Mundo ficciónIniciar sesiónAs portas do salão se abriram e Charlotte cruzou o limiar da festa. Ela desfilava com a calma, estava deslumbrante, impecável e exalava uma plenitude que George nunca, em todos os anos de relacionamento, tinha visto nela. O habitual visual discreto da professora de Literatura dera lugar a uma força avassaladora. Ela usava um vestido de seda pura em tom preto absoluto, que contrastava dramaticamente com a palidez de sua pele e a intensidade de seus olhos verdes. O cabelo negro, liso e brilhante como seda, estava solto, a amiga Clara havia usado todos os seus contatos para garantir que Charlotte estivesse impecável hoje. Não usava joias ostensivas, apenas um par de brincos solitários de brilhantes que capturavam a luz.
Todos queriam saber quem era aquela mulher misteriosa que, sem esforço, havia roubado toda a atenção do salão. À distância, o sorriso de George congelou. Vê-la ali, tão radiante e imponente, acendeu uma pequena chama nostálgica do início de seu relacionamento em George. Foram bons anos. Ao seu lado, Gabriela desfez a pose de princesa, os olhos semicerrados em indignação ao perceber que seu momento de glória havia sido eclipsado. - O que ela está fazendo G? Faça alguma coisa! George afastou-se e cruzou o salão em direção a Charlotte. Ele a segurou pelo cotovelo de forma firme, fingindo um gesto afetuoso para quem olhava de longe, mas seus dentes estavam cerrados. — O que você pensa que está fazendo aqui? — ele sibilou, a voz tensa, os olhos faíscando. — E que roupas são essas, Charlotte? Você está chamando a atenção do salão inteiro! Este é um evento corporativo sério, do meu escritório, não um desfile de moda. Você está me expondo. Charlotte olhou para a mão dele em seu braço e, depois, subiu os olhos para o rosto dele. Não havia raiva em sua expressão. Havia apenas um desdém polido, frio e devastador. — Incomodado, George? — ela perguntou, a voz musical e perfeitamente audível para as pessoas mais próximas. — Achei que o meu noivo gostaria de ter a sua futura esposa ao lado para celebrar o contrato de sócio. Mas, me diga... você quer que eu vá embora? George engoliu em seco, forçando os músculos do rosto a relaxar enquanto soltava o braço de Charlotte. O pânico de criar uma cena ali superou sua irritação. Ele tentou abrir um de seus sorrisos generosos de assinatura, embora o suor frio começasse a brotar em sua nuca. — Mas é claro que não, querida. Eu só... fui pego de surpresa. Você está maravilhosa — ele mentiu, a voz modulada para o tom mais dócil possível. Antes que Charlotte pudesse responder, passos firmes se aproximaram. Victor Novaes surgiu no círculo deles com um sorriso genuíno que raramente exibia para os subordinados do escritório. O patriarca sempre gostara de Charlotte; via nela uma dignidade e uma sofisticação raras, tratando-a quase como uma filha nas poucas ocasiões em que se encontraram. — Charlotte! Que belíssima surpresa — Victor exclamou, estendendo as mãos para segurar as dela com carinho. — O George havia me dito que você talvez não poderia vir. — Boa noite, Dr. Victor. Eu não poderia deixar de prestigiar um momento tão importante para o escritório — ela respondeu com uma voz suave e impecável, mantendo o olhar firme. Um garçom passou ao lado deles carregando uma bandeja de prata com taças de cristal lapidado. Victor prontamente pegou duas delas, oferecendo uma a Charlotte. — Um brinde ao futuro do escritório. George deu um passo à frente, erguendo a mão em um gesto apressado de interrupção. — Ah, Dr. Victor, obrigado, mas a Charlotte não bebe. Ela prefere evitar o álcool, ainda mais depois de ter tido um resfriado esses dias... Charlotte, no entanto, sequer olhou para o noivo. Com um movimento decidido e gracioso, ela estendeu os dedos longos e pegou a taça diretamente da mão de Victor. Os olhos verdes dela brilharam sob os lustres de cristal ao encarar George por cima da borda do vidro. — Acho que está na hora de mudar alguns hábitos — disse ela, mantendo um tom leve, mas carregado de um duplo sentido que fez o estômago do noivo revirar. — Excelente! É assim que se fala — Victor riu, orgulhoso da atitude dela, antes de pousar a mão no ombro de George. — Venha, George, preciso te apresentar a alguns desembargadores do comitê ali perto. Eles querem conhecer o mais novo sócio. Você me dá licença por alguns minutos, Charlotte? Sozinha, ela caminhou com passos calmos em direção a um canto mais reservado do salão, próximo a uma das grandes colunas de mármore. — Sabia que te encontraria escondida em algum canto. A voz veio carregada de um tom audacioso. Charlotte não precisou se virar para saber quem era. Gabriela Novaes deu um passo à frente, saindo da claridade do salão para invadir o espaço sombrio de Charlotte. Gabriela mediu Charlotte de cima a baixo com um olhar descarado e uma arrogância que beirava a crueldade. O sorriso em seus lábios pintados de vermelho era puramente triunfante. — Você está muito bonita, admito — Gabriela começou, cruzando os braços e inclinando a cabeça com falsa condescendência. — Mas o preto foi uma escolha apropriada. Parece que você veio para o próprio funeral. Charlotte não piscou. Manteve a taça erguida, o rosto transformado em uma máscara de serenidade impenetrável que começou, sutilmente, a incomodar a rival. Percebendo que não conseguiria uma reação explosiva, Gabriela deu um passo ainda mais próximo, diminuindo a distância entre as duas até que sua voz se tornasse um sussurro venenoso, destinado apenas aos ouvidos de Charlotte. — Deixe-me poupar o seu tempo e o pouco que resta da sua dignidade, Charlotte. Você não serve para o mundo dele. Você é o passado dele; eu sou o futuro. Gabriela soltou uma risadinha abafada, os olhos brilhando com o mesmo triunfo malicioso do vídeo gravado na escuridão do quarto. — Tenha um pouco de amor-próprio e vá embora.






