CAPÍTULO 4
Pov - Alessio
Clube Notte di Piacere — manhã seguinte
O Notte di Piacere nunca dormia de verdade.
Mesmo durante o dia, o lugar parecia respirar memórias. As luzes estavam parcialmente acesas, funcionários limpavam o chão, e o bar ainda carregava o cheiro da noite anterior.
Marino ainda não havia chegado.
E isso, por si só, já era assunto.
— Ele nunca falta — comentou Matteo Rinaldi, encostado no balcão, observando Alessio organizar as garrafas. — Mesmo quando está ocupado demais para respirar.
— Principalmente quando está assim — completou Lorenzo De Luca, cruzando os braços. — Silencioso. Distante. Ainda mais obcecado.
Alessio ergueu o olhar.
— Vocês falam como se fosse novidade.
— Não é — Matteo respondeu. — Mas algo mudou ontem à noite.
Lorenzo assentiu.
— Ele saiu diferente. Mais… alerta.
Alessio suspirou, limpando o balcão com mais força do que o necessário.
— Sempre fica assim quando lembra dela.
Matteo inclinou a cabeça.
— É exatamente isso que eu não entendo. — Ele fez um gesto vago com a mão. — Uma única noite. Uma mulher que trabalhava aqui. Sem sobrenome, sem passado confirmado.
— Sem passado conhecido — corrigiu Alessio. — Não é a mesma coisa.
O silêncio se instalou por um instante.
— Você sabe mais do que contou — Lorenzo afirmou.
Alessio não negou.
— Willow não era como as outras.
Matteo franziu o cenho.
— Todo mundo diz isso.
— Não. — Alessio apoiou os cotovelos no balcão. — Todo mundo acha isso. Eu via.
— Viu o quê?
— Medo — respondeu ele, sem hesitar. — E dignidade. Uma combinação rara naquele lugar.
Lorenzo trocou um olhar com Matteo.
— Marino nunca foi assim — disse Lorenzo. — Ele sempre controlou tudo. Desejo, instinto, negócios.
— Até ela — completou Matteo.
Alessio assentiu.
— Naquela noite… — ele parou por um segundo, como se escolhesse as palavras. — Eu nunca vi o Marino olhar para alguém daquele jeito. Não era fome. Era… reconhecimento.
Matteo soltou um riso curto.
— Você está falando como se fosse vínculo.
Alessio sustentou o olhar.
— Talvez fosse.
O ar pareceu ficar mais pesado.
— Então por que ela sumiu? — Lorenzo perguntou. — Se era tão especial?
— Porque alguém a quis longe — respondeu Alessio, baixo.
— Alguém como quem? — Matteo insistiu.
Antes que Alessio respondesse, a porta do clube se abriu.
Marino entrou.
Impecável como sempre. Terno escuro, expressão fechada, olhos cinza ainda mais profundos que o normal.
Mas havia algo diferente.
Algo inquieto.
— Estão me analisando ou conspirando? — ele perguntou, aproximando-se do bar.
— As duas coisas — Matteo respondeu. — Você não apareceu ontem depois que saiu daqui.
Marino sentou-se.
— Eu precisava pensar.
— Isso nunca é bom — Lorenzo murmurou.
Alessio serviu o whisky sem perguntar.
— Sonhou com ela de novo?
Marino levou o copo aos lábios, depois a pousou lentamente.
— Não foi um sonho.
Os três ficaram atentos.
— Foi um aviso — ele completou.
Matteo apoiou-se no balcão.
— Marino… quem era ela, de verdade?
O Alfa ficou em silêncio por alguns segundos.
— Eu não sei tudo — admitiu. — Mas sei que Willow não escolheu estar aqui. E sei que alguém a forçou a desaparecer.
— E você acha que ela ainda está em Milão? — Lorenzo perguntou.
Marino ergueu o olhar, firme.
— Tenho certeza.
— Mesmo depois de cinco anos?
— Algumas coisas não obedecem ao tempo — ele respondeu. — Elas esperam.
Alessio respirou fundo.
— Se ela voltar… — começou.
— Ela não vai voltar como antes — Marino interrompeu. — E quando eu a encontrar, não será neste lugar.
Matteo observou-o com atenção.
— Você percebe que, se ela reaparecer, isso vai mexer com tudo, não percebe?
— Com o noivado — Lorenzo acrescentou.
O maxilar de Marino se contraiu.
— Wiktoria Nowak é um acordo político.
— E Willow?
O silêncio que se seguiu foi pesado.
— Willow — Marino disse por fim — é a única coisa que nunca foi um acordo.
Alessio desviou o olhar.
Porque, no fundo, todos ali começavam a entender:
Aquilo não era obsessão.
Era algo muito mais perigoso.
Era destino mal resolvido.