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Capítulo 3 — Jantar Com Sabor de Sentença

— Eu não concordo com a forma. Nem com a crueldade. Mas a situação...

— A situação é que meu pai quer me vender para Damien Blackwell.

Victoria empalideceu ainda mais ao ouvir o nome.

Scarlett percebeu.

— Você também tem medo dele.

— Damien Blackwell é um homem perigoso.

— Então por que deixaria sua filha se casar com ele?

A pergunta cortou o ar.

Victoria levou uma das mãos ao peito, como se respirar doesse.

— Porque talvez eu tenha sido covarde por tempo demais.

Scarlett franziu a testa.

— O que isso significa?

— Significa que existem coisas sobre nossa família que você não sabe.

— Então me conte.

Victoria abriu a boca, mas nada saiu. Seus olhos se encheram de lágrimas.

— Não agora.

Scarlett se afastou, ferida.

— Todos dizem isso. Você. Papai. “Não agora.” “Você não precisa saber.” “Confie em nós.” E no fim eu descubro que minha vida foi negociada numa sala fechada.

— Eu nunca quis isso para você.

— Mas vai permitir.

Victoria chorou em silêncio.

Aquilo enfraqueceu a raiva de Scarlett, e ela odiou que enfraquecesse. Sentou-se na beira da cama e segurou a mão da mãe. Estava fria.

— O tratamento está mesmo ameaçado?

Victoria desviou o olhar.

— Seu pai não deveria ter colocado isso sobre você.

— Mas colocou. Agora me diga a verdade.

A mãe respirou fundo.

— Sim. Há atrasos. Médicos. Medicamentos. A clínica em Boston.

Scarlett engoliu em seco.

— Por que você não me contou?

— Porque você já carrega demais.

— Eu carrego mentiras. É diferente.

Victoria apertou a mão dela com pouca força.

— Scarlett, olhe para mim.

Ela olhou.

— Eu preferiria perder esta casa, os quadros, o nome, tudo, a ver você presa a um homem que não escolheu.

— Então diga isso a papai.

— Eu disse.

Scarlett ficou quieta.

Victoria continuou:

— Mas Richard não está mais ouvindo ninguém. Ele está desesperado. E homens desesperados fazem coisas imperdoáveis tentando chamar de necessidade.

Scarlett sentiu um frio estranho no peito.

— Damien Blackwell quer vingança, não quer?

Victoria fechou os olhos.

— Talvez.

— Contra papai?

— Contra os Monroe.

— Isso me inclui.

A mãe não respondeu.

Scarlett soltou a mão dela e se levantou. Foi até a janela. Lá fora, o jardim parecia intocado pelo horror daquela conversa. Um jardineiro podava as roseiras como se a vida continuasse comum.

— Eu não fiz nada para ele — Scarlett disse, mais para si do que para Victoria.

— Eu sei.

— Então por que eu deveria pagar?

— Não deveria.

— Mas vou.

Victoria começou a chorar novamente.

Scarlett se virou para a mãe. Havia uma parte dela querendo gritar, exigir respostas, sacudir aquela mulher frágil até que todos os segredos caíssem no chão. Mas havia outra parte, maior e mais antiga, que só via a mãe doente, exausta, presa há anos ao mesmo homem que agora tentava prender a filha.

Scarlett se aproximou e beijou a testa de Victoria.

— Descanse.

— Scarlett...

— Eu preciso pensar.

— Não decida por medo.

Scarlett sorriu sem alegria.

— Nesta casa, alguém já decidiu por outra coisa?

Saiu antes que a mãe pudesse responder.

No corredor, ela parou por alguns segundos, respirando com dificuldade. A mansão parecia inclinada sobre ela. Cada parede, cada retrato, cada vaso caro parecia testemunha de sua condenação.

Ela voltou para o próprio quarto.

Diferente do resto da casa, o quarto de Scarlett tinha traços de vida real. Livros empilhados, fotografias antigas, uma xícara esquecida sobre a escrivaninha, vestidos menos formais pendurados em uma arara próxima ao closet. Ali, ela ainda conseguia fingir que existia fora do sobrenome Monroe.

Pegou o celular sobre a cama e pesquisou Damien Blackwell.

Milhares de resultados.

Imagens dele em eventos corporativos. Terno escuro. Mandíbula marcada. Cabelos negros. Olhos de um azul tão frio que pareciam cinza em algumas fotos. Um homem bonito, sim, mas de uma beleza sem convite. Nada nele parecia acessível.

Scarlett abriu uma reportagem antiga.

“Damien Blackwell transforma empresa familiar em conglomerado bilionário após morte trágica do pai.”

Morte trágica.

Ela leu mais.

O pai de Damien, William Blackwell, havia perdido grande parte do patrimônio em um escândalo financeiro anos antes. Depois disso, sofrera um colapso público, afastara-se dos negócios e morrera pouco tempo depois. A reportagem mencionava disputas judiciais, parceiros comerciais e acordos sigilosos.

Nenhum nome Monroe aparecia.

Claro que não.

Famílias como a dela sabiam apagar pegadas.

Scarlett fechou a matéria e abriu outra.

“Damien Blackwell é conhecido por aquisições agressivas e tolerância zero com traições corporativas.”

Outra.

“Bilionário americano raramente fala sobre vida pessoal.”

Outra.

“Ex-noivado com Evelyn Cross termina sem explicações.”

Scarlett parou na foto de Evelyn. Loira, impecável, sorriso afiado, herdeira de uma família influente de Nova York. O tipo de mulher que parecia combinar com Damien Blackwell em fotografias: fria, luxuosa, calculada.

Então por que ele escolheria Scarlett?

A resposta era óbvia.

Ele não a escolheu.

Escolheu o sobrenome.

Escolheu a filha de Richard Monroe.

Escolheu a forma mais íntima de entrar naquela família e fazê-la pagar.

Scarlett jogou o celular sobre a cama, como se o aparelho queimasse.

Caminhou até o espelho grande ao lado do closet e encarou o próprio reflexo. Vinte e seis anos. Olhos castanhos herdados da mãe. Boca firme herdada de ninguém, porque em sua família firmeza sempre fora confundida com inconveniência. O rosto que revistas chamavam de delicado agora parecia pálido de raiva.

— Você não vai chorar — disse a si mesma.

Mas chorou.

Não de forma bonita. Não como as heroínas frágeis dos romances que escondiam lágrimas em lenços de renda. Scarlett chorou com raiva, com vergonha, com impotência. Chorou porque liberdade era uma palavra fácil para quem tinha dinheiro, saúde e opções. Chorou porque odiava o pai, mas amava a mãe. Chorou porque parte dela queria fugir, e outra parte sabia que fugir significaria abandonar pessoas que dependiam dela.

Quando as lágrimas cessaram, restou um vazio duro.

Então alguém bateu à porta.

Scarlett limpou o rosto depressa.

— Entre.

A porta se abriu, e Richard apareceu.

Ela quase riu da audácia.

— Você realmente não sabe respeitar portas fechadas.

— Precisamos concluir esta conversa.

— Não há conversa.

— Há um prazo.

Scarlett ficou imóvel.

— Que prazo?

— Damien estará em Newport amanhã à noite.

O sangue dela gelou.

— Amanhã?

— Haverá um jantar formal.

— Você marcou um jantar antes de eu aceitar?

— A situação exige rapidez.

Scarlett se aproximou dele devagar.

— Você já disse a ele que eu aceitei.

Richard sustentou seu olhar.

— Eu disse que você é uma mulher sensata.

— Você mentiu.

— Então prove que não menti.

A vontade de dar um tapa no rosto dele veio tão forte que Scarlett precisou fechar os dedos contra a palma da mão.

— Saia do meu quarto.

— Scarlett, escute com atenção. Você pode me odiar o quanto quiser. Pode me culpar, me chamar do que quiser. Mas isso não muda os fatos. Sem esse acordo, perderemos a casa, a fundação, o tratamento da sua mãe e qualquer proteção pública que ainda resta ao nosso nome.

— Nosso nome — ela repetiu, amarga.

— Sim. Nosso nome.

— Eu não sou um brasão pendurado na parede.

— Não. Você é a única coisa que ainda pode impedir que tudo desmorone.

Scarlett sentiu a frase como uma corrente se fechando em seu pescoço.

Richard percebeu, e sua voz suavizou de forma artificial.

— Você sempre foi a melhor de nós.

— Não tente me elogiar agora. Fica repulsivo.

A máscara dele endureceu de novo.

— O jantar será amanhã às oito.

— Eu não disse que estarei lá.

Richard foi até a porta. Antes de sair, parou e olhou para ela.

— Você estará.

Scarlett ergueu o queixo.

— Por quê? Vai me arrastar?

— Não. Porque você ama sua mãe.

A porta se fechou.

Por muito tempo, Scarlett não se moveu.

A frase ficou no quarto depois dele, venenosa e verdadeira.

Porque você ama sua mãe.

Ela odiou Richard por saber disso. Odiou Damien Blackwell por existir como ameaça antes mesmo de conhecê-la. Odiou o sobrenome Monroe, os segredos antigos, as dívidas escondidas, os homens que transformavam mulheres em solução para crimes que não cometeram.

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