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Papéis, Botas e um Olhar que Não Devia Existir

O dia amanheceu cinza, com uma brisa que trazia o cheiro de terra molhada e de folhas secas, como se até o céu soubesse que não havia nada de alegre para celebrar ali. Eu acordei antes do sol nascer, como sempre fazia, mas dessa vez não era para conferir o gado ou ver se a cerca do pasto estava inteira. Era porque, daqui a algumas horas, eu iria assinar a minha própria sentença: casar com Otávio Barreto, o homem que durante toda a minha vida foi o nome que a minha família citava como rival, como quem queria tomar o que era nosso.

Sentei na beira da cama e olhei para o canto do quarto, onde minha mãe guardara, anos atrás, um vestido de noiva branco, de renda e caimento longo, que deveria ser usado por mim num dia de amor, de escolha, de felicidade. Levantei devagar, abri a caixa de madeira, e passei a mão por aquele tecido macio. Por um segundo, senti uma dor no peito - a dor de saber que o meu casamento não seria nada daquilo que minha mãe sonhou para mim. Fechei a tampa com força, como se estivesse trancando um sonho que nunca iria se realizar.

- Não vai ser hoje - sussurrei para mim mesma, com a voz firme. - Não vou fingir que sou uma noiva feliz. Não vou vestir branco para quem só está comprando uma dívida.

Abri o meu guarda-roupa e peguei o vestido mais simples que eu tinha: de algodão, cor de areia, de mangas curtas, que eu usava para ir às feiras da cidade ou para caminhar pela fazenda. Era um tecido que já conhecia a poeira, o vento e o sol. Depois, fui até o canto onde ficavam as minhas botas de couro - as mesmas que eu usava para montar, para andar no meio do mato, para trabalhar do lado dos peões. Limpei bem o couro, passei graxa, e calcei-as com a mesma certeza de quem calça uma armadura.

Nenhuma renda, nenhum brinco de brilhante, nenhum véu. Apenas eu, o vestido simples e as botas que carregavam a história de tudo o que eu era. Se Otávio Barreto queria uma esposa, ele teria exatamente a mulher que ele comprou: a filha de Antônio Albuquerque, que sabia trabalhar, que sabia lutar, e que não iria fingir ser outra coisa.

Quando desci para a sala, Pedro estava me esperando, com os olhos vermelhos e uma expressão de culpa que eu odiava ver no rosto dele. Ele segurava os papéis dobrados, os mesmos documentos que eu tinha visto dias antes, os que provavam a dívida, o golpe, a derrota da nossa família.

- Helena... - ele começou, com a voz baixa, olhando de relance para as minhas botas. - Você não quis nada mais... mais arrumado?

Eu passei por ele, peguei os papéis da sua mão com firmeza, e respondi sem hesitar:

- O que eu sou está aqui, Pedro - bati o dedo no próprio peito, depois nas botas. - Não é uma roupa que vai mudar o que esse casamento é: um negócio. E negócio se faz com a verdade, não com fantasia.

Saímos de casa em silêncio. O caminho até o cartório da cidade pareceu mais longo do que nunca. Cada árvore que eu via pela janela, cada curva da estrada, cada pedaço de terra que eu conhecia de cor, me lembrava do pai, de como ele lutou para manter tudo isso, e de como eu estava ali para salvar o que restava. Por dentro, o coração doía, apertado, chorando por tudo o que eu tinha perdido: o pai, a liberdade, o direito de escolher o meu próprio caminho. Mas por fora, eu mantinha o rosto sério, o queixo erguido, a postura de quem não iria dar o gosto de ver a própria fraqueza.

Quando chegamos, ele já estava lá.

Otávio Barreto estava parado na frente da porta do cartório, com a mesma calma que parecia ser parte da sua pele. Usava uma roupa mais arrumada do que a que eu tinha visto na fazenda: calça de brim escura, camisa de algodão azul, botas também limpas e bem cuidadas. O chapéu estava na mão, e o sol batia nos cabelos escuros, com alguns fios de prata nas têmporas que eu nunca tinha reparado antes. Ele era grande, forte, e tinha uma presença que fazia tudo ao redor parecer menor. Mas o que me pegou de surpresa foi o jeito que ele olhou para mim assim que eu desci do carro.

Ele passou os olhos devagar, do meu rosto, pelo vestido simples, até chegar às minhas botas. Esperava ver desdém, ou ironia, ou até mesmo raiva por eu não ter me vestido como uma noiva de verdade. Mas não vi nada disso. O olhar dele parou nas botas por um segundo mais longo, e depois subiu de novo para os meus olhos. E ali, naqueles olhos escuros e profundos, eu vi algo que não fazia sentido: respeito. E mais alguma coisa, algo que mexeu com o meu estômago, algo que parecia curiosidade, ou até mesmo... admiração?

Ele não disse nada. Apenas acenou com a cabeça, um movimento pequeno, quase imperceptível, e abriu caminho para eu entrar.

O interior do cartório era frio, cheiro de papel velho e tinta de caneta. Havia apenas o oficial, que já estava sentado à mesa com os livros abertos, e algumas testemunhas - homens que eu não conhecia, provavelmente gente da Estância Barreto, pessoas que trabalhavam para ele. Ninguém sorria, ninguém falava alto. Era tudo tão seco, tão formal, tão frio, que parecia mais um contrato de compra e venda do que uma cerimônia de casamento.

Ficamos de pé um ao lado do outro, separados por um espaço pequeno, mas que parecia um abismo. O oficial começou a ler os termos, palavras que pareciam voar pelos meus ouvidos: "união civil", "bens", "obrigações", "acordo prévio". Tudo o que eu já sabia, tudo o que eu tinha aceito para salvar a fazenda.

Em um momento, ele pediu para que nós disséssemos o que nos levava a fazer aquilo. Eu falei primeiro, com a voz clara, sem tremer:

- Faço isso por honra à minha família e para preservar o legado do meu pai.

Foi tudo o que eu disse. Nenhuma palavra de afeto, nenhuma menção a futuro, nenhum sinal de que eu estava ali por vontade própria.

Quando chegou a vez dele, Otávio ficou em silêncio por um segundo, e eu senti o peso do olhar dele sobre mim.

- Faço isso para unificar terras que sempre foram vizinhas, e para garantir o bem de todos que vivem e trabalham nelas - disse ele, com a voz grave, calma, sem nenhuma emoção aparente. Era a resposta que se esperava, fria, calculada. Mas quando ele terminou, eu percebi que os olhos dele não saíam do meu rosto.

Chegou a hora de assinar. Peguei a caneta, e por um momento, a minha mão pesou. A minha assinatura ali iria mudar tudo. Eu deixaria de ser Helena Albuquerque para ser Helena Albuquerque Barreto. Eu deixaria de ser dona da minha própria vida para ser a esposa do meu maior rival. Olhei para o papel, para as linhas que definiam o meu destino, e lembrei de todos os documentos antigos que eu tinha encontrado, dos sinais que o pai deixou, da dívida que poderia ter destruído tudo. Respirei fundo, apertei a caneta com força, e assinei.

A tinta escura marcou o papel, e com ela, o fim de uma parte da minha vida.

Otávio assinou logo em seguida, com uma caligrafia firme, forte, sem hesitar. Quando ele terminou, os dedos dele roçaram de leve na borda da mesa, perto da minha mão, e eu senti um arrepio que não foi de frio.

- Agora estão casados - disse o oficial, fechando o livro com um baque seco.

E foi só isso. Nenhuma bênção, nenhum beijo, nenhum abraço. Nada.

Saímos do cartório, e o sol estava mais forte agora, batendo na cara. Eu parei na calçada, olhando para a rua vazia, sentindo que o chão tinha mudado debaixo dos meus pés. Otávio parou ao meu lado, tão perto que eu podia sentir o cheiro de terra e de madeira que vinha dele - um cheiro que era familiar, que era de homem da terra, igual ao do meu pai, mas diferente, com uma força própria.

Eu não o olhei. Não queria ver nada nos olhos dele, não queria sentir nada que não fosse raiva e dever. Mas ele falou, baixo, apenas para mim, sem virar o rosto:

- As botas ficaram bem. Era o que eu esperava de você.

Virei a cabeça rápido, surpresa. Ele já estava me olhando. E naquele olhar, de novo, eu vi: não era apenas o dono da dívida, não era apenas o homem que tinha comprado o meu nome. Havia algo mais ali, algo que ele escondia por trás daquela máscara de pedra, algo que eu não entendia, mas que fazia o meu coração bater mais forte, de um jeito que eu não queria admitir.

Ele não sorriu, não fez nenhum gesto de carinho. Apenas acenou para o carro, onde o motorista já esperava, e disse:

- Vamos. Agora você vem comigo.

Eu dei um passo à frente, firme, com as botas que marcavam cada passo que eu dava, com o vestido simples que era a minha verdade, com o sobrenome novo que eu carregava como uma espada.

Tinha assinado os papéis. Tinha cumprido o acordo. Tinha salvo a fazenda.

Mas enquanto eu caminhava ao lado dele, sentindo o peso daquele olhar que não saía de mim, eu percebi que o pior não era ter casado por contrato. O pior era saber que, de alguma forma, naquele dia frio e sem amor, Otávio Barreto tinha visto quem eu realmente era - e que, contra toda a minha vontade, eu tinha visto um pouco dele também.

E isso era muito mais perigoso do que qualquer dívida, qualquer rivalidade ou qualquer promessa que eu tivesse feito de nunca deixá-lo entrar.

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