Ele levantou-se num salto, afastando a cadeira com exagero.
— Menina Chantelle! Que honra. Que beleza, que graça… É ainda mais magnífica do que nas fotos. Venha, venha…
Chantelle forçou um sorriso. Uma careta habilmente disfarçada.
— Bom dia.
Sentou-se sem responder, cruzando as pernas com uma elegância distante. Tudo nela gritava vontade de fugir, mas mantinha a máscara. Por enquanto.
Raphina Paterne instalou-se em frente a ela, com o olhar ávido, como se a estivesse a examinar peça por peça.
— Sabe… estou disposto a tudo para casar consigo. Absolutamente tudo. O meu pai quer uma mulher de prestígio ao meu lado, e quando viu a sua fotografia… ele soube. É a senhora. E eu também sei. É o tipo de mulher que merece um homem como eu. Herdeiro de um império imobiliário. Quarenta edifícios em meu nome, participações no estrangeiro… E isto é só o início.
Falava sem respirar, sem realmente a olhar. Não queria conversar. Queria impressionar. Mostrar-se.
Chantelle permaneceu muda. A sua única resposta foi outro sorriso educado, vazio, dolorosamente mecânico.
— Então, o que quer comer, minha pérola? — perguntou ele por fim, fechando o menu com arrogância.
— Peço o mesmo que o senhor — respondeu ela suavemente.
Ele bateu na mesa, encantado, como se aquela resposta confirmasse a sua superioridade.
— Excelente escolha. Temos os mesmos gostos, bem sabia. Garçom! Dois magret de pato, com molho de mel e tomilho, acompanhados de gratinado dauphinois. E uma garrafa de Chassagne-Montrachet. De 2018.
O empregado inclinou-se e retirou-se.
Raphina recomeçou a falar. Outra vez. Dos seus carros. Das suas propriedades. Das suas viagens a Dubai. Das mulheres que o cobicavam mas que ele desdenhara. Tudo era ele. Nada era ela.
Chantelle, imóvel no seu papel, já quase não ouvia. Acenava com a cabeça de vez em quando, levava o copo aos lábios sem beber. Cada minuto passado diante dele lhe parecia uma eternidade.
E pensava: Meu Deus, o pai quer mesmo vender-me a isto?
Ao longo da refeição, as palavras de Raphina Paterne tornavam-se cada vez mais despropositadas. Os seus elogios escorriam em segundas intenções, os seus olhares demoravam-se onde nunca deviam.
— Está a gostar da refeição? — perguntou ele com a boca quase cheia.
Chantelle teve vontade de vomitar. Que homem sem maneiras? Mostrou um sorriso antes de responder:
— Sim, está delicioso, muito obrigada.
— Uma mulher como a senhora… bonita, elegante, sensual. Sente-se o calor por baixo dessa frieza, hein? Eu sei ver essas coisas…
Chantelle não respondeu.
Desde o início da refeição, Raphina não parava de lançar comentários equívocos, falando do futuro deles, da "compatibilidade" física, da "sorte que ela tinha" de ser escolhida por um homem do seu nível. Os seus olhos examinavam-na como um produto em vitrine, as suas palavras transbordavam vulgaridade.
— Sabe, eu gosto de mulheres com atitude — murmurou ele, inclinando-se para ela. — Mas gosto ainda mais quando sabem calar-se na altura certa… sobretudo num quarto.
Chantelle engoliu a indignação, tentando manter a compostura.
Mas tudo descarrilou quando, aproveitando um momento em que ela bebia um gole de água, ele deslizou a mão para a coxa dela, por baixo da mesa. Devagar. Primeiro sobre o tecido… depois os seus dedos insinuaram-se mais acima, tentando passar por baixo do vestido. O seu toque era pesado, pegajoso, intrusivo.
O choque fulminou Chantelle. Arregalou os olhos, sufocada pela ousadia. Depois, num movimento brusco, empurrou-lhe a mão com violência.
— Mas o que é que está a fazer?! — exclamou ela, levantando-se num salto, o coração a bater descompassado.
O silêncio caiu sobre as mesas vizinhas. Cabeças viraram-se.
Raphina encolheu os ombros, sem a menor vergonha, e lançou num tom convencido:
— Então? Não és minha noiva? Achas que estou aqui para falar do tempo? Foi o teu pai que me disse que estavas pronta. É preciso testar aquilo que vou casar, não é?
Riu-se alto.
— Sabes quantas mulheres sonhavam estar no teu lugar? Aceitei este casamento arranjado para vos fazer um favor. E tu fazes-te de virgem ofendida? É preciso descer à terra, minha linda…
Chantelle tremia de raiva. O seu rosto ardia. Inspirou fundo, a tentar não explodir, mas a sua voz vibrou de cólera:
— É nojento! Vulgar! E pensa que se pode tratar as mulheres como gado?!
Raphina levantou-se por sua vez, batendo palmas como se estivesse a gozar com ela:
— Então, então! Tens carácter. Gosto disso. Dá mais sabor às coisas.
— Nunca mais me toque! — gritou ela.
A sala tinha-se imobilizado. Os clientes observavam-nos abertamente, uns com indignação, outros com embaraço.
— É patético! — continuou ela. — Não sou um objeto, muito menos à venda! — disse Chantelle, furiosa.
— Devias sentir-te lisonjeada, nem todas as raparigas têm a sorte de comer comigo.
A voz de Raphina ressoava na sala do restaurante, enojante de presunção. Tinha um ar satisfeito com a sua própria arrogância, inclinado para Chantelle, um sorriso viscoso nos lábios.
Chantelle, com o olhar duro mas a tremer por dentro, recuou a cadeira, pronta para partir. Já tinha suportado humilhas suficientes para um dia. No entanto, Raphina insistiu ainda, tentando tocar-lhe no braço outra vez.
— És bonita, sabes disso, não sabes? E olha para mim… sou um bom partido, muito bom. Fazes-te difícil, mas vejo nos teus olhos que gostas de mim.
Chantelle levantou-se bruscamente.
— Basta!
A sala ficara em silêncio, os olhares convergiam para a mesa deles.
E foi nesse momento que uma silhueta direita e imponente apareceu na entrada da porta. Collen.
Collen tinha assistido a toda a cena, de pé não longe da mesa, com os braços cruzados, o seu olhar escuro fixo em Raphina e Chantelle. O seu rosto, impassível à superfície, escondia uma tensão crescente.
Quando Raphina se levantou a rir e tentou tocar na mão de Chantelle outra vez, ela recuou vivamente.
— Já lhe disse para nunca mais me tocar! — soltou ela com voz firme, os olhos cheios de raiva e nojo.
Naquele instante, sentiu uma presença mesmo atrás de si. Uma sombra, alta e direita, desenhava-se na mesa.
Virou-se… e o seu coração deu um salto.
— Tu? — murmurou ela, estupefacta. — O que é que fazes aqui?
Collen, glacial, respondeu sem desviar os olhos de Raphina:
— Vamos embora daqui.
Raphina rebentou a rir, trocista, os braços abertos como se assistisse a uma má comédia.
— Valha-me Deus, quem é este tipo? E quem pensa que é?
Mas Collen não lhe ofereceu nem explicação nem olhar.
Agarrou na mão de Chantelle, com um gesto seguro mas sem brutalidade, e puxou-a suavemente para si.
— Vem — ordenou num tom seco.
Raphina, vermelho de raiva, gritou:
— Mas quem és tu, raio?! E com que autoridade te permites meter-te nos MEUS ASSUNTOS?!
Chantelle nem precisou de pensar. Ao ver Collen ali, erguido entre ela e Raphina, uma estranha convicção impôs-se-lhe: Deus o enviara. Como uma resposta caída do céu para a humilhação que estava a sofrer.
Então, sem hesitar, seguiu-o.
— Vais arrepender-te, Chantelle! Estás a ouvir?! Vais arrepender-te de ter saído daquele restaurante e de me teres deixado sozinho! — gritou Raphina, vermelho de raiva, o rosto deformado pela cólera.
Mas ela não se virou. Nem uma única vez. A sua mão permanecia firmemente segura por Collen, que avançava com uma determinação glacial.
Saíram do restaurante sob os olhares intrigados e trocistas dos clientes. Atrás deles, Raphina Paterne, ferido no seu orgulho, fervia, jurando no vazio.