Mundo ficciónIniciar sesiónLogan Narrando
Ouvi batidas firmes na porta do meu quarto, insistentes o suficiente para me arrancar de um sono bom. Abri os olhos devagar, ainda tentando entender que horas eram, quando senti um movimento ao meu lado. Olívia também tinha acordado. — Logan, quem é? — ela murmurou, a voz baixa e sonolenta. Passei a mão pelo rosto, já imaginando a resposta. — Meu pai. Só isso bastou para que o corpo dela enrijecesse levemente sob o lençol. Olívia e eu estamos juntos há quase um ano. Um relacionamento escondido, longe dos olhos da sociedade e principalmente, da minha família. Não por escolha minha, mas por imposição. Meu pai nunca permitiria. Olívia não tem sobrenome influente, não vem de uma família tradicional, não tem formação acadêmica. Para ele, isso a tornava invisível, ou pior, indigna. E no meu mundo, isso pesa. Eu sou Logan Taylor. Tenho 30 anos. Filho mais velho, único herdeiro homem de uma das famílias mais ricas e influentes do país. Nosso império gira em torno do setor bancário, investimentos e poder. E além disso, eu carrego o título que meu pai faz questão de reforçar: o boiadeiro oficial da família. Aquele que assume, que mantém, que expande. Aquele que não pode errar. — Fica aqui — falei para Olívia. — Não faz barulho. Ela assentiu, mas seus olhos já demonstravam preocupação. Caminhei até a porta e abri. Meu pai estava ali. Impecável como sempre, mesmo antes das sete da manhã. Terno alinhado, postura rígida e aquele olhar que nunca pedia, apenas exigia. — Veste uma roupa. Precisamos conversar. Sem sequer me dar bom dia. Respirei fundo, tentando manter a calma. — Agora? — Agora, Logan. Fechei a porta sem responder. Troquei de roupa rapidamente, uma calça de moletom e uma camiseta básica e desci para a sala. Ele já estava lá, de pé, como se fosse dono não só da casa, mas do tempo. Assim que entrei, ele jogou um envelope sobre a mesa de centro. — O que é isso? — perguntei, desconfiado. — Olha você mesmo. Com seus próprios olhos. Sentei no sofá, pegando o envelope. Algo dentro de mim já estava em alerta. Abri fotos. Minhas com a Olívia. Na balada da semana passada. Close demais. Ângulos perfeitos demais. Aquilo não foi acaso. Meu maxilar travou. — Eu já falei para você, Logan — ele começou, a voz carregada de desprezo — essa garota não é adequada para você. Levantei o olhar, sentindo a irritação crescer. — Você mandou alguém me seguir? — Eu faço o que for necessário para proteger o que é meu. A forma como ele disse aquilo me deu nojo. — Ela não é uma golpista — rebati. — E o Senhor não tem o direito de invadir a minha vida desse jeito. Ele soltou uma risada curta, sem humor. — Direito? Tudo isso aqui é meu. Deu um passo à frente, apontando ao redor. — Essa casa, essa empresa, essa fortuna, tudo. Inclusive o futuro que você insiste em tentar estragar. Levantei, encarando de frente. — Pai, o Senhor veio até a minha casa para ofender a minha namorada. Eu acho melhor o senhor se retirar. Ele sorriu. Um sorriso frio, calculado. — Sua casa? O silêncio pesou. — Isso aqui é meu, Logan. Eu construí tudo isso antes mesmo de você aprender andar. E aquela alpinista social que você insiste em defender, está atrás de algo que pertence a mim. Fechei os punhos. — O Senhor não sabe nada sobre ela. — Sei o suficiente. Passei a mão pelos cabelos, já exausto. — Não são nem sete da manhã. — Exatamente — ele interrompeu. — E eu vim aqui porque você precisa entender uma coisa antes que seja tarde. Meu corpo ficou tenso. — Hoje, às sete da noite, quero você na minha casa. Franzi o cenho. — Para quê? — Seu jantar de noivado. O mundo pareceu parar por um segundo. — O quê? — Com Emily Skye. O nome não significava nada, mas a forma como ele disse, sim. — Herdeira da família Skye. Jovem, bonita, bem-educada e formada. Exatamente o tipo de mulher que um Taylor precisa ao lado. Soltei uma risada incrédula. — Isso é sério? — Muito. — Pai, eu tenho 30 anos — falei, sentindo a paciência se esgotar. — Eu não sou um adolescente para o senhor decidir com quem eu vou me casar. — Já está decidido. — Eu não vou me casar com uma mulher que eu não conheço. Ele me encarou por alguns segundos, avaliando cada palavra minha. E então falou, com uma calma que era ainda mais ameaçadora. — Você vai, Logan. Balancei a cabeça. — Não vou. — Vai sim — ele insistiu, dando um passo mais perto. — Porque diferente do que você pensa, você ainda depende de mim. Aquilo atingiu em cheio. — E se eu disser não? Ele inclinou levemente a cabeça, como se já esperasse a pergunta. — Então talvez sua namoradinha arque com as consequências. Meu sangue gelou. — O senhor não faria isso. — Teste. O silêncio que se instalou foi pesado, sufocante. Ele ajustou o paletó, como se nada tivesse acontecido. — Sete da noite, Logan. Não se atrase. E saiu. Fiquei ali, parado, encarando o envelope ainda aberto sobre a mesa. Minhas mãos estavam cerradas. Minha vida, estava sendo negociada. E, pela primeira vez. Eu não tenho controle algum. Quando voltei para o quarto, encontrei Olívia sentada na cama, os olhos vermelhos e cheios de lágrimas. Aquela cena me atingiu de um jeito que nenhuma ameaça do meu pai conseguiu. — Ei. — murmurei, me aproximando rápido. Ela levantou o olhar para mim, completamente vulnerável. — Eu ouvi, Logan. — a voz dela saiu quebrada. — Eu ouvi tudo. Senti um aperto no peito. Droga. Sentei ao lado dela e a puxei para meus braços sem pensar duas vezes. Olívia se agarrou a mim como se eu fosse a única coisa que ainda a mantinha de pé. — Não se preocupa com isso — falei baixo, passando a mão pelos cabelos dela. — Eu vou dar um jeito. — Você não pode lutar contra ele. — ela sussurrou contra meu peito. — Ele vai acabar com você, com a gente. Segurei o rosto dela com cuidado, fazendo com que me olhasse. — Olha pra mim. Ela hesitou, mas obedeceu. — Eu não vou deixar ninguém decidir a minha vida desse jeito. Muito menos quem eu amo. As lágrimas voltaram a escorrer pelo rosto dela. — E se você for obrigado? Respirei fundo. Aquela possibilidade ainda ecoava na minha cabeça como uma ameaça real. Mas eu não podia deixar ela sentir isso. — Mesmo que isso aconteça. — comecei, firme — eu nunca vou ser de outra. Os olhos dela se arregalaram levemente. — Eu sou seu, e você é minha, independente do meu estado civil. Encostei minha testa na dela. — Nada vai mudar isso. Nada. Ela fechou os olhos, deixando mais algumas lágrimas caírem, mas dessa vez, parecia haver um pouco menos de medo. Apertei ela mais forte contra mim. Porque, no meio de toda aquela guerra que estava começando. Ela era a única coisa que eu não estou disposto a perder.






