Mundo de ficçãoIniciar sessãoMas, acima de tudo, odiou a parte de si mesma que já sabia a resposta.
Naquela noite, Scarlett não desceu para jantar.
Ficou no quarto enquanto a casa escurecia lentamente. Ouviu o vento bater contra as janelas. Ouviu passos no corredor. Ouviu, em algum momento, a tosse fraca da mãe no quarto vizinho.
Esse som decidiu mais do que qualquer contrato.
Perto da meia-noite, Scarlett acendeu a luminária da escrivaninha e puxou uma folha em branco.
Não escreveu uma carta de aceitação. Não escreveria palavras bonitas para Damien Blackwell, nem para Richard, nem para advogado algum.
Escreveu apenas uma lista.
O que eu preciso saber antes de me casar com Damien Blackwell:
O que Richard fez com a família Blackwell.
O que Damien realmente quer.
Quais são os termos completos do contrato.
Como proteger mamãe.
Como proteger a mim mesma.
Scarlett encarou o quinto item por mais tempo.
Depois acrescentou um sexto.
Nunca esquecer que isso não é amor.
A caneta tremeu em sua mão.
Ela sabia que no dia seguinte encontraria Damien Blackwell. Sabia que ele entraria naquela casa como um credor, talvez como um carrasco. Sabia que seus olhos provavelmente confirmariam tudo o que a imprensa dizia: frieza, poder, ausência de piedade.
Mas ele também precisava saber algo sobre ela.
Scarlett Monroe podia estar encurralada.
Podia estar assustada. Podia até aceitar entrar naquele casamento por amor à mãe.Mas não entraria de joelhos.
Na manhã seguinte, antes que o sol nascesse completamente, Scarlett foi até o quarto de Victoria. A mãe dormia, o rosto virado para a janela, uma das mãos repousando sobre o cobertor. Parecia menor do que antes. Mais frágil.
Scarlett ficou parada na porta, sentindo o coração apertar.
— Eu vou resolver isso — sussurrou.
Victoria não acordou.
Scarlett fechou a porta com cuidado e desceu até a biblioteca. Richard estava lá, como se a esperasse. Usava outro terno impecável, outro rosto controlado, outra mentira pronta.
Ela entrou sem pedir licença.
Ele ergueu os olhos.
— Já tomou uma decisão?
Scarlett caminhou até a mesa, onde o envelope ainda estava.
Pegou o documento.
— Eu vou ao jantar.
Richard soltou uma respiração discreta de alívio.
— Fico satisfeito que tenha entendido.
Scarlett o encarou.
— Não confunda sacrifício com obediência.
O alívio dele desapareceu.
— Scarlett...
— Eu vou conhecer Damien Blackwell. Vou ouvir o que ele tem a dizer. Vou ler cada linha desse acordo com um advogado que não seja escolhido por você. E se eu aceitar esse casamento, será pelos meus motivos, não porque você ordenou.
Richard estreitou os olhos.
— Você não tem tanto poder quanto pensa.
— Talvez não. Mas tenho mais do que você gostaria.
Ela virou-se para sair, mas parou na porta.
— E, pai?
— Sim?
Scarlett olhou para ele uma última vez.
— Se eu descobrir que você colocou minha mãe em risco de propósito para me forçar a aceitar, Damien Blackwell será o menor dos seus problemas.
Pela primeira vez em muito tempo, Richard Monroe ficou sem resposta.
Scarlett saiu da biblioteca com o contrato nas mãos e uma certeza amarga no peito.
Sua liberdade havia sido colocada à venda.
E, naquela noite, o comprador viria buscá-la.
Às sete e quarenta da noite, a mansão Monroe parecia ter voltado a respirar.
Não de verdade.
Scarlett sabia reconhecer a diferença entre vida e encenação.
A casa estava iluminada como nos antigos jantares de gala que seus pais ofereciam quando ela era criança. Lustres de cristal acesos, velas altas nos castiçais de prata, flores brancas dispostas em vasos franceses, o piso de mármore polido refletindo pontos dourados de luz. Dois empregados temporários circulavam pelo hall, contratados apenas para aquela noite, usando uniformes que não lhes pertenciam e expressões treinadas para fingir que nada ali era decadência disfarçada.
Tudo cheirava a lírios, cera quente e mentira.
Scarlett desceu a escada principal sentindo cada degrau como se a aproximasse de uma sentença.
Usava um vestido verde-escuro de mangas longas, elegante sem ser dócil, escolhido não para agradar, mas para protegê-la. O tecido marcava sua cintura e caía até pouco abaixo dos joelhos. Os cabelos castanhos estavam soltos em ondas suaves, e no pescoço levava apenas um colar discreto de pérolas que pertencera à avó.
Não queria parecer uma noiva.
Não queria parecer uma vítima.
Queria parecer uma mulher que ainda possuía algum controle sobre o próprio corpo, mesmo que todos ao redor tentassem provar o contrário.
No meio do hall, Richard Monroe conversava com o mordomo temporário, corrigindo detalhes irrelevantes com a irritação de um homem que tentava controlar os últimos pedaços de um império desmoronando. Ele virou o rosto ao ouvi-la.
Por um instante, avaliou a filha dos pés à cabeça.
— Está adequada.
Scarlett parou no último degrau.
— Que alívio. Passei o dia inteiro esperando sua aprovação.
Richard apertou os lábios.
— Esta noite é importante.
— Para quem?
— Para todos nós.
Ela desceu o último degrau e caminhou até ele.
— Não. Para mim é uma negociação forçada. Para mamãe, uma humilhação silenciosa. Para você, uma chance de escapar das consequências dos próprios atos.
Os olhos dele endureceram.
— Não comece.
— Eu nem comecei.
— Damien Blackwell não é um homem que tolera insolência.
Scarlett sentiu um arrepio fino subir pela nuca, mas não desviou o olhar.
— Então talvez seja bom ele aprender algo novo hoje.
Richard se inclinou levemente, baixando a voz.
— Não o provoque.
— Você está preocupado comigo ou com o acordo?
A resposta estava no silêncio.
Scarlett sorriu sem alegria.
— Imaginei.
Antes que ele pudesse retrucar, uma tosse delicada veio do alto da escada.
Victoria Monroe surgiu apoiada no corrimão.
Scarlett sentiu o coração apertar.
A mãe usava um vestido azul-claro de seda, antigo mas impecável, com um xale sobre os ombros estreitos. A maquiagem suave tentava esconder a palidez, mas não o cansaço nos olhos. Ainda assim, Victoria mantinha uma dignidade serena que nenhum colapso financeiro conseguia apagar.
Scarlett subiu dois degraus imediatamente.
— Você não deveria descer.
Victoria sorriu, fraca.
— E deixar minha filha sozinha com dois homens impossíveis? Jamais.
A frase deveria ser leve, mas havia tristeza demais por baixo dela.
Scarlett ofereceu o braço à mãe e a ajudou a descer.
Richard observava as duas com uma impaciência mal disfarçada. Talvez preferisse Victoria no quarto, longe dos olhos de Damien Blackwell. Talvez temesse que sua fragilidade denunciasse o verdadeiro desespero da família.
Quando chegaram ao hall, Victoria segurou a mão de Scarlett por um segundo a mais.
— Está linda.
— Isso não muda nada.
— Não. Mas às vezes uma armadura também pode ser bonita.
Scarlett quis sorrir. Não conseguiu.
O som de pneus sobre o cascalho atravessou a casa.
Todos ficaram imóveis.
Primeiro veio o ruído discreto de um motor potente sendo desligado. Depois, vozes baixas do lado de fora. Um dos empregados abriu a porta principal antes que Richard precisasse ordenar.
O ar frio da noite entrou no hall.
E então Damien Blackwell apareceu.
Scarlett já havia visto fotografias. Muitas, depois da pesquisa desesperada da noite anterior. Sabia que ele era alto, bonito de uma maneira severa, dono de olhos claros e cabelos negros. Sabia que as câmeras gostavam dele mesmo quando ele parecia odiá-las.
Mas nenhuma imagem havia preparado Scarlett para a presença real de Damien Blackwell.
Ele entrou como se a casa não pudesse intimidá-lo porque já era dele antes mesmo de qualquer assinatura. Usava um terno preto perfeitamente ajustado, camisa branca sem qualquer adorno desnecessário e uma gravata cinza-escura. Alto, ombros largos, postura impecável. Não havia pressa em seus movimentos, nem hesitação. Ele não parecia um convidado.
Parecia uma decisão final.
Dois homens o acompanhavam: um advogado de meia-idade com uma pasta de couro e um segurança discreto que permaneceu próximo à entrada. Mas ambos desapareceram da atenção de Scarlett no instante em que Damien levantou os olhos para ela.
Azuis.
Não exatamente azuis, ela percebeu. Cinzentos, talvez. Frios como metal sob neve.
O olhar dele subiu do rosto dela para os cabelos, desceu até o vestido e voltou aos olhos, sem pressa, sem calor, sem qualquer traço de constrangimento. Scarlett odiou o modo como aquele exame silencioso a fez sentir exposta.







