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Regras, Ameaças e um Império que Não Perdoa

O carro entrou pela porteira da Estância Barreto e foi como se eu tivesse cruzado uma fronteira para outro mundo. 

Diferente da nossa fazenda, onde a rotina tinha o ritmo devagar da terra, aqui tudo era movimento, ordem, força. Logo na entrada, vi grupos de peões em uniformes iguais, montando ou levando gado, conversando alto, cada um sabendo exatamente o que fazer. Mais adiante, máquinas enormes - tratores, colheitadeiras, caminhões com caçamba alta - trabalhavam nas plantações, barulhentas, imponentes, provando por que esse lugar era chamado de gigante. Cavalos de raça, pelagem brilhante, eram levados para os pastos por tratadores que andavam com postura de quem cuida de ouro. 

Tudo ali tinha um porquê, tudo era planejado, calculado, construído para crescer sem parar. E eu entendi, naquele momento, por que Otávio Barreto era quem era: ele não tinha apenas herdado terra, ele tinha transformado tudo em um império porque não aceitava o que era "mais ou menos", não aceitava limites, não aceitava perder. A Estância era o reflexo exato do dono: forte, organizada, poderosa, e pronta para engolir qualquer coisa que ficasse menor do que ela.

O carro subiu a ladeira e a mansão apareceu, grande como um castelo de pedra escura, com janelas que brilhavam ao sol, varandas que davam voltas no andar de cima e um jardim tão bem cuidado que não havia uma folha seca sequer no chão. Desci com as minhas botas, que agora faziam um barulho seco no calçamento de pedras, e endireitei os ombros. Não vim aqui para admirar luxo, vim para cumprir um acordo.

Ela já estava na escada, esperando. Dona Marisa. Desta vez, não havia apenas desdém no rosto dela - havia estratégia. Era uma mulher de cabelo grisalho penteado com rigor, olhos afiados como agulhas, postura ereta de quem manda há anos e não gosta de ver ninguém novo ocupar o espaço que ela considera seu. Ela desceu devagar, parou na minha frente e me analisou com um olhar que parecia desmontar cada pedaço de mim, do vestido simples aos calçados que eu não tinha escondido nem um pouco.

- Então é você - disse ela, a voz baixa, calma, mas carregada de veneno. - Ouvi dizer que a senhora vem da Fazenda Albuquerque, que sabe tudo de terra e de gado. Mas aqui não é uma propriedade pequena, onde tudo é feito de qualquer jeito. Aqui, as coisas têm ordem, têm regras, têm jeito certo de ser feito. E eu estou há vinte anos cuidando para que nada saia do lugar. Espero que você tenha juízo para entender o seu papel, e não pense que por ser a esposa do senhor Otávio vai poder mudar o que funciona há muito tempo.

Ela sorriu, um sorriso pequeno, falso, que não chegou aos olhos.

- E uma dica: ninguém dura muito aqui tentando ser mais do que realmente é.

Qualquer outra pessoa teria sentido o golpe, teria recuado. Mas eu cresci ouvindo que mulher não devia trabalhar na terra, que a nossa fazenda era pequena demais, que nunca chegaríamos ao nível dos Barreto. Eu aprendi a responder com firmeza, não com grosseria, mas com verdade.

Olhei bem nos olhos dela, sem desviar, e falei devagar:

- Eu não estou aqui para mudar nada que dê certo, dona Marisa. E também não estou aqui para ser ensinada sobre o meu papel. Eu sei muito bem quem eu sou, de onde vim e o que eu valho. Se a senhora cuida desta casa há vinte anos, parabéns - faz o seu trabalho direitinho. Mas eu faço o meu também, e ninguém, nem a senhora nem ninguém mais, vai me dizer como devo ser ou como devo agir. Lembre-se disso: eu posso ser nova aqui, mas não sou cega, nem burra, nem de se deixar pisar.

Ela ficou parada, o sorriso desaparecendo devagar, e vi que tinha acertado o ponto certo. Ela não esperava resposta, muito menos uma resposta tão clara. Antes que ela pudesse voltar com outra frase afiada, uma sombra grande se aproximou, e eu logo reconheci a presença de Otávio.

Ele parou ao meu lado, de braços cruzados, olhando primeiro para ela, depois para mim. Não havia expressão suave no rosto dele - era o homem que comandava tudo, que sabia exatamente o que tinha que ser feito e não aceitava discussão.

- Marisa, pode ir - disse ele, curto, sem mais explicações. - Qualquer coisa que eu precisar, peço.

A governanta fez uma reverência pequena, mas antes de virar as costas, lançou-me um último olhar, agora com um brilho diferente: não era só antipatia, era aviso. Ela ia ser difícil, ia vigiar cada passo meu, ia procurar cada erro. E eu sabia que ia ter que estar sempre alerta contra ela.

Quando ficamos sozinhos, Otávio virou-se para mim, e o tom de voz mudou: ficou mais duro, mais direto, como quem lista ordens que não podem ser quebradas.

- Agora presta atenção, Helena. Você assinou o contrato, aceitou o acordo, e agora tem deveres aqui. E não vem com história de que não sabia, porque tudo isso estava claro desde o dia em que eu fui até a sua fazenda.

Ele apontou com a mão para a casa, para as terras que se espalhavam ao redor, para toda a movimentação que eu tinha visto.

- Primeiro: para todo mundo, daqui para frente, você é minha mulher de verdade. Não é negócio, não é acordo, é casamento. Você usa o meu sobrenome, me acompanha nas visitas, nos almoços, nas reuniões com outros fazendeiros. Você age como a senhora da Estância Barreto, com respeito, com postura, como se tivesse nascido para isso. Ninguém pode desconfiar de nada. Se alguém perguntar, nós nos casamos por união de terras, por aliança entre famílias - e só.

Dei um passo à frente, o queixo erguido, já pronta para responder à altura.

- Eu vou cumprir o que está escrito, Otávio. Mas não espere que eu seja doce, nem que eu finja que gosto de estar aqui. Eu salvo a minha fazenda, cumpro a minha parte, e só. Não vou sorrir para quem não merece, nem fazer carinho em ninguém só para agradar.

Ele deu um meio sorriso, sem alegria, um sorriso de quem esperava exatamente essa resposta e achava graça na minha teimosia.

- Eu não espero que você seja santa, nem que seja submissa. Eu já vi que você tem língua afiada e gosta de enfrentar. Mas ouça bem o que eu vou dizer, porque é a regra mais importante de todas: se você sair dos trilhos, se fizer algo que estrague o acordo, se contar a verdade para alguém, se agir de forma que coloque tudo em risco... - ele parou, chegou mais perto, os olhos escuros queimando de seriedade - ...eu não vou ter pena. O contrato diz que eu paguei a dívida de vocês, mas também diz que se qualquer condição for quebrada, o valor total volta a ser devido. E com juros ainda maiores. Se você me der motivo, eu apresento os papéis na justiça, e você e o seu irmão vão ter que me pagar cada centavo - e não vão ter como, porque a fazenda já vai ser minha de vez. Então pense bem antes de me responder ou de fazer qualquer besteira: cada passo que você der aqui tem consequência. E eu não perdoo erros.

Eu senti o sangue ferver, mas também senti o peso da ameaça. Ele estava usando exatamente o que eu tinha medo: perder tudo, e ainda ficar devendo mais. Ele sabia exatamente onde bater para me fazer obedecer.

- Eu não quebro o que eu prometo - respondi, cortante. - E não me ameace com o que eu já sei. Eu estou aqui porque escolhi salvar o que é do meu pai, não porque tenho medo de você. Mas saiba: se eu cumprir o meu lado, você também tem que cumprir o seu. Qualquer coisa fora do combinado, e a gente briga de verdade.

Ele me olhou por um momento longo, como se estivesse medindo a minha coragem, e depois virou-se para entrar na mansão, fazendo sinal para que eu o seguisse.

- Vem. Vou te mostrar onde você vai ficar.

Entramos, e o contraste com a minha casa foi enorme. Os corredores eram largos, com piso de madeira brilhante, paredes com quadros antigos, móveis que pareciam valer fortunas. Tudo era silencioso, arrumado, perfeito - e frio. Subimos uma escada larga, e ele abriu a porta de um quarto que era maior do que toda a sala da minha casa. Era espaçoso, com janelas altas que davam para o campo, móveis escuros e pesados, e sim, duas camas separadas, afastadas uma da outra.

- Aqui é o nosso quarto - disse ele, parado na porta, sem entrar muito. - Para as pessoas, marido e mulher dormem juntos. Se cada um ficar num canto da casa, já viu o que vai acontecer: fofocas, perguntas, desconfianças. E nós não podemos ter isso. Mas não se assuste: eu não chego perto de mais do que o necessário, não toco em você sem que você queira, não invado o seu espaço. Você tem o seu lado, eu tenho o meu. E se um dia eu passar do limite, é só dizer - eu não sou de forçar ninguém.

Ele fez uma pausa, e repetiu, com a voz firme:

- Mas lembra do que eu falei: tudo isso vale enquanto você estiver dentro das regras. Se sair, a dívida volta. E aí, nem toda a sua coragem vai salvar vocês.

Eu fiquei parada no meio do quarto, olhando para ele, sentindo a raiva e a determinação lutarem dentro de mim. Ele era duro, era calculista, usava o acordo como arma. Mas ao mesmo tempo, eu via nele o mesmo tipo de homem que o meu pai tinha sido: homem de palavra, que cumpre o que diz, que não mente, que enfrenta de frente.

- Entendido - respondi, seca. - Agora pode ir. Eu quero ficar sozinha.

Ele acenou com a cabeça, deu meia-volta e fechou a porta, deixando-me sozinha.

Andei devagar até a janela e olhei para fora. Vi os peões trabalhando, as máquinas se movendo, os cavalos pastando, todo o movimento da Estância Barreto - o império que ele tinha construído com trabalho duro e mão firme. Vi o quanto ele era poderoso, o quanto ele controlava tudo ao seu redor. E vi também o tamanho do desafio que eu tinha pela frente: não só lidar com ele, com as regras, com a ameaça constante da dívida, mas também com dona Marisa, que com certeza ia procurar cada falha minha para usar contra mim.

Eu não pensava nele com carinho, nem com admiração. Naquele momento, eu só pensava que ele era o meu inimigo, o dono da minha dívida, o homem que me tinha comprado com um contrato. E que, se eu quisesse sobreviver aqui, se eu quisesse manter o que eu tinha salvo, eu teria que ser mais forte, mais esperta e mais dura do que todos eles.

Coloquei a mão no peito, sentindo o coração bater forte, e repeti para mim mesma, como uma promessa: Eu sou Helena Albuquerque. E eu não me curvo a ninguém.

A guerra tinha começado de verdade. E eu não ia perder.

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