Francisco tem a decência e eu quase digo a bondade de não abrir a boca enquanto eu seguro o travesseiro da Rosália contra o rosto. O cheiro dela ainda está ali. Aquele perfume suave misturado ao aroma natural da pele dela, algo que sempre me atingia como um soco quando eu passava perto demais. Agora, esse cheiro entra pelos meus pulmões como veneno.
Como lembrança.
Como perda.
Respiro fundo, tentando segurar aquilo dentro de mim, tentando agarrar o que sobrou dela, mas o travesseiro escapa pelas minhas mãos e cai no chão. O som é fraco, mas me corta por dentro. Sigo o movimento com os olhos e, sem querer, meu olhar vai até a janela. A cidade inteira se abre ali, enorme, viva, cheia de gente andando, carros passando, luzes piscando… e em algum lugar desse caos absurdo, ela está.
Minha esposa.
E o meu filho.
Os dois longe de mim.
Algo dentro de mim se mexe e um ódio antigo misturado com um medo que eu não quero admitir. É isso que me faz virar para Francisco, sentindo aquela velha fúr