Emily

Emilly Narrando

Passei a manhã inteira esperando uma resposta de Milão.

Nada.

Atualizei meu e-mail tantas vezes que comecei a decorar cada detalhe da tela. Caixa de entrada vazia. Nenhuma mensagem nova. Nenhuma oportunidade salvadora aparecendo para me tirar daquela casa e daquela vida que estavam tentando empurrar para mim.

Mas eu me recusava a ficar parada.

Então foquei no que ainda estava ao meu alcance.

Uma entrevista.

Pode não ser Milão, mas ainda era moda.

Levantei da cama determinada e comecei a me arrumar com a atenção quase obsessiva que sempre tive com estética. Se eu quero ser levada a sério, preciso parecer exatamente a mulher que eu sei que sou.

Escolhi uma calça pantalona de alfaiataria bege de cintura alta, ajustada perfeitamente ao meu corpo, combinada com uma blusa de seda branca de mangas longas e gola estruturada. Nos pés, um scarpin nude elegante. Prendi meu cabelo em um coque baixo impecável, deixando apenas algumas mechas suaves emoldurarem meu rosto. A maquiagem ficou leve, sofisticada, valorizando meus traços sem exageros.

Mas o detalhe principal estava no sobretudo caramelo que coloquei por cima.

Elegante. Atemporal. Forte.

Exatamente como eu queria me sentir.

Peguei minha pasta de couro onde estavam meus croquis, desenhos, conceitos e projetos desenvolvidos durante a faculdade. Não eram apenas papéis.

Eram pedaços meus.

Antes de sair, coloquei meus óculos escuros.

Não queria olhar para ninguém nessa casa.

Principalmente para o meu pai.

Desci as escadas em silêncio absoluto. Ouvi vozes vindas da sala, mas continuei andando sem hesitar.

— Emily — minha mãe chamou.

Ignorei. Peguei minha bolsa, minhas chaves e saí sem sequer virar o rosto.

O ar frio da rua atingiu minha pele e, pela primeira vez desde o jantar da noite anterior, consegui respirar direito.

Durante o trajeto até o ateliê, minhas mãos suavam discretamente de nervosismo. Eu tentava repetir para mim mesma que aquilo era apenas uma entrevista, mas não era.

Era a chance de recuperar o controle da minha vida.

O ateliê é sofisticado, moderno e exatamente o tipo de lugar onde eu sempre sonhei trabalhar. Tons claros, tecidos expostos como obras de arte e manequins vestidos com peças impecáveis.

Fui recebida por uma assistente simpática que me conduziu até a sala do gerente criativo.

— Emily Skye? — ele perguntou ao me ver entrar.

— Sim.

— Pode se sentar.

O nome dele é Richard Coleman. Elegante, atento e claramente apaixonado por moda. Isso ficou óbvio no segundo em que abriu minha pasta.

Ele começou a analisar meus croquis em silêncio.

Um.

Dois.

Três.

A expressão dele mudou completamente.

— Foi você quem desenhou isso?

Endireitei a postura.

— Sim.

Ele virou mais algumas páginas rapidamente.

— Esses traços, são excelentes.

Meu coração acelerou.

Richard puxou quatro desenhos específicos e os separou.

— Esses aqui são extraordinários.

Prendi a respiração.

— Você realmente gostou?

Ele soltou uma risada leve.

— Emily, eu estou obcecado por essas peças.

Senti vontade de chorar ali mesmo.

Depois de tantas horas ouvindo que meu futuro deveria pertencer a outra pessoa, alguém finalmente estava olhando para algo que era meu.

— Quero incluir esses quatro modelos na nossa nova coleção.

Pisquiei, sem acreditar.

— Desculpa, o quê?

— Você ouviu certo — ele respondeu, sorrindo. — E se aceitar trabalhar conosco, vai assinar suas primeiras peças oficialmente.

Meu coração praticamente explodiu dentro do peito.

Minhas peças.

Minha assinatura.

Meu sonho.

Saí daquele ateliê quase flutuando.

Assim que entrei no carro, peguei o celular e liguei imediatamente para Nathaly.

Ela atendeu no segundo toque.

— Emily?

— Eu consegui.

— O quê? — ela praticamente gritou.

Comecei a rir pela primeira vez em dias.

— Eles amaram meus croquis. Quatro peças vão entrar na coleção.

Do outro lado da linha, Nathaly começou a berrar tão alto que precisei afastar o celular do ouvido.

— EU SABIA! EU SABIA!

— E eu vou assinar minhas primeiras peças.

Minha voz falhou de emoção.

— Meu Deus, Emily, isso é enorme.

Marcamos almoço imediatamente.

Algumas horas depois, estávamos sentadas em um restaurante pequeno e elegante perto do centro. Nathaly segurava minha mão por cima da mesa enquanto sorria como uma criança.

— Eu tenho tanto orgulho de você.

— E logo eu vou conseguir um trabalho pra você lá também — falei animada. — A gente economiza dinheiro, abrir nosso próprio ateliê e nunca mais depender de ninguém.

Ela ergueu a taça.

— Ao Skye e Devis Atelier.

Sorri, erguendo a minha também.

— Ao nosso futuro.

As taças tilintaram.

Mas então Nathaly me encarou por alguns segundos antes de perguntar:

— E sobre esse casamento?

Revirei os olhos imediatamente.

— Ridículo.

— Você sabe alguma coisa sobre esse Logan Taylor?

Balancei a cabeça.

— Nada. Só sei que ele é um completo desconhecido que minha família decidiu enfiar na minha vida.

Nathaly suspirou.

— Famílias ricas são assustadoras.

Soltei uma risada amarga.

— Você não faz ideia.

Quando voltei para casa, toda a felicidade que eu tinha sentido durante o dia começou a desaparecer assim que atravessei a porta principal.

O ambiente parecia estranho.

Silencioso demais.

Pesado demais.

Tirei os óculos escuros devagar enquanto caminhava pelo hall enorme da mansão dos meus pais, ainda tentando me agarrar à sensação boa que a entrevista tinha deixado em mim. Eu tinha conseguido. Minhas peças assinadas. Meu sonho ainda respira.

Mas nessa casa, sonhos nunca duram muito.

— Filha! — ouvi minha mãe chamar.

Virei o rosto e a encontrei descendo as escadas com um sorriso elegante nos lábios, como se estivesse genuinamente feliz.

— Que bom que você chegou.

Apenas assenti, cansada demais para fingir normalidade.

— Às sete horas da noite temos um compromisso na mansão dos Taylor.

Meu corpo travou.

Ela continuou falando naturalmente, completamente alheia ao caos que aquelas palavras causavam em mim.

— Hoje finalmente você e Logan vão se conhecer. Também vamos oficializar o noivado.

Olhei para ela sem conseguir acreditar.

Ela estava sorrindo.

Como se aquilo fosse uma notícia boa. Como se estivesse anunciando um jantar qualquer.

Meu estômago revirou.

— Desculpa, o quê?

— O noivado, querida — ela respondeu com tranquilidade absurda. — Seu noivado com o herdeiro dos Taylor.

Senti o ar faltar por alguns segundos.

Juro que, naquela hora, eu queria morrer.

Porque ouvir aquilo tornava tudo real.

Até então, uma parte de mim ainda acreditava que aquilo não aconteceria. Que meu pai voltaria atrás. Que alguém apareceria dizendo que tudo não passou de um exagero.

Mas não. Eles estavam realmente fazendo isso.

Respirei fundo, tentando controlar o desespero que queimava no meu peito.

— Vocês enlouqueceram.

Minha mãe suspirou, como se eu estivesse sendo dramática.

— Emily, pare de agir como uma criança.

Soltei uma risada nervosa.

— Uma criança? Vocês estão decidindo com quem eu vou passar o resto da minha vida sem sequer me perguntar se eu quero isso.

— Você precisa pensar racionalmente.

— Racionalmente? — repeti, sentindo os olhos arderem. — Meu futuro não é uma negociação empresarial.

Ela desviou o olhar por um instante antes de responder:

— Às vezes fazemos sacrifícios pela família.

Sacrifício. É engraçado como essa palavra sempre é usada quando alguém quer destruir outra pessoa em nome de algo maior.

Mas ninguém pergunta ao sacrificado se ele está disposto a morrer.

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