarde.
Precisamos conversar. É urgente.
Não era o tipo de mensagem que se mandava quando as coisas estavam indo bem.
Encontrei Lívia no corredor antes de sair.
"Vou ao hospital." Falei sem parar. "Fique de olho na loba, não a deixe sair."
"Não vou, meu alfa." Ela respondeu e saí sem pensar no que mais poderia ter dado errado agora.
O hospital da alcateia era o que sobrava de um prédio que um dia tinha sido maior. Metade das alas estava fechada, não por falta de necessidade, mas por falta de gente para ocupar os postos. O Dr. Soren me esperava na entrada com aquela expressão que eu tinha aprendido a reconhecer nos últimos dois anos.
Más noticias. Ele nunca me chamava se não fosse sobre algo realmente sério.
"As reservas de Veloran acabaram." Disse assim que entramos. "Tenho para três dias, talvez quatro se racionarmos. Depois disso os casos mais graves vão descompensar."
O Veloran era o único medicamento que segurava a progressão da praga nos estágios avançados. Não curava. Nunca curou. Mas nos dava tempo para achar outra solução.
"Quanto você precisa?"
"O suficiente para dois meses. Para chegarmos ao inverno sem perder mais ninguém."
Dois meses. Eu sabia o que dois meses de Veloran custavam. Sabia de onde viria o dinheiro e o que eu precisaria fazer para conseguir em tempo hábil.
Passei a mão pelo rosto.
"Deixa comigo, vou acionar meus aliados, e vamos conseguir o medicamento. Enquanto isso tente utilizar o mínimo possível."
Soren assentiu, não com alívio, com o cansaço de quem já ouviu essa frase muitas vezes e aprendeu a confiar nela mesmo assim.
Saímos pelo corredor principal. Eu já estava calculando, fornecedores, rotas, quem eu precisaria acionar e em quanto tempo, quando o barulho chegou do lado de fora.
Vozes. Muitas. Com aquela tensão específica que não era discussão nem celebração.
Era roda de emergência.
Me movi antes de processar completamente.
Saí pela porta lateral com Soren dois passos atrás, virei a esquina, e vi o círculo de lobos no pátio central, costas fechadas, ombros tensos, ninguém falando.
Lívia chegou pelo lado oposto ao mesmo tempo que eu.
Nossos olhares se cruzaram por um segundo.
Avancei.
Os lobos abriram passagem antes que eu precisasse pedir. E no centro do círculo estava ela.
Vênus no chão, o braço estendido, os dentes de uma criança enterrados no antebraço dela.
A criança era a Mara.
Seis anos. Estágio três da praga. Nos últimos dias tinha desenvolvido os episódios, períodos curtos de comportamento instintivo que os pais não conseguiam controlar, que o Veloran deveria estar suprimindo, mas sem o medicamento...
Vênus não estava gritando.
Estava completamente imóvel, a mão livre levantada na direção dos pais da criança num gesto que claramente dizia "não se aproximem", os olhos fixos na Mara, a voz saindo baixa, quase um murmúrio, palavras que eu não conseguia ouvir daqui.
Rosnei.
Não foi calculado. Saiu antes que eu decidisse, um rosnado de alfa que atravessou o pátio e chegou até a Mara antes que qualquer outra coisa chegasse.
A criança soltou.
Recuou dois passos, os olhos voltando ao normal devagar, confusa como sempre ficavam depois dos episódios. Os pais dela caíram de joelhos no mesmo instante, na minha direção, mãos abertas, a súplica vindo antes mesmo das palavras.
Eu não estava olhando para eles.
Estava olhando para o braço de Vênus.
O ferimento era fundo. A marca dos dentes estava aberta, o sangue escorrendo pelo antebraço até o pulso, pingando no chão do pátio em gotas lentas e regulares.
Meu lobo explodiu.
Não foi gradual, foi uma explosão interna que eu não esperava e não consegui entender completamente. Eu não estava furioso com a criança. Não estava furioso com os pais que estavam de joelhos na minha frente implorando clemência.
Estava furioso comigo.
Você a deixou sozinha, meu lobo rosnou em meu peito, e a acusação tinha um peso que eu não soube rebater.
Me ajoelhei na frente de Vênus antes que ela pudesse se levantar. Peguei o antebraço dela com as duas mãos, examinando o ferimento com uma atenção que não era clínica, era outra coisa, uma coisa que eu estava me recusando a nomear enquanto meus dedos verificavam a profundidade do corte e meu lobo rosnou de novo por dentro.
Ela me olhava.
Não com medo. Com aquela expressão que eu estava mapeando desde o leilão, a mistura de teimosia e avaliação que ela usava quando não sabia ao certo o que eu ia fazer a seguir.
"Eu mandei você ficar na sede." Falei. A voz saiu mais baixa do que eu queria.
"Eu fiquei." Respondeu. "Saí só para lavar o pano de chão."
"Ficar na sede significa não sair de dentro dela."
"Eu sei o que significa." Os olhos dela não desviaram. "A criança estava sozinha no pátio. Eu não ia..."
Me levantei antes que ela terminasse. Coloquei um braço sob os joelhos dela e o outro nas costas e a levantei do chão num movimento que não deixou espaço para discussão.
Ela ficou rígida.
"Eu consigo andar." Falou.
"Eu sei." Respondi, e continuei andando.
O pátio abriu passagem de novo. Eu ouvia os pais da Mara atrás de mim ainda pedindo clemência para o chão vazio onde eu tinha estado. Lívia disse alguma coisa para eles. Eu não ouvi o quê, estava ocupado demais tentando separar as duas coisas que estavam brigando dentro de mim sem conseguir distinguir onde uma terminava e a outra começava.
Raiva dela por ter saído.
Raiva de mim por ter deixado.
As duas queimavam igual e eu não sabia o que fazer com isso.
Entrei na sede pelo corredor lateral. Soren já estava à minha frente, abrindo a sala médica sem precisar ser chamado.
Pousei Vênus na maca com mais cuidado do que a situação exigia.
Recuei um passo.
Ela olhou para o próprio braço, depois para mim.
"Não é tão fundo quanto parece." Disse. "Eu posso cuidar disso."
"O médico vai decidir isso." Respondi, e me virei para Soren. "Dê uma olhada, com certeza ela foi infectada."
Fui até a janela enquanto ele trabalhava.
Do lado de fora o pátio estava se dispersando. A Mara estava no colo da mãe, quieta, os olhos fechados e havia algo naquela imagem que não estava certo, que eu não conseguia identificar imediatamente.
A criança parecia... mais rosada.
Não era possível. O Veloran tinha acabado. Sem medicamento os episódios pioravam, não melhoravam.
Fiquei olhando por mais alguns segundos.
Estou enxergando o que quero enxergar, pensei. É cansaço. Só cansaço.
Virei de volta para a sala.
Vênus estava deixando Soren trabalhar sem reclamar, os olhos no teto, a expressão fechada. O braço estendido, o ferimento sendo limpo, o sangue sendo removido camada por camada.
Meu lobo ficou quieto de repente.
Completamente quieto.
O tipo de quieto que antecedia uma conclusão que eu não estava pronto para chegar.
Ignorei.
"Quando terminar." Falei para Soren sem tirar os olhos dela. "Quero um relatório completo do que podemos fazer para que a praga não se espalhe tão rápido."
Ele me olhou por um segundo, mais tempo do que o necessário.
"Alfa, o senhor sabe, casos assim são quase sempre fatais." Os olhos dela se arregalaram.
"Eu vou morrer?"
"Sim..." Soren falou baixo.
"Não..." Eu falei mais alto.







