Capítulo 4 — A Manhã da Sentença

— A casa inteira adoraria.

Os dedos dele tocaram sua nuca.

Alina odiou o arrepio que subiu pela pele. Odiou porque o corpo não sabia tudo que a mente sabia. O corpo lembrava da dança, do beijo, da proximidade. O corpo era burro. O corpo era perigoso.

Damon soltou o fecho.

O colar caiu na mão dele.

A marca vermelha em volta da garganta de Alina apareceu no espelho.

Ele viu.

Ela também.

— Está satisfeito? — ela perguntou. — Até o colar do meu pai deixou marca.

Damon colocou a joia sobre a penteadeira.

— Victor sempre gostou de coleiras caras.

Alina virou-se rápido.

— Não use meu ódio por ele para justificar o que você fez comigo.

Damon sustentou o olhar.

— Você odeia seu pai?

Ela não respondeu.

Isso já era resposta demais.

— Interessante — ele disse.

— Não transforme minha vida em informação útil para sua vingança.

— Tarde demais.

Alina deu um passo para perto dele.

— Você quer me destruir? Então aprenda uma coisa: eu não vou facilitar. Não vou implorar amor, não vou pedir explicação de joelhos, não vou disputar lugar com Serena Ashford, nem vou chorar no colo da sua avó manipuladora. Você pode ter armado esse casamento, Damon, mas não controla o que eu faço dentro dele.

O olhar dele desceu para a boca dela.

Subiu de novo.

A tensão entre os dois mudou de temperatura.

Não ficou macia.

Ficou mais perigosa.

— Você fala como se tivesse escolha — ele disse.

— Eu tenho. Sempre tive. Só demorei a usar.

Damon se aproximou um pouco mais.

— E qual é sua escolha agora?

Alina pegou o colar da penteadeira e jogou na direção dele. A joia bateu no peito de Damon e caiu no tapete.

— Dormir trancada. Sozinha.

Ele olhou para o colar no chão.

Depois para ela.

— A porta tranca por dentro?

— Se não trancar, arrasto aquela cômoda.

Pela primeira vez, Damon pareceu quase divertido.

Quase.

— Boa noite, esposa.

— Não me chame assim.

Ele abriu a porta.

Antes de sair, parou.

— Alina.

Ela não respondeu.

— Amanhã cedo, não espere delicadeza.

O frio voltou.

— O que você vai fazer?

Damon olhou para ela por cima do ombro.

— Terminar o que comecei.

A porta fechou.

Alina ficou parada no meio do quarto, com o vestido de noiva pesando como uma armadura emprestada.

Só quando ouviu os passos dele se afastarem é que correu até a porta e girou a chave.

Depois arrastou a cômoda.

Depois arrancou os grampos do cabelo.

Depois respirou.

Não chorou de imediato.

Sentou-se na beira da cama, ainda vestida de noiva, encarando o próprio reflexo no espelho oval.

A maquiagem continuava perfeita.

Isso a revoltou mais do que qualquer coisa.

Parecia que o rosto dela traía o que tinha acontecido. Parecia que a mulher no espelho ainda era a noiva de uma festa elegante, não uma pessoa que acabara de descobrir que tinha sido usada como arma contra a própria família.

Alina pegou o buquê esquecido na poltrona.

As rosas já começavam a murchar nas bordas.

Ela puxou uma flor.

Depois outra.

Depois outra.

Pétalas caíram sobre o vestido branco.

Quando terminou, o buquê estava destruído no chão.

Aí, sim, ela chorou.

Não bonito.

Não silencioso.

Chorou com a mão na boca para não dar àquela casa o prazer de escutá-la.

Na manhã seguinte, Alina acordou com batidas na porta.

Por alguns segundos, não soube onde estava.

A luz entrava pelas cortinas. O vestido de noiva ainda cobria seu corpo amassado. A cabeça latejava. A garganta ardia.

As batidas vieram de novo.

— Senhora Blackthorne? — chamou uma empregada, hesitante. — Seu pai está no salão. O senhor Blackthorne também.

Alina sentou-se devagar.

A noite voltou inteira.

Damon.

Tudo.

Vingança.

Ela olhou para a cômoda diante da porta.

— Um minuto.

A voz saiu rouca.

Trocou de roupa com movimentos mecânicos. Escolheu um vestido claro simples que alguém deixara no armário, talvez para o café da manhã dos recém-casados. Prendeu o cabelo sem cuidado. Lavou o rosto. A maquiagem escorreu um pouco, mas ela não tentou esconder tudo.

Que vissem.

Empurrou a cômoda, destrancou a porta e saiu.

A casa estava silenciosa demais.

No salão principal, onde na noite anterior havia música e champanhe, restavam algumas flores sendo retiradas por funcionários. Victor estava de pé perto da lareira, vermelho de raiva. Helena sentava-se no sofá, pálida. Celeste ocupava uma poltrona como se o lugar fosse dela.

Serena estava ali.

Mirella também.

E Damon, de terno escuro, impecável, parado no centro do salão.

Alina desceu os últimos degraus sentindo todos os olhos virarem para ela.

— O que é isso? — perguntou.

Victor veio em sua direção.

— Onde está seu marido?

Alina olhou para Damon.

— Pergunte a ele.

Victor franziu a testa.

— Damon acaba de informar uma decisão absurda.

Helena levantou-se.

— Alina, minha filha…

Damon interrompeu.

— Eu mesmo direi.

O salão inteiro parou.

Alina sentiu o corpo se preparar para o golpe antes que ele viesse.

Damon caminhou até ela.

Parou perto o bastante para que os outros vissem intimidade. Longe o bastante para que ela sentisse desprezo.

— Este casamento cumpriu sua função.

Victor soltou um palavrão baixo.

Alina não desviou os olhos.

— Que função?

Damon virou-se para todos, mas falou olhando para ela.

— Mostrar aos Valmont como é ter algo precioso exposto, celebrado e abandonado diante da cidade inteira.

Helena levou a mão à boca.

Serena sorriu.

Victor avançou um passo.

— Você passou dos limites, Blackthorne.

Damon nem olhou para ele.

— Não. Eu apenas cheguei aos limites que sua família desenhou anos atrás.

Alina sentiu o sangue sumir das mãos.

— Damon.

Ele finalmente encarou-a.

Na noite anterior, havia crueldade privada.

Agora, ele escolhia a pública.

— Eu nunca amei você, Alina.

A frase caiu no salão como vidro quebrado.

Mas ele não parou.

— Nunca quis este casamento por amor. Nunca tive intenção de construir uma vida ao seu lado. Você foi o preço. Nada mais.

Helena chorou sem som.

Victor ficou imóvel, o rosto retorcido entre fúria e pânico.

Alina sentiu cada olhar sobre sua pele. Empregados. Parentes. Inimigos. Gente que fingiria pena e espalharia a história antes do almoço.

A noiva abandonada.

A Valmont usada.

A esposa de uma noite.

Damon deu o último golpe com voz baixa, clara, perfeita:

— A partir de hoje, todos saberão que uma Valmont também pode ser descartada.

Alina não percebeu quando sua mão se fechou.

Não percebeu quando deu um passo.

Só percebeu Damon perto demais outra vez.

Ela não chorou.

Não baixou a cabeça.

Atravessou a distância entre eles e disse, para todos ouvirem:

— Então escute bem, Damon Blackthorne. Você pode ter me usado como vingança, mas cometeu um erro.

O olhar dele se estreitou.

— Qual?

Alina arrancou a aliança do dedo.

A pele resistiu. O anel machucou. Ela puxou mesmo assim.

Quando conseguiu, segurou a joia entre os dedos e ergueu diante do rosto dele.

— Você me deixou viva.

E jogou a aliança aos pés dele.

A aliança não caiu com o som dramático que Alina esperava.

Não houve estrondo.

Não houve música interrompida.

A joia apenas bateu no mármore, girou duas vezes e parou ao lado do sapato preto de Damon Blackthorne.

Pequena.

Brilhante.

Ridícula diante da ruína que tinha acabado de causar.

Por alguns segundos, ninguém se mexeu.

Victor Valmont ficou vermelho até a raiz dos cabelos. Helena levou a mão ao peito como se procurasse ar. Celeste Blackthorne permaneceu sentada na poltrona, os dedos finos repousados sobre a bengala, olhando para Alina com uma curiosidade fria, quase divertida.

Serena Ashford foi a primeira a sorrir.

Um sorriso mínimo.

Mas Alina viu.

E Damon também.

Ele não abaixou para pegar a aliança.

Continuou olhando para Alina como se ela tivesse feito algo inesperado. Não algo capaz de feri-lo. Não ainda. Apenas inesperado.

— Pegue — Alina disse.

A voz dela saiu firme.

Mais firme do que ela estava por dentro.

Damon inclinou a cabeça.

— O quê?

— A aliança. Pegue. Se o casamento cumpriu sua função, como você disse, então leve seu troféu com você.

Victor avançou.

— Alina, cale a boca.

Ela nem olhou para o pai.

— Não.

A palavra saiu simples.

Curta.

O tipo de palavra que nunca tinha sido permitida dentro da mansão Valmont.

Victor parou como se tivesse levado um tapa.

— O que você disse?

Alina virou o rosto devagar.

Viu o homem que tinha escolhido seu vestido, aprovado seus convidados, definido o menu, corrigido seus votos antes da cerimônia e entregue sua mão a Damon como quem despachava uma mercadoria cara.

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