Capítulo 7

No parque de estacionamento do hotel, Collen caminhou com passo seguro até ao seu carro. Sem uma palavra, abriu a porta do passageiro devagar.

— Entra.

Chantelle fixou-o um instante, ainda ligeiramente a tremer, e depois assentiu com a cabeça. Subiu para o interior, sem se fazer rogada, e instalou-se no banjo.

A porta fechou-se com um estalido surdo. Através do vidro fumado, o mundo exterior pareceu apagar-se. Mais rostos trocistas, mais olhares insistentes. Mais voz aos berros de Raphina. Apenas o silêncio, finalmente.

Suspirou longamente, como se libertasse finalmente o ar que retivera por tempo demais.

Collen, sempre impassível, deu a volta ao veículo e instalou-se ao volante. Ajustou os óculos, ligou o motor sem a menor pressa, sem lançar um olhar para ela.

Chantelle permanecia silenciosa, o olhar perdido no desfilar monótono da paisagem através do vidro.

O seu coração ainda batia num ritmo irregular, não por causa de Raphina, mas por causa do homem sentado a poucos centímetros dela. Collen Wilkerson. O seu silêncio não era frio nem quente. Era neutro. Controlado. Indecifrável.

E era isso o mais perturbador.

Não sabia como reagir com ele. Nem sequer sabia porque é que ele interveio. Terá visto a cena por acaso? Estaria ali para um almoço de negócios?

A dúvida infiltrava-se sorrateiramente na sua mente. A maneira como ele a defendera, sem fazer perguntas, sem lhe dar escolha, era… estranha.

Torcia os dedos sobre os joelhos, desconfortável.

Um silêncio constrangedor instalou-se.

Acabou por tossir suavemente, como para quebrar a tensão.

— Muito obrigada… senhor Wilkerson.

Ele não respondeu de imediato. O barulho do motor parecia engolir os segundos. Por fim, com voz baixa, seca, largou:

— Fiz porque és irmã da Mégane. Não podia ficar ali sem fazer nada.

As suas palavras eram claras, distantes. Como se quisesse pôr as coisas nos seus lugares. Como se quisesse sobretudo não se envolver mais.

Um arrepio percorreu a espinha de Chantelle.

— Compreendo… Obrigada na mesma — disse ela suavemente, com a garganta apertada.

Nenhuma palavra foi trocada até ele estacionar em frente ao prédio dela.

Desligou o motor, sem um gesto nem um olhar. Ela abriu a porta, hesitou um segundo, e saiu.

Antes de fechar, inclinou-se ligeiramente.

— Obrigada outra vez, senhor Wilkerson.

Ele mal inclinou a cabeça, sem dizer nada, os olhos fixos em frente.

Ela fechou a porta e afastou-se a passos lentos em direção ao seu prédio. O coração ainda embaciado de perguntas.

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Raphina, ainda em choque, ficou imóvel um instante no meio do restaurante. Todos os olhares se tinham virado para ele. Alguns clientes murmuravam, outros riam-se às escondidas. Uma vergonha ardente roía-lhe o estômago.

Saiu apressadamente do hotel, com o rosto vermelho de raiva. Quando chegou ao carro, fechou a porta com violência e arrancou em fúria.

Mal chegou a casa, na sua grande vivenda gelada, atirou o casaco para o sofá e começou a andar de um lado para o outro no vasto salão.

— Quem pensa ela que é?! — exclamou ele, os traços deformados pela raiva.

— Não passa de um vulgar objeto, uma rapariga que o pai quer vender-me… e ela atreve-se a humilhar-me à frente de toda a gente?!

Bateu com o punho na mesa de centro.

— E aquele homem? Quem era, raio?!

Via a cena outra e outra vez. Aquele desconhecido que ousara arrancar-lhe Chantelle debaixo dos olhos, sem uma palavra, com uma calma que lhe dava arrepios.

— Ele vai arrepender-se. Ela vai arrepender-se. Os dois!

Os seus olhos brilhavam de ódio. Na sua mente, já não se tratava de herança ou aliança familiar. Tornara-se uma questão pessoal.

---

Na outra ponta da cidade, Rhonda bebia tranquilamente um copo de vinho branco junto à piscina, ao lado de Mégane, que lhe mostrava modelos de vestidos de noiva no telemóvel. O ambiente era leve, descontraído… até o telemóvel vibrar.

Lançou um olhar ao ecrã. Ao ver o nome Raphina Paterne, esboçou um sorriso e atendeu de imediato:

— Sim, Raphina, eu…

— Cala-te, Rhonda! — rosnou ele com voz cavernosa. — Explica-me já o que é que se passou!

Rhonda endireitou-se, tensa.

— Calma… o que queres dizer?

— Aquela tua filha bastarda, a tua enteada! Humilhou-me, Rhonda! Levantou-se a meio do almoço, gritou comigo e foi-se embora com outro homem! À frente de toda a gente! À frente de um restaurante cheio de gente!

Rhonda empalideceu ligeiramente. Levantou-se, afastando-se da filha.

— Espera… outro homem? Quem?

— Um tipo novo, frio, altivo, que a pegou pelo braço como se lhe pertencesse. E sabes o que ela fez? Seguiu-o. Como uma cadelinha. Estás a perceber?!

Rhonda beliscou a ponte do nariz.

— Raphina… eu… lamento. Não era ela que queríamos pôr em evidência. É a Mégane que está destinada a…

— Não quero saber! Foste tu que me disseste que ela ia obedecer! Que era dócil! E agora desfaz-se de mim como um cão diante de dezenas de testemunhas!

— Vou resolver isto. Prometo-te.

— É melhor, Rhonda. Porque se perco a face mais uma vez por causa dessa rapariga, juro que esmago os vossos pequenos projetos como baratas. Esta parceria entre as nossas famílias? Acabada!

E desligou brutalmente.

Rhonda ficou imóvel um instante, o olhar perdido. A raiva de Raphina era mais que séria. Podia perder tudo.

Mégane, que só acompanhara parte da conversa, franziu as sobrancelhas e inclinou-se para a mãe.

— Mãe… o que se passa? — perguntou ela, suspeitosa. — É aquela… aquela bastarda outra vez, hein? O que é que ela fez mais?

Rhonda, com o olhar fixo em frente, como se procurasse engolir uma má notícia sem se engasgar.

— Não me digas que ela causou problemas ao Raphina? — continuou Mégane, com a voz a subir de tom. — Não me digas que ela ousou…

— Humilhou-o — murmurou Rhonda entre dentes cerrados. — À frente de toda a gente. Em pleno restaurante.

— Quê?! — Mégane saltou dos pés. — Queres dizer que aquela pequena idiota ousou rejeitar o Raphina?! Mas quem pensa que é?

— E não é tudo… Levantou-se e foi-se embora. Com um homem.

O sangue de Mégane ferveu.

— Um homem?! De quem falas? Quem? Quem é o idiota que pensa que pode defendê-la em público?!

Rhonda abanou a cabeça.

— Raphina não o conhece. Nem sequer teve tempo de lhe responder. Ele chegou… e Chantelle seguiu-o, sem hesitar.

— Não… não, não, não, não, não — disse Mégane, a andar em círculo, as mãos no cabelo. — Alguém a ajuda? Alguém a protege? Mas quem faria isso por ela? Ela não tem ninguém, mãe! Ninguém!

Rhonda apertou os lábios, o seu olhar duro fixo em frente.

— Nunca devemos deixar ninguém defender aquela cadela — lançou ela com voz fria, quase cortante. — Esse tipo de pessoa não merece proteção nenhuma.

Mégane, com os braços cruzados, assentiu vivamente.

— Sim, mãe. E sobretudo, temos de descobrir quem é o homem que ousou intrometer-se. Quem é ele para se permitir isso?

Rhonda endireitou-se, os dedos crispados no braço do sofá.

— Tens razão. Temos de fazer investigações sérias. Não podemos avançar enquanto não soubermos tudo sobre este obstáculo.

Sem mais uma palavra, entraram em casa.

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