Capítulo 2 — O Credor de Olhos Frios

Scarlett riu, mas seus olhos arderam.

— Privilégios? Que privilégios? A casa vazia? Os segredos? A imprensa fingindo que somos intocáveis enquanto você enterra a família em dívidas?

— Tudo o que você teve veio deste nome.

— E tudo o que esse nome me deu está sendo cobrado agora, não é?

Ele desviou o olhar por um segundo. Foi mínimo, mas Scarlett viu.

Aquilo a assustou mais do que a raiva dele.

Richard Monroe podia mentir com a boca, mas raramente conseguia impedir que a verdade escapasse pelos olhos.

— Quanto devemos? — ela perguntou.

— Isso não é relevante.

— Quanto?

— Scarlett...

— Quanto, pai?

O silêncio dele respondeu antes das palavras.

— O suficiente para perdermos tudo.

Ela sentiu a garganta fechar.

— A mansão?

— Sim.

— A fundação?

Ele hesitou.

E essa hesitação doeu mais.

— Também.

Scarlett agarrou a borda da mesa.

A fundação. As bolsas. As meninas que dependiam daquele dinheiro. As cartas que ela recebia todos os meses. As histórias de jovens que seriam as primeiras da família a entrar na universidade.

— E o tratamento da mamãe?

Richard não respondeu de imediato.

Scarlett deu um passo para trás.

— O tratamento da mamãe também está ameaçado?

— Os custos são altos.

— Responda.

— Sim.

Ela fechou os olhos por um segundo.

A raiva ainda estava lá, queimando, mas agora havia medo misturado a ela. Um medo concreto, cruel. Richard sabia exatamente quais cordas puxar. A casa, Scarlett poderia perder. O nome, poderia abandonar. O conforto, nunca lhe importara tanto quanto todos imaginavam.

Mas sua mãe?

Victoria Monroe era frágil de uma maneira que Scarlett nunca conseguiu aceitar. Não fisicamente apenas, embora a doença tivesse roubado peso de seu corpo e cor de seu rosto. Era uma fragilidade antiga, emocional, como se ela tivesse passado a vida pedindo desculpas em silêncio por coisas que nunca contava.

Scarlett podia estar furiosa com o mundo, mas não conseguiria assistir à mãe ser condenada por falta de dinheiro.

Richard percebeu a mudança nela. E, como sempre, avançou.

— Damien Blackwell tem recursos para resolver tudo em questão de horas.

— Por que ele faria isso?

— Porque quer esta união.

Scarlett estreitou os olhos.

— Homens como Damien Blackwell não querem mulheres como eu por romantismo.

— Ninguém falou em romantismo.

A resposta veio seca demais.

Um calafrio percorreu a espinha de Scarlett.

— Então por quê?

Richard ajeitou os punhos da camisa.

— Existem interesses antigos entre as famílias.

— Interesses antigos? Que tipo de interesses?

— Questões comerciais.

— Você quer dizer rancores.

Ele a encarou.

— Você não precisa saber de tudo.

— Quando estão me empurrando para um casamento, eu preciso saber de tudo.

— Não está sendo empurrada.

— Não? Então posso dizer não?

Richard não respondeu.

Scarlett sentiu uma risada amarga subir pela garganta.

— Foi o que pensei.

Ela pegou o documento outra vez e folheou as páginas, procurando algo que talvez explicasse o absurdo. O nome de Damien Blackwell parecia gritar no papel.

Ela sabia quem ele era. Todo mundo sabia.

Damien Blackwell, presidente da Blackwell Holdings. Bilionário antes dos trinta e cinco. Um homem que comprava empresas quebradas e as reconstruía ou despedaçava, dependendo do que fosse mais lucrativo. Raramente sorria em fotos. Não dava entrevistas pessoais. Não era visto em festas sem motivo estratégico. A imprensa o chamava de frio, brilhante, implacável.

Alguns diziam que ele não tinha coração.

Outros diziam que tinha, mas que o havia enterrado junto com o pai.

Scarlett lembrou de uma manchete antiga, vista por acaso anos antes: “O império Blackwell ressurge das cinzas.” Na época, ela não prestara atenção. Agora, aquele sobrenome parecia invadir a biblioteca como uma tempestade.

— Ele sabe que eu não concordei com isso? — ela perguntou.

— Ele sabe que você concordará.

Scarlett encarou o pai com nojo.

— Você falou por mim.

— Fiz o que precisava ser feito.

— Não. Você fez o que sempre faz. Criou um desastre e escolheu outra pessoa para pagar.

A mão de Richard bateu na mesa com força. O som ecoou pela biblioteca.

— Basta.

Scarlett não recuou.

— Não grite comigo porque a verdade finalmente ficou inconveniente.

— Você acha que o mundo é movido por sentimentos? Acha que liberdade paga dívidas? Acha que orgulho mantém sua mãe viva?

O golpe foi certeiro. Cruel. Calculado.

Scarlett respirou fundo, lutando para não demonstrar o quanto aquilo a feriu.

— Você não tem o direito de colocar a vida dela nas minhas costas.

— A vida dela já está nas nossas costas.

— Não. Está nas suas. Foi você quem fez isso.

Richard ficou imóvel.

Pela primeira vez, a máscara dele quase caiu. Havia raiva ali, sim, mas havia outra coisa por baixo. Medo. Um medo sujo, escondido sob camadas de arrogância.

— Você não entende o tamanho do que está em jogo — ele disse.

— Então explique.

— Não posso.

— Porque não sabe ou porque está escondendo?

Ele desviou os olhos.

Scarlett sentiu o chão desaparecer um pouco mais.

— O que você fez, pai?

— Cuidado.

— O que você fez para Damien Blackwell querer se casar comigo?

A pergunta pairou entre eles como fumaça.

Richard caminhou até a janela. Ficou de costas, olhando para o jardim impecável que a família talvez nem possuísse por muito mais tempo.

— Damien Blackwell tem razões pessoais para aceitar esse acordo.

— Pessoais?

— O pai dele e eu tivemos negócios no passado.

Scarlett esperou.

— E?

— As coisas terminaram mal.

— Mal como?

— Mal o suficiente.

Ela sentiu o pulso acelerar.

— Você está me dizendo que Damien Blackwell quer vingança?

Richard virou-se lentamente.

— Estou dizendo que ele quer garantias.

— Não minta para mim.

— Você não está em posição de exigir verdades.

A crueldade daquela frase a atingiu em cheio.

Scarlett caminhou até a porta, mas Richard falou antes que ela saísse.

— Sua mãe sabe.

Ela parou.

A mão dela já estava na maçaneta.

— O quê?

— Victoria sabe da proposta.

Scarlett se virou devagar.

— Você contou a ela?

— Contei.

— E ela aceitou?

Richard não respondeu rápido o bastante.

Scarlett saiu da biblioteca sem esperar mais nada.

Subiu a escada principal com o coração batendo nos ouvidos. O corredor do segundo andar estava mergulhado em luz pálida. Retratos de ancestrais Monroe observavam das paredes com expressões solenes, como juízes mortos avaliando sua dignidade. Scarlett passou por todos sem olhar.

Parou diante do quarto da mãe.

Bateu de leve.

— Mamãe?

Uma voz fraca respondeu:

— Entre, querida.

Victoria Monroe estava sentada perto da janela, envolta em um robe de seda azul-claro. Tinha sido uma mulher de beleza delicada, quase etérea, dessas que pareciam destinadas a envelhecer sem perder elegância. A doença, porém, havia tornado seus traços mais fundos, os pulsos mais finos, os olhos mais cansados.

Mesmo assim, ela sorriu ao ver a filha.

Scarlett quase desabou naquele sorriso.

— Você deveria estar descansando — disse, tentando manter a voz firme.

— Eu estava. Mas ouvi vozes.

Scarlett fechou a porta atrás de si.

O quarto cheirava a lavanda, remédios e flores frescas. Sobre a mesa de cabeceira havia frascos alinhados, um copo d’água e um livro aberto que Victoria provavelmente não estava conseguindo ler.

Scarlett se aproximou.

— Papai me contou.

O sorriso de Victoria desapareceu.

— Ah.

Aquela pequena reação confirmou tudo.

Scarlett sentiu os olhos arderem.

— Você sabia.

Victoria baixou o olhar para as mãos.

— Eu soube ontem à noite.

— E não me disse nada?

— Eu queria falar com você hoje.

— Antes ou depois de ele me entregar como pagamento?

Victoria fechou os olhos.

— Scarlett...

— Não. Não faça isso. Não use essa voz comigo como se eu fosse uma criança assustada.

— Você é minha filha. Sempre será minha criança de algum modo.

A ternura quase quebrou Scarlett, mas ela se agarrou à raiva.

— Então aja como minha mãe. Diga que isso é absurdo. Diga que você não vai permitir.

Victoria olhou para ela, e havia tanta culpa naquele olhar que Scarlett perdeu parte da força.

— Eu queria poder dizer isso.

O silêncio que veio depois foi devastador.

Scarlett deu um passo para trás.

— Não.

— Querida...

— Não. Você não pode concordar com isso.

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