Mundo de ficçãoIniciar sessãoVênus Hart
O caminho até o Norte demorou mais do que eu imaginava.
Conforme o tempo passava, a paisagem foi ficando mais feia e entristecida. Como se a Deusa tivesse se esquecido daquela parte do país, ou pior, como se tivesse olhado para ela e decidido virar as costas de propósito.
Tentei dormir, mas o medo não deixava. A presença dele era aterrorizante. Então minha cabeça começou a processar tudo o que tinha acontecido, e isso era quase pior do que o medo.
Eu tinha outro pai.
A sensação daquilo não entrava na minha cabeça ainda. Eu sabia que era verdade, tinha ouvido da boca daquele monstro, e ele não tinha motivo para mentir sobre isso, só para machucar. Mas saber e entender são coisas diferentes.
E o alfa que me comprou, ele sabia de alguma coisa? A forma como ele olhou para o pingente no leilão não era de quem vê um objeto bonito. Era de quem reconhece alguma coisa. E então ele o roubou de mim como se fosse importante demais para deixá-lo comigo. Mais importante para ele do que para mim...
Não consegui terminar o pensamento.
O puxão na corrente veio sem aviso e abri os olhos já em posição de defesa, o coração disparado, antes que minha cabeça processasse onde estava.
Ele me encarava do banco ao lado, analisando por tempo demais.
"Já chegamos." Falou, abrindo a porta e puxando a corrente com ele. Me esgueirei pelo banco tentando alcançá-lo.
"Onde estamos?" perguntei baixo, mais para mim do que para ele.
"Diferente do que está acostumada, não é loba? Mas aqui é a minha alcateia... bem-vinda ao seu novo lar." Perdi o ar.
O que encontrei lá fora foi o silêncio.
Não o tipo de silêncio que existe quando não há nada acontecendo, mas sim quando algo grande aconteceu e não se pode comentar.
Ele caminhou à minha frente sem olhar para trás. Eu o segui porque era o que havia para fazer e porque meus olhos já não conseguiam parar de ver o que estava ao redor.
As casas.
Algumas tinham paredes inteiras de pé. Outras tinham só metade. Havia marcas de fogo que ninguém tinha tentado esconder. O preto do carvão subindo pela madeira como dedos, parando onde o fogo parou, deixando o resto em paz. Janelas sem vidro. Portas que abriam para o nada porque o que ficava atrás delas não existia mais.
Não era abandono. Era o que sobrava depois de uma catástrofe, quando não havia pessoas suficientes para reconstruir tudo.
Parei diante de uma casa menor. Havia um sapato infantil no que tinha sido a soleira da porta. Sozinho. Sem par.
"Anda." A voz dele veio de alguns metros à frente, sem impaciência, só como instrução.
Fiz o que ele ordenou, com medo de descobrir o que era tudo aquilo.
Passamos por um grupo de lobos sentados na frente de uma construção que ainda estava de pé. Adultos com crianças no colo. Eu olhei para eles e entendi imediatamente que algo estava errado. A pele deles tinha uma cor que pele não deveria ter. Acinzentada, opaca, como papel molhado secando. Um dos homens mal conseguia manter os olhos abertos. Uma criança pequena segurava a mão de uma mulher que não reagiu quando passamos.
Fechei os olhos por um segundo.
Isso era a praga?
Eros não parou. Não explicou. Não olhou para os lados, apenas seguiu como se isso fosse algo natural de seu dia a dia.
E eu não sabia se era crueldade ou algo pior. Como alguém se acostuma com uma coisa dessas?
"Pare de encarar, eles não precisam da sua pena." A voz dele soou ácida, e me endireitei, sentindo-me mal por algo que nem percebi que estava fazendo.
Continuamos a andar até eu ver a sede. Era um prédio maior no centro do que restava da alcateia. Madeira escura, teto alto, luminárias nas paredes que davam uma luz laranja e irregular. Cheirava a ervas e a fumaça velha, algo que parecia impregnado nas paredes.
Mal entramos e uma loba loira correu na direção dele, abraçando-o.
Ela tinha um tipo de beleza que preenche o ambiente antes mesmo de abrir a boca. Ela foi na direção de Eros com um sorriso que parecia reservado só para ele, caloroso, íntimo, do tipo que se constrói com tempo e proximidade.
"Você voltou." Disse para ele, seus braços ainda em volta do pescoço dele. O alfa pareceu desconfortável com aquilo e segundos depois, afastou-se levemente. "Fiquei preocupada. Você sumiu o dia todo sem..."
Foi quando ela me viu.
O sorriso não sumiu, mas mudou e isso era pior. Ficou no rosto mas saiu dos olhos, e o que entrou nos olhos foi outra coisa completamente diferente. Uma avaliação fria e rápida que desceu do meu rosto até os meus pés e voltou em menos de dois segundos, parando na marca do meu pescoço.
"Quem é ela?" ela soltou o alfa, e deu um passo em minha direção. "Eros? Por que trouxe essa loba para cá?" ele me olhou por um segundo.
"Não tenho que me explicar para você. Apenas ache um quarto para ela ficar e lhe entregue algumas roupas, vou pensar no que fazer com ela." O olhar da loba voltou para mim no mesmo instante... e ela pareceu pensar em todas as possibilidades.
"Você fez isso com ela?" Minhas roupas estavam em frangalhos, e a marca fresca em meu pescoço, era óbvio que pensassem que ele...
"Não... ele não..." falei e o olhar dele voltou para mim.
"Não me defenda, Hart. E pare de fazer perguntas, Lívia. Faça apenas o que eu mandei.
"Claro, meu alfa... venha..." ela falou, mas ergui minhas mãos para ele, indicando a corrente ainda em meus pulsos, e a ponta dela na mão dele.
"Vai me soltar, alfa?" ele soltou a corrente e se aproximou de mim, puxando o metal e tirando uma pequena chave do bolso. Fiquei irritada, porque ele estava com a chave o tempo todo, poderia ter me soltado antes, mas preferiu me manter assim.
"Não tente fugir, loba. Aqui não é como a sua casa..." a ameaça fez minha loba se enconder em meu peito e abaixei a cabeça, tentando ter qualquer respeito pelo lobo que me comprou.
"Venha..." Lívia falou de novo e concordei, seguindo-a até chegar em um corredor com várias portas. Ela abriu uma.
"Vai ter que servir. Eros não costuma trazer ninguém aqui... então... talvez você tenha que limpar..." Olhei para o estado do quarto e senti vontade de chorar... mas não falei nada, ainda estava viva, isso já era alguma coisa.
Ela então saiu e entrei no quarto, procurando qualquer coisa que eu pudesse fazer ali, para ter o mínimo de conforto... mas não achei.
Lívia voltou um tempo depois com um balde e alguns esfregões, e duas mudas de roupa, uma mais batida e outra mais nova, e limpa. Sorri no mesmo instante.
"Vou deixar isso aqui para você se acomodar. Como pode perceber, não temos empregados aqui. Cada um faz o seu..." ela colocou a roupa mais surrada sobre a cama e disse. "Se troque, não vai querer ficar desfilando com o corpo à mostra por aqui... Nosso alfa não pode te proteger se..." tentei me esconder dentro do casaco, mas sabia que era impossível.
Ela abraçou a roupa limpa contra o peito e saiu, batendo a porta.
Fiquei parada no meio do quarto imundo, olhando para os esfregões no chão.Então ouvi vozes no corredor.
A de Lívia, baixa e rápida, como quem não quer ser ouvida. E outra, masculina, que eu não reconhecia.
"...quanto tempo você acha que ela dura aqui?" esperei alguns segundos pela resposta.
"Depende de quanto ela resiste à praga." A voz de Lívia saiu quase entediada. "Gente de fora nunca se salva aqui."
Os passos se afastaram antes que eu conseguisse processar o que tinha ouvido.







