Mundo de ficçãoIniciar sessãoLilian suspirou, como se finalmente pudesse relaxar depois da tensão que tinha tomado conta do escritório.
Ela contornou a mesa e caminhou na minha direção. — Ana Júlia… eu sinto muito pelo que acabou de acontecer. Balancei a cabeça levemente, ainda tentando organizar os pensamentos. — Não precisa se desculpar, dona Lilian. Acho que já percebi que entrevistas de emprego aqui são… diferentes. Ela soltou uma pequena risada, embora ainda parecesse constrangida. — Pode me chamar só de Lilian, por favor. Assenti. Ela cruzou os braços, apoiando o quadril de leve na mesa. — Victor é… — ela começou, procurando as palavras certas — uma pessoa difícil de lidar. Aquilo não era exatamente uma surpresa. — Ele é irmão do meu marido, Diego — continuou. — Os dois cresceram aqui na fazenda. Na prática, a fazenda sempre foi a vida deles. Olhei rapidamente na direção da porta por onde Victor tinha saído. — Imagino. Lilian soltou outro suspiro. — Diego é mais tranquilo, mais… diplomático. Já o Victor… — ela fez um pequeno gesto com a mão, como se aquilo explicasse tudo. — Ele prefere resolver as coisas do jeito dele. — E qual é o jeito dele? — perguntei. Ela sorriu de lado. — Desconfiar de todo mundo primeiro. Aquilo fazia sentido. — Não leve para o lado pessoal — ela acrescentou. — Ele faz isso com praticamente qualquer pessoa nova que aparece por aqui. Apoiei a bolsa melhor no ombro. — Ótimo saber que não sou um caso especial. Lilian riu de verdade dessa vez. — Na verdade… você é um pouco. Franzi levemente a testa. — Como assim? — Porque você foi a primeira pessoa que respondeu à altura. Por um instante, fiquei em silêncio. — Não sei se isso vai me ajudar muito nessa semana de teste. — Talvez não — ela admitiu. — Mas uma coisa eu posso te garantir. Lilian inclinou levemente a cabeça, com um sorriso curioso. — Se o Victor te deu uma semana… é porque alguma coisa em você chamou a atenção dele. Olhei novamente para a porta fechada. Sinceramente, eu não tinha certeza se aquilo era uma boa notícia. Ela me observou por alguns segundos, como se estivesse avaliando alguma coisa. — Ana Júlia… já tem onde ficar? — perguntou. Voltei minha atenção para ela. — Me chame apenas de Júlia, por favor. — ajeitei a bolsa no ombro antes de continuar. — E não… eu ainda não tenho. Pensei em ver se encontro alguma pousada na cidade. Lilian franziu levemente a testa, como se aquela ideia não fosse nem um pouco necessária. — Não precisa se preocupar com isso. Ela fez um gesto tranquilo com a mão, como se estivesse resolvendo um problema simples. — Aqui na fazenda temos algumas casas destinadas aos funcionários. Mas, durante essa semana de teste, você pode ficar aqui no casarão. Aquilo me pegou de surpresa. Olhei rapidamente ao redor do escritório, lembrando da imponência da casa que tinha visto ao chegar. — Eu acho melhor não — respondi, com sinceridade. — O Victor não é exatamente… uma pessoa muito agradável. Lilian soltou uma pequena risada. — Você não está errada. Ela se aproximou da porta, abrindo-a. — Mas fique tranquila. O casarão é grande o suficiente para vocês dois quase não se encontrarem. Ela olhou para mim por cima do ombro, com um sorriso leve. — Venha. Vou te mostrar o seu quarto. Por um momento hesitei. Aceitar significava, de certa forma, admitir que eu realmente pretendia ficar aquela semana inteira ali. Mas então lembrei das horas de viagem, do esforço que tinha feito para chegar até aquela fazenda… e da forma como Victor Sampaio tinha praticamente me desafiado. Respirei fundo. — Tudo bem. Saí do escritório e segui Lilian pelo corredor amplo do casarão. Enquanto caminhávamos, não pude deixar de pensar que aquela semana de teste talvez fosse muito mais complicada do que eu tinha imaginado. E, de alguma forma, eu tinha a sensação de que Victor Sampaio faria questão de garantir isso. — Você chegou hoje mesmo? — perguntou. — Deve estar cansada da viagem. — Cheguei há poucas horas — respondi. — Confesso que ainda estou tentando entender exatamente onde me meti. Ela riu, uma risada leve e sincera. — Isso é normal. A primeira vez que alguém chega aqui costuma ser um pouco… impactante. Enquanto ela falava, não pude deixar de observá-la melhor. Lilian era realmente muito bonita. O cabelo loiro caía em ondas suaves sobre os ombros, perfeitamente cuidado, e sua pele tinha aquele brilho saudável de quem parecia viver bem. As roupas que usava eram simples, mas elegantes — uma blusa clara e uma calça de tecido leve que valorizavam sua postura naturalmente refinada. Havia nela uma elegância que parecia completamente natural, sem esforço algum. Mas o que mais chamava atenção era a forma como ela falava comigo. Lilian conversava com facilidade, como se nos conhecêssemos há anos. Não havia formalidade ou distância em seu tom — apenas uma simpatia espontânea que tornava tudo mais confortável. — Você não imagina como fiquei feliz quando vi seu currículo — continuou ela. — Estávamos mesmo precisando de alguém na área. Olhei para ela com curiosidade. — Mesmo sabendo que o Victor provavelmente reagiria daquela forma? Ela soltou outro pequeno riso. — Principalmente por causa disso. — Como assim? Lilian diminuiu um pouco o passo enquanto subíamos uma escada larga que levava ao andar superior do casarão. — Porque o Victor tem essa mania irritante de achar que ninguém é bom o suficiente para trabalhar aqui. — Que animador — murmurei. Ela me lançou um olhar divertido. — Não leve tão a sério. No fundo ele só é… muito exigente. — Isso é uma forma educada de dizer que ele é impossível? Lilian riu de verdade dessa vez. — Eu não diria impossível. Ela pensou por um segundo. — Só… difícil. Continuamos caminhando pelo corredor do andar de cima, onde várias portas de madeira escura se alinhavam ao longo da parede. — Aqui ficam alguns dos quartos que estão desocupados — explicou Lilian enquanto caminhávamos. — A casa é grande demais para pouca gente. Ela fez um pequeno gesto ao redor, como se aquilo fosse óbvio. — No fim das contas, só moramos aqui eu, meu marido… e meu cunhado. Assenti distraidamente, mas a informação ficou ecoando na minha cabeça por alguns segundos. Então Victor não era casado. Claro que não. Pelo pouco que eu tinha visto dele, aquilo fazia todo o sentido. Victor Sampaio definitivamente não parecia o tipo de homem fácil de conviver no dia a dia. Não que alguém tivesse me perguntado. Mas, na minha humilde opinião, ele devia ser um pesadelo em qualquer relacionamento. Embora… Bom. Bonito ele era. Bonito demais, para falar a verdade. Alto, postura confiante, aquele olhar intenso que parecia atravessar qualquer pessoa… Era o tipo de homem que chamava atenção mesmo quando estava em silêncio. Uma pena que a personalidade dele estragasse completamente o pacote. Lilian continuava falando enquanto caminhávamos, aparentemente sem perceber o rumo que meus pensamentos tinham tomado. — Às vezes recebemos visitas da família ou parceiros da fazenda, então esses quartos acabam sendo usados para hóspedes — explicou. Paramos diante de uma das portas. Ela girou a maçaneta e abriu o quarto com naturalidade. — Este aqui deve ser confortável para você durante essa semana. Entrei no quarto enquanto ela falava, ainda tentando afastar da cabeça a imagem irritantemente nítida de Victor Sampaio. Porque, se aquela semana de teste já prometia ser difícil… Conviver sob o mesmo teto que ele provavelmente tornaria tudo ainda mais complicado. O ambiente era amplo e bem iluminado. A cama de madeira ocupava o centro do quarto, coberta por uma colcha clara e perfeitamente arrumada. Havia uma poltrona próxima à janela, uma cômoda antiga e um guarda-roupa grande no canto. Apesar de simples, tudo parecia muito bem cuidado. Caminhei até a janela quase por instinto. A vista dava diretamente para uma parte da fazenda. Ao longe, era possível ver cercas longas cortando os campos verdes, alguns currais e parte do estábulo. Era difícil acreditar que aquele lugar seria, pelo menos por uma semana, o meu novo cenário. — É lindo — murmurei. Lilian sorriu, claramente satisfeita com a reação. — Eu também pensei isso quando cheguei aqui pela primeira vez. Virei-me para ela. — Você não é daqui? Ela apoiou o ombro de leve no batente da porta, cruzando os braços de maneira relaxada. — Não. Eu sou do interior de São Paulo. Aquilo me surpreendeu um pouco. — Sério? — Sério. — Ela riu baixinho. — Eu cresci em uma cidade pequena perto de Campinas. Depois fui estudar na Unicamp. Fiz minha faculdade lá e, se alguém tivesse me dito naquela época que eu acabaria morando em uma fazenda no Mato Grosso, eu teria dado muita risada. Apoiei o ombro na lateral da janela, interessada na história. — Então o que aconteceu? O sorriso dela se alargou um pouco, daquele jeito de quem está lembrando de algo muito bom. — Eu conheci o Diego em um evento em São Paulo. Era um evento do agronegócio, daqueles enormes, com palestras, expositores, produtores… ele veio representando a fazenda da família. Ela cruzou os braços de forma distraída, ainda sorrindo. — Conversamos por acaso, no meio de um dos estandes. E… bom, a conversa que era para durar cinco minutos acabou durando a noite inteira. — Amor à primeira vista? — perguntei. Ela pensou por um segundo, divertida. — Quase isso. — respondeu. — Foi uma coisa muito rápida, muito intensa. Quando percebi, já estava viajando para conhecer a fazenda… e alguns meses depois estávamos casados. Balancei a cabeça, sorrindo. — Parece história de novela. — Às vezes eu também acho — disse ela, rindo suavemente. Por um instante, observei Lilian com mais atenção. Era fácil entender como alguém poderia se apaixonar por ela. Além de bonita e elegante, ela tinha uma leveza no jeito de falar que fazia qualquer conversa parecer simples e confortável. — Bom, descanse um pouco. Vou pedir pra alguém trazer sua mala que está lá embaixo. — Obrigada, Lilian. Ela me lançou um último sorriso antes de sair. A porta se fechou suavemente atrás dela. E, pela primeira vez desde que tinha chegado ali, fiquei sozinha no silêncio daquele quarto enorme. Olhei novamente pela janela, observando a extensão da fazenda que se espalhava diante de mim. Uma semana. Era só isso que eu tinha. Uma semana para provar que Victor Sampaio estava errado sobre mim.






