Mundo de ficçãoIniciar sessão— Eu disse não.
Helena sussurrou:
— Filha…
— Não agora, mãe.
O rosto de Helena se fechou de dor, mas Alina não tinha espaço para carregar mais uma culpa. Mal conseguia carregar o próprio corpo.
Damon se abaixou então.
Pegou a aliança entre dois dedos.
Por um instante, a luz da manhã bateu no metal e refletiu nos olhos dele.
— Ainda é minha esposa — ele disse.
Alina soltou uma risada seca.
— Só no papel.
— Papéis sustentam impérios.
— E também provam crimes.
A palavra ficou suspensa.
Crime.
Victor virou-se rápido para ela.
Celeste moveu apenas os olhos.
Damon não sorriu.
Alina não sabia por que tinha dito aquilo. Talvez porque, na noite anterior, Damon falara de sangue sob mármore branco. Talvez porque Victor mencionara pecados enterrados. Talvez porque aquela casa cheirasse a flor murcha, champanhe velho e mentira.
Mas, pela primeira vez, ela percebeu que havia algo maior atrás da humilhação.
Não apenas vingança romântica.
Não apenas orgulho ferido.
Havia medo.
E medo, em homens como Victor Valmont, sempre tinha endereço.
— Suba para o seu quarto — Victor ordenou.
Alina olhou para ele.
— Não sou criança.
— Está se comportando como uma.
Damon guardou a aliança no bolso interno do paletó.
— Ela está se comportando melhor do que eu esperava.
Alina virou-se para ele.
— Não transforme minha raiva em entretenimento.
— Não é entretenimento.
— Então o que é?
Os olhos de Damon desceram para a mão dela, agora sem anel. A pele estava vermelha onde a aliança arranhara.
— Consequência.
Alina odiou aquela palavra.
Damon a usava como se fosse dono dela.
Consequência para os Valmont.
Consequência para Victor.
Consequência para uma morte que Alina nem compreendia.
Mas, no fim, a consequência tinha rosto, corpo, vestido amassado e garganta dolorida.
Ela.
— Saia da minha casa — Victor disse a Damon.
Damon enfim olhou para ele.
— Sua casa?
A pergunta veio calma demais.
Victor endureceu.
— Sim. Minha casa.
Celeste bateu a bengala uma vez no chão.
O som foi baixo, mas suficiente para que todos se voltassem.
— Vamos evitar teatro desnecessário, Victor. O teatro principal já aconteceu.
Helena, que permanecia junto ao sofá, ergueu o rosto molhado.
— Por que vocês fizeram isso com ela?
A pergunta saiu quase sem voz.
Mas atingiu o salão inteiro.
Alina olhou para a mãe.
Helena não encarava Damon.
Encarava Celeste.
Foi rápido.
Tão rápido que talvez ninguém percebesse.
Mas Alina percebeu.
A velha Blackthorne também.
Celeste sorriu sem mostrar os dentes.
— Porque algumas dívidas atravessam gerações.
Helena empalideceu.
Victor agarrou o braço da esposa.
— Chega.
Helena tentou se soltar.
— Victor, ela não tinha nada a ver com—
— Chega!
O grito dele ecoou no salão.
Um dos funcionários deixou cair uma bandeja no corredor. O metal bateu no chão. Ninguém foi ajudar.
Alina ficou imóvel.
A frase de Helena cortou o barulho dentro dela.
Ela não tinha nada a ver com…
Com o quê?
Com quem?
Damon também tinha ouvido.
Alina viu pelo modo como ele ficou mais rígido.
Não satisfeito.
Alerta.
Victor percebeu e soltou Helena imediatamente, como se o toque o denunciasse.
— Damon — ele disse, retomando o controle à força. — Nós conversaremos com advogados. Esta encenação acaba aqui.
— Não — Damon respondeu. — Começou aqui. Acaba quando eu decidir.
— Você não tem esse poder.
Damon aproximou-se dele.
Victor era um homem imponente, acostumado a controlar salas inteiras. Mas diante de Damon, naquela manhã, parecia menor. Não fraco. Apenas envelhecido pela lembrança de algo que tentava manter trancado.
— Eu tenho nomes — Damon disse baixo. — Tenho datas. Tenho documentos suficientes para fazer metade dos seus amigos fingirem que nunca jantarão nesta casa.
Victor ficou pálido.
— Blefe.
— Teste.
Celeste observava os dois como quem assiste a peças se moverem no tabuleiro.
Alina sentiu enjoo.
Ela não conseguia mais distinguir quem era monstro, quem era vítima, quem mentia por ataque e quem mentia por sobrevivência.
Só sabia que todos estavam usando sua vida para acertar contas antigas.
— Eu vou embora — ela disse.
Victor virou-se.
— Você não vai sair desta casa.
— Vou.
— Alina.
Ela deu um passo para trás.
— Eu não vou ficar aqui para vocês decidirem quem me possui depois da cerimônia.
Helena se levantou.
— Para onde você vai?
Alina abriu a boca.
Não sabia.
A vergonha queimou.
Ela tinha vinte e poucos anos, um sobrenome poderoso, vestidos caros, joias que não eram suas e nenhuma chave real para fora daquela gaiola.
Não tinha apartamento.
Não tinha dinheiro livre sem o controle do pai.
Não tinha trabalho.
Não tinha plano.
Tinha apenas raiva.
E uma aliança arrancada do dedo.
Damon percebeu.
Claro que percebeu.
Homens como ele eram treinados a notar fraquezas.
— Pode ir para a mansão Blackthorne — ele disse.
Alina o encarou como se ele tivesse cuspido no chão.
— Eu prefiro dormir na rua.
— Dramática.
— Cruel.
— Exata.
— Não. Só podre.
Serena soltou uma risada baixa.
Damon olhou para ela.
A risada morreu.
— Você ainda vai precisar de proteção — ele disse a Alina.
— De quem? De você?
— Também de mim.
— Você me destruiu diante da minha família e agora quer se apresentar como abrigo?
— Não confunda abrigo com misericórdia.
Alina deu um passo na direção dele.
— Eu não quero sua misericórdia. Não quero sua casa. Não quero seu sobrenome. E, se depender de mim, a próxima vez que você ouvir meu nome será pela boca do meu advogado.
Elias.
O nome apareceu na mente dela com a urgência de uma porta aberta.
Elias Moreau.
Amigo de infância. Advogado. O único homem que Victor nunca conseguiu afastar completamente porque a mãe de Elias tinha sido próxima de Helena por anos.
Damon viu algo mudar no rosto dela.
— Pensou em alguém.
Alina gelou.
— Não é da sua conta.
— Tudo que toca este casamento é da minha conta.
— Então vou tocar fogo nele.
Ela passou por Damon antes que ele pudesse responder.
Victor segurou seu braço no meio do caminho.
Dessa vez, Alina reagiu sem pensar.
Puxou-se com força.
— Não toque em mim.
O pai a soltou, mais por surpresa do que por respeito.
— Você acha que pode sair por aquela porta e virar heroína ferida? A cidade inteira já sabe, Alina. Você não vai encontrar pena lá fora. Vai encontrar risadas.
A frase acertou.
Victor percebeu.
A voz dele ficou mais baixa, mais venenosa.
— Mulheres da nossa família não sobrevivem bem ao ridículo.
Helena fechou os olhos.
Alina levantou o queixo.
— Então talvez esteja na hora de uma sobreviver.
Saiu antes que a coragem acabasse.
O corredor da mansão Valmont ainda cheirava a flores caras.
Funcionários desviavam os olhos. Um deles segurava caixas com lembranças do casamento. Pequenos embrulhos dourados com as iniciais A & D impressas em relevo.
A e D.
Alina quase vomitou.
Subiu as escadas sem olhar para trás. Entrou no quarto que fora seu desde menina e trancou a porta.
O silêncio ali era pior.
Tudo estava intacto.
A penteadeira clara. As cortinas de linho. Os livros organizados por cor, não por gosto, porque Victor dizia que aparência também era disciplina. As fotografias de formatura. As caixas de presentes do casamento empilhadas junto à parede.
O quarto de uma filha que tinha sido criada para obedecer com bom gosto.
Alina foi até o closet e puxou uma mala.
A mão tremia.
Abriu gavetas.
Roupas íntimas. Vestidos. Sapatos. Documentos.
Pegou o passaporte.
Pegou uma pequena carteira com dinheiro que Helena sempre dizia para ela manter “por emergência”, embora nunca tivesse explicado que tipo de emergência uma Valmont poderia ter dentro de uma casa cheia de seguranças.
Agora Alina entendia.
Enfiou tudo na mala.
O celular vibrou sobre a cama.
Uma mensagem.
Depois outra.
Depois dez.
Ela ficou parada olhando para a tela acender repetidamente.
“É verdade?”
“Alina, o que aconteceu?”
“Damon abandonou você?”
“Querida, estou chocada…”
“A imprensa já sabe?”
“Seu casamento foi golpe?”
Uma notificação de portal de fofoca apareceu antes que ela bloqueasse a tela.
BILIONÁRIO DAMON BLACKTHORNE DEIXA MANSÃO VALMONT APÓS NOITE DE CASAMENTO — CRISE ENTRE FAMÍLIAS?
Alina sentou-se na cama.
O ar sumiu.
Já estava lá fora.
A vergonha não tinha esperado nem o café da manhã.
Outra notificação.
NOIVA VALMONT É ABANDONADA? FONTES FALAM EM “CASAMENTO DE UMA NOITE”.
Casamento de uma noite.
Ela largou o celular como se queimasse.
A porta bateu.
— Alina? — era Helena.
Alina fechou os olhos.
Não queria abrir.
Abriu mesmo assim.
Helena entrou carregando uma pequena bolsa nas mãos. Parecia ter envelhecido dez anos desde a noite anterior. O cabelo, sempre preso com perfeição, escapava perto da orelha. O batom tinha desaparecido.







