Mundo de ficçãoIniciar sessão
Emily Narrando
O dia mais feliz da minha vida não teve música alta, nem champanhe estourando em exagero. Teve aplausos, sim, mas o que realmente ficou marcado foi a sensação de finalmente ser quem eu sempre quis ser. Eu me chamo Emily Skye, tenho 23 anos, e naquele dia eu me formei em moda. Desde pequena, eu fui cercada por tudo aquilo que muitas pessoas chamariam de perfeição. Minha família sempre teve dinheiro, muito dinheiro. Meu pai é CEO de uma das maiores empresas do ramo automotivo do país, e o sobrenome Skye abre portas antes mesmo que eu precise bater. Cresci em uma casa enorme, com janelas altas, pisos impecáveis e um silêncio elegante que sempre me acompanhou. Mas não foi isso que me definiu. O que sempre me encantou foi o detalhe. Os tecidos. As cores. A forma como uma peça podia contar uma história sem dizer uma única palavra. — Você leva isso a sério demais, Emily — minha mãe costumava dizer, observando meus croquis espalhados pelo quarto. — Porque é sério para mim — eu respondia, sem nem levantar os olhos do papel. Ela nunca entendeu completamente. Para ela, moda é aparência. Para mim, é identidade. No ensino médio, tudo ficou mais leve quando conheci Nathaly. — Você também desenha roupas? — ela perguntou, olhando por cima do meu caderno em um intervalo qualquer. — Desenho desde criança. — Então a gente vai se dar muito bem. E a gente se deu. Nathaly virou minha melhor amiga, minha cúmplice, minha parceira de sonhos. Enquanto todos ao nosso redor falavam sobre carreiras seguras, casamentos vantajosos e heranças, nós falávamos sobre tecidos italianos, desfiles em Paris e o nosso futuro ateliê. — Imagina, Emily, nosso nome na fachada. — Skye & Devis Atelier — eu completava, sorrindo. — Luxo, sofisticação e exclusividade. — E liberdade — eu acrescentava. Liberdade. Era isso que a moda representava para mim. A chance de escolher quem eu queria ser, sem precisar seguir um roteiro imposto. E por um tempo, eu acreditei que conseguiria. A faculdade foi tudo o que eu sonhei. Dias intensos, noites mal dormidas, mãos manchadas de tinta, olhos cansados, e um coração cheio. Cada projeto entregue era um pedaço de mim no mundo. Até que, finalmente, chegou o grande dia. — Emily Skye — anunciaram. Eu caminhei até o palco com o coração acelerado e um sorriso que não cabia em mim. Quando segurei meu diploma, soube que aquele era o meu começo. Ou pelo menos, eu achei que fosse. Porque algumas semanas depois, tudo mudou. Era uma noite comum. Um jantar como tantos outros na casa dos meus pais. A mesa posta com perfeição, taças alinhadas, pratos impecáveis. O tipo de cenário onde nada parece fora do lugar. Mas estava. — Emily, precisamos conversar — meu pai disse, com a voz firme demais para ser ignorada. Eu franzi o cenho, apoiando os talheres. — Sobre o quê? Ele trocou um olhar rápido com a minha mãe antes de continuar. — Seu futuro. — Meu futuro já está decidido — respondi, tranquila. — Eu vou abrir meu ateliê com a Nathaly. Minha mãe suspirou, como se eu tivesse dito algo ingênuo. — Não, querida. Você não vai. Meu estômago revirou. — Como assim? Meu pai pousou o guardanapo na mesa com calma calculada. — Você vai se casar. O silêncio que veio depois foi ensurdecedor. — Isso é uma piada? — Não. — Com quem? — minha voz saiu mais baixa do que eu esperava. — Logan Taylor. O nome não significava nada para mim. E talvez esse fosse o problema. — Eu nem sei quem é esse homem. — Não precisa saber — minha mãe respondeu, fria. — Precisa apenas cumprir o que é melhor para a família. Senti algo dentro de mim quebrar. — E o que é melhor para mim? Meu pai me encarou como se a resposta fosse óbvia. — Você é uma Skye, Emily. E às vezes, isso vem antes dos seus desejos. Naquele momento, eu entendi. Todo o luxo. Toda a sofisticação. Todos os privilégios. Nunca foram liberdade. Foram uma prisão dourada. E naquela noite, eu tive meu sonho interrompido. — Eu não vou me casar com esse homem. Minha voz saiu firme, mesmo com o coração batendo descompassado no peito. Eu ainda estava sentada à mesa, mas já não sentia o gosto da comida, nem o peso dos talheres nas mãos. Só existia aquela decisão absurda sendo jogada sobre mim. — Eu me recuso, me casar com esse homem. — Não há discussão, Emily — meu pai continuou. — Você vai se casar com Logan Taylor. O nome ecoou na minha mente como uma sentença. — Eu não sou uma moeda de troca — falei, sentindo os olhos arderem. — Sou sua filha. — E é exatamente por isso que vai fazer o que precisa ser feito. Aquilo foi o suficiente. Empurrei a cadeira com força, o barulho ecoando pela sala elegante demais para aquele tipo de confronto. — Eu não vou aceitar isso. — Você não tem escolha. Eu não respondi. Se ficasse ali por mais um segundo, eu iria desmoronar na frente deles. E eu me recusava a dar esse gosto. Subi as escadas quase correndo, as lágrimas já escorrendo antes mesmo de chegar ao meu quarto. Fechei a porta com força, encostando as costas nela enquanto o choro finalmente me dominava. Minha vida estava sendo arrancada de mim. Caminhei até a cama e me joguei ali, olhando para o teto enquanto tudo girava na minha cabeça. Foi quando outra lembrança me atingiu com força. Milão, a proposta. Alguns dias antes, eu tinha recebido o e-mail que qualquer recém-formada sonharia em ter. Uma oportunidade em uma grande casa de moda, no coração da Itália. Meu sonho, materializado. Mas eu recusei. — Eu não vou sem você — disse para Nathaly, segurando suas mãos enquanto ela chorava. Ela não tinha sido selecionada. Apenas eu. — Emily, você precisa ir — ela insistiu, com os olhos vermelhos. — Não faz sentido sem você. E então eu fiquei. Por lealdade. Por amizade. Por nós. Agora eu sentia o peso daquela escolha. Fiquei ali, só sentindo as lágrimas derramando. Peguei meu celular com mãos trêmulas e abri nossa conversa. — Emily, isso não pode estar acontecendo. — Você falou sério sobre o casamento? — Por favor, me responde. Engoli em seco antes de digitar. — Eles querem me obrigar. A resposta veio quase instantaneamente. — Então foge. Meu coração acelerou. A ideia parecia absurda, e ao mesmo tempo, a única coisa que fazia sentido. Minutos depois, outra mensagem apareceu. — Eu mandei um e-mail. Franzi a testa. — Para quem? — Para a empresa de Milão. Sentei na cama, prendendo a respiração. — Perguntei se a proposta ainda está de pé. Para você. Meu peito apertou. — Nathaly… Talvez ainda houvesse uma saída. Ir para Milão. Recomeçar. Fugir da vida que estavam tentando me fazer engolir. Fechei os olhos, imaginando como seria estar longe daqui. Livre. Dona das minhas escolhas. Mas a porta do meu quarto se abriu, interrompendo qualquer fantasia. — Emily. Era minha mãe. Limpei rapidamente as lágrimas, me levantando. — Eu já disse que não vou me casar. Ela fechou a porta atrás de si, parecendo mais abatida do que eu já a tinha visto antes. — Você precisa me ouvir. — Não tem nada que você possa dizer que vá mudar isso. — Tem, sim. Algo na voz dela me fez hesitar. — Há anos, nós estamos nas mãos dos Taylor. Senti o corpo enrijecer. — O quê? Ela deu alguns passos em minha direção. — Seu pai cometeu erros. Negócios, decisões que poderiam destruir tudo. Nossa reputação, a empresa, nossa família. — E o que isso tem a ver comigo? Os olhos dela se encheram de lágrimas. — Tudo. O ar ficou pesado. — Logan Taylor é o filho mais velho. Esse casamento, é a única coisa que pode impedir que um escândalo venha à tona. Balancei a cabeça, sem conseguir processar. — Então é isso? Vocês vão me sacrificar? — Não é sacrifício, é proteção. — Para vocês — corrigi, a voz falhando. — Porque para mim, isso é o fim. Ela não negou. E foi aí que eu entendi. Milão não era mais um sonho distante. Era a minha única chance.






