Mundo ficciónIniciar sesiónCAPÍTULO 3
POV — Willow Nowak Willow acordou com o coração disparado. Não foi um pesadelo comum. Foi ele. Sempre era. O cheiro inexistente ainda parecia preso à sua pele, como se o tempo tivesse decidido zombar dela mais uma vez. O quarto pequeno estava silencioso demais para uma manhã comum, iluminado apenas pela luz cinza que atravessava a cortina gasta do apartamento. Ela levou a mão ao peito, respirando fundo. — Calma… — sussurrou para si mesma. Então ouviu. — Mamãe? A voz pequena atravessou o quarto como um golpe doce e doloroso ao mesmo tempo. Willow virou o rosto rapidamente. Felix estava sentado na cama ao lado dela. Cinco anos. Cabelos escuros e levemente ondulados, caindo nos olhos cinza-claros — claros demais para serem apenas dela. A pele morena, o rosto sério demais para uma criança daquela idade. O filho que ninguém podia conhecer. O filho que nunca deveria ter existido… mas que era tudo. — Você sonhou de novo — ele disse, com aquela maturidade estranha que sempre a desarmava. Willow se sentou, puxando-o para perto imediatamente, enterrando o rosto nos cabelos do menino. — Acordei você? Felix negou com a cabeça. — Eu senti você ficando triste. O nó em sua garganta apertou. Crianças não deveriam sentir isso. Mas Felix sentia. Sempre sentiu. Ela beijou a testa dele com força, como se aquilo pudesse protegê-lo do mundo. — Foi só um sonho ruim, meu amor. Mentira. Eles dois sabiam. A porta do quarto se abriu devagar. — Vocês dois já estão acordados? — perguntou Hannah, encostada no batente. Hannah era a única pessoa que conhecia toda a verdade. Alta, pele clara, cabelos castanhos presos de qualquer jeito, olhar atento de quem aprendera a vigiar o perigo antes que ele chegasse. Amiga. Família escolhida. — O Felix veio me acordar — Willow respondeu, tentando sorrir. Hannah observou os dois por alguns segundos. — Ele sonhou com o “homem grande” de novo? — perguntou, baixinho. Felix ficou imóvel. Willow fechou os olhos. — Eu não sei do que você está falando — o menino respondeu rápido demais. Hannah suspirou. — Café está pronto. — E completou, olhando para Willow: — E precisamos conversar. Isso nunca era bom. Willow se levantou, vestindo uma camiseta larga, sentindo o corpo ainda marcado por lembranças antigas. O espelho do corredor refletiu uma mulher diferente da garota que fora cinco anos atrás. Mais magra. Mais dura. Mas ainda bela. Dolorosamente bela. Na cozinha, Felix subiu na cadeira, balançando as pernas enquanto brincava com um carrinho velho. — Hoje você vai ficar comigo, tá? — Willow disse, servindo o café dele. — Eu sei. — Ele levantou o olhar. — Você sempre fica com medo quando sai. O silêncio caiu. Hannah cruzou os braços. — Willow… — Não. — Ela interrompeu. — Não começa. — O Notte di Piacere mudou de dono — Hannah disse mesmo assim. — E eu ouvi coisas. O coração de Willow parou. — Que coisas? — Um Alfa poderoso. Italiano. Sempre esteve ligado ao clube. A xícara quase caiu da mão dela. Felix levantou a cabeça. — Mamãe? Willow forçou um sorriso, ajoelhando-se diante do filho. — Vai brincar no quarto um pouquinho, sim? Ele hesitou. Os olhos cinza fixaram-se nos dela por tempo demais. — Ele é meu pai, né? O mundo quebrou. Hannah ficou imóvel. Willow sentiu o ar sumir dos pulmões. — Quem te contou isso? — ela perguntou, a voz tremendo apesar do esforço. Felix deu de ombros. — Ninguém. Eu só… sinto. Instinto. O mesmo maldito instinto. Ela puxou o filho para um abraço apertado. — Um dia — sussurrou — eu vou te contar tudo. Mas agora… você só precisa saber que eu te amo mais do que qualquer coisa. — Eu sei — ele respondeu, abraçando-a de volta. — Dá pra sentir. Quando Felix saiu, Willow ficou parada no meio da cozinha, as mãos tremendo. — Hannah… — ela sussurrou. — Se ele estiver procurando… — Ele nunca parou — Hannah completou. — O nome dele é Marino Bianchi. O nome caiu como sentença. O mesmo nome que Willow enterrara fundo demais para sobreviver. — Ele é prometido à irmã mais nova de você — Hannah continuou. — Wiktoria Nowak. O riso que escapou de Willow era quebrado. — Claro que é. O destino nunca foi gentil. Ela levou a mão ao ventre, como fizera tantas vezes antes. — Ele não pode saber — disse com firmeza. — Nunca. — E se ele já sentir? — Hannah perguntou. Willow fechou os olhos. - Ele nunca vai saber, ele não pode saber, meu pai não saber, ninguém pode saber. -Willow suspirou Porque, em algum lugar de Milão, um Alfa respirava inquieto sem saber por quê. E um menino de cinco anos carregava nos olhos a herança de uma guerra que ainda nem começara.






