Mundo de ficçãoIniciar sessão— Não esta noite — disse ele. — Ela ainda não sabe.
Alina parou.
Damon ficou em silêncio.
Então desligou sem se despedir.
— Escutar atrás de portas combina com os Valmont? — perguntou, sem virar de imediato.
— Ser enganada no próprio casamento combina mais com os Blackthorne?
Ele virou.
A luz baixa do corredor desenhava sombras no rosto dele. Ali, longe dos convidados, Damon parecia menos polido. Mais perigoso.
— Você deveria estar no salão.
— Você também.
— Eu sou o noivo. Posso me ausentar.
— E eu sou o quê?
Ele deu um passo na direção dela.
— A noiva.
Alina riu, mas a risada saiu quebrada.
— Não. Essa palavra já não serve. Todo mundo nesta festa sabe algo que eu não sei. Serena sabe. Celeste sabe. Meu pai sabe. Talvez até os garçons saibam. Então diga logo, Damon. Que tipo de casamento é esse?
Ele não respondeu.
Alina sentiu a garganta apertar, mas continuou.
— Eu entrei naquela igreja acreditando que talvez pudéssemos construir alguma coisa. Não amor imediato. Não fantasia. Mas respeito. Uma chance. Eu fui honesta nos meus votos. E você…
— Eu também fui.
— Não. Você ameaçou.
— Eu prometi que ninguém esqueceria este dia.
A frieza dele era insuportável.
— Por quê?
Damon olhou para a porta da biblioteca. Depois para ela.
— Porque sua família esqueceu outros dias que deveria lembrar.
— Do que você está falando?
— Da minha mãe.
O nome não veio. Só a ferida.
Alina conhecia a história por cima. Todos conheciam.
A mãe de Damon Blackthorne tinha morrido anos atrás, em circunstâncias abafadas por dinheiro, silêncio e versões oficiais. Um acidente. Uma queda. Um escândalo encerrado antes de nascer.
Mas ninguém tinha ligado aquilo aos Valmont diante dela.
— Minha família não teve nada a ver com a morte da sua mãe — Alina disse.
Damon sorriu.
Foi o primeiro sorriso real da noite.
E foi horrível.
— Você diz isso com tanta facilidade.
— Porque é verdade.
— Você sabe o que é verdade dentro da casa de Victor Valmont?
Ela recuou um passo.
Damon avançou outro.
— Sabe quantas mentiras foram servidas na mesa onde você aprendeu a usar talheres de prata? Sabe quantas pessoas foram compradas para que seu sobrenome continuasse limpo? Sabe quanto sangue cabe debaixo de mármore branco?
— Pare.
— Não. Você quis saber que casamento é esse.
— Um casamento não é punição.
— Este é.
Alina sentiu como se o chão tivesse cedido, mas permaneceu de pé.
— O que você fez?
Damon chegou perto o bastante para ela sentir o perfume dele, madeira escura e algo amargo.
— Eu dei aos Valmont exatamente o que eles valorizam.
— Aparência?
— Uma aliança pública.
Ela entendeu antes que ele terminasse.
E mesmo assim esperou.
Porque às vezes a mente tenta proteger o corpo por alguns segundos.
— Você se casou comigo para atingir meu pai.
— Seu pai. Seu nome. Sua casa. Todos que sorriram enquanto a minha mãe virava um retrato na parede.
Alina levou a mão ao peito.
O colar parecia apertar.
— Então tudo foi mentira.
Damon não piscou.
— Tudo.
A palavra bateu nela com violência limpa.
Tudo.
Os encontros discretos. Os jantares. A forma como ele a observava em silêncio enquanto Victor falava de negócios. O pedido formal. A escolha do anel. A casa que ele disse que queria mostrar a ela depois do casamento. A dança. O beijo.
Tudo.
Alina olhou para a mão esquerda. A aliança brilhava, indiferente.
— Você dorme bem fazendo isso com uma pessoa que não te fez nada?
Algo atravessou o rosto de Damon.
Não culpa.
Não ainda.
Talvez irritação por ela ter acertado algum lugar que ele não queria expor.
— Você é uma Valmont.
— Eu sou Alina.
— Não para mim.
Ela levantou o rosto devagar.
O corredor parecia estreito. O som da festa vinha abafado, como se pertencesse a outra vida.
— Então por que se aproximou? Por que não atacou meu pai diretamente? Por que me arrastou para isso?
— Porque Victor Valmont não ama muitas coisas.
Alina esperou.
Damon inclinou a cabeça.
— Mas ama o que pode exibir.
A crueldade daquela resposta não foi alta. Não precisou ser.
Alina sentiu os olhos arderem.
Não choraria.
Não ali.
Não diante dele.
— Você me transformou em vitrine quebrada.
— Eu transformei você em consequência.
A mão dela subiu antes que a razão segurasse.
O tapa estalou no corredor.
Forte.
Limpo.
A cabeça de Damon virou ligeiramente.
Por um instante, nenhum dos dois respirou.
Alina abaixou a mão, sentindo os dedos latejarem.
— Essa foi a primeira coisa verdadeira que aconteceu neste casamento.
Damon passou a língua no canto interno da boca, como se verificasse sangue. Depois voltou a olhar para ela.
Os olhos dele estavam mais escuros.
— Cuidado, Alina.
— Não. Você vai me ouvir. Você queria uma Valmont humilhada? Parabéns. Conseguiu. Mas não confunda choque com fraqueza. Eu posso ter sido enganada, vendida, usada no altar como peça de vingança, mas eu não sou seu objeto. Nem do meu pai. Nem da sua família morta. Nem dessa velha que te criou para odiar.
O nome de Celeste, mesmo não dito, caiu entre eles.
Damon ficou imóvel.
— Não fale do que não entende.
— Então me explique.
— Você não merece explicação.
Alina riu baixo.
Dessa vez, não havia fragilidade na risada.
— Engraçado. Eu mereci seu castigo, mas não mereço a verdade.
O maxilar dele trabalhou.
Ela se virou para voltar ao salão, mas Damon segurou seu pulso.
Não apertou ao ponto de machucar.
Mas segurou.
Alina olhou para a mão dele.
Depois para o rosto.
— Solte.
Ele não soltou de imediato.
— A festa ainda não acabou.
— Para mim, acabou no instante em que você disse “tudo”.
— Você vai voltar comigo.
— Para sorrir?
— Para não dar a Victor o prazer de parecer vítima.
Alina puxou o pulso.
Ele soltou.
— Você ainda acha que isso é sobre meu pai. Talvez seja. Mas agora também é sobre mim.
Ela ergueu a mão com a aliança.
— E isto não te dá direito a nada.
Damon olhou para o anel.
Por um segundo, algo estranho passou no rosto dele. Como se a aliança, ali, na mão dela, tivesse peso demais até para ele.
— Você é minha esposa.
— Não. Eu sou a mulher que você enganou com um vestido branco.
Alina voltou para o salão sozinha.
Cada passo exigiu uma força que ela não sabia que tinha.
Quando entrou, as luzes pareceram agressivas. A música, alta demais. Os convidados, curiosos demais. Helena viu a filha primeiro e levantou-se, mas Victor segurou seu braço.
Alina caminhou até a mesa principal. Pegou uma taça de água. Bebeu um gole. Depois outro.
Serena a observava como quem esperava sangue.
Mirella cochichou algo e riu.
Damon apareceu minutos depois.
A marca do tapa não estava visível, mas Alina sabia que estava ali. Na pele ou no orgulho dele.
Ele sentou-se ao lado dela.
Ninguém falou.
O bolo foi cortado.
As fotos foram tiradas.
Em uma delas, Damon passou o braço pela cintura de Alina. Ela manteve o sorriso. A mão dele não encontrou tremor.
Se ele queria uma boneca quebrada, teria que se decepcionar.
A festa terminou depois da meia-noite.
Os convidados saíram em ondas perfumadas de champanhe e comentários. A imprensa autorizada foi retirada. Os funcionários começaram a desmontar arranjos. O salão, antes impecável, agora tinha pétalas esmagadas no chão e taças esquecidas nas mesas.
Alina foi conduzida ao quarto preparado para os noivos na ala antiga da propriedade. Uma suíte que Victor mandara decorar com rosas brancas, velas e lençóis de linho.
Tudo parecia obsceno.
Ela entrou sozinha.
Tirou o véu diante do espelho.
Os grampos puxaram fios de cabelo. Um deles arranhou seu couro cabeludo. Ela sentiu a dor pequena com gratidão. Era concreta. Era dela.
Começou a soltar o colar, mas o fecho prendeu.
Tentou de novo.
Nada.
A porta abriu atrás dela.
Damon entrou.
Alina o viu pelo espelho.
— Saia.
Ele fechou a porta.
— Precisamos conversar.
— Agora você quer conversar?
— Amanhã será pior.
Ela virou-se.
— Melhor. Talvez amanhã eu tenha menos vontade de quebrar alguma coisa.
Damon olhou para o colar.
— Vire.
— Não toque em mim.
— O fecho está preso.
— Eu prefiro arrancar.
— Vai machucar.
— Que preocupação bonita. Deveria colocar nos votos.
Ele ficou calado.
Alina tentou de novo. O fecho não cedeu. A raiva começou a borrar sua visão.
Damon se aproximou devagar, como se ela fosse um animal ferido capaz de morder.
Ela não virou.
Ele parou atrás dela e levantou as mãos.
— Só o colar.
Alina encarou o reflexo dele.
— Um movimento errado e eu grito.







