Mundo de ficçãoIniciar sessãoA porta se abriu sem cerimônia.
Um homem entrou no escritório com passos firmes, como alguém acostumado a não pedir permissão para ocupar espaço nenhum. Ele devia ter quase dois metros de altura. Usava roupas típicas de fazendeiro — camisa clara com as mangas dobradas até os antebraços, jeans escuro e botas já marcadas pelo uso. Nada nele parecia excessivamente arrumado, mas ainda assim havia uma presença forte, impossível de ignorar. Era bonito demais. O cabelo escuro estava levemente bagunçado, como se tivesse passado as mãos por ele várias vezes ao longo do dia, e o olhar… o olhar era intenso, penetrante, do tipo que parecia atravessar qualquer tentativa de disfarce. Assim que entrou, seus olhos se fixaram em mim. Por alguns segundos, ele simplesmente me observou. Sem sorrir. Sem dizer nada. Seu semblante era frio, quase avaliador, como se estivesse analisando algo que ainda não tinha decidido se valia a pena. — Victor, essa é a Ana Júlia. Ela está aqui para a vaga de veterinária — Lilian disse, quebrando o silêncio. O olhar dele não se suavizou. Pelo contrário. Algo próximo de desdém atravessou sua expressão enquanto ele continuava me encarando. — Veterinária? — ele repetiu, com um tom que deixava claro que a palavra não o impressionava nem um pouco. Seus olhos me examinaram rapidamente, da cabeça aos pés, como se estivesse fazendo um cálculo silencioso. — Você tem o quê… vinte e cinco anos? Senti o calor subir levemente ao meu rosto, mas mantive a postura. — Vinte e quatro, na verdade. Ele soltou um pequeno sopro pelo nariz, quase um riso sem humor. — Não serve pra trabalhar aqui. As palavras caíram no ar com uma frieza tão direta que, por um segundo, o silêncio dentro do escritório pareceu mais pesado. — Perdão? — eu disse, franzindo levemente a testa. — Você diz isso com base na minha idade? O silêncio que se formou no escritório foi imediato. Victor arqueou uma das sobrancelhas, claramente surpreso por eu não ter abaixado a cabeça ou simplesmente aceitado o comentário. Eu me levantei da cadeira devagar, mantendo o olhar firme no dele. Se ele esperava me intimidar, havia escolhido a pessoa errada. — Porque, se for esse o critério, acho que o senhor deveria olhar meu currículo antes de tirar conclusões. Lilian permaneceu em silêncio atrás da mesa, observando a cena com um interesse evidente. Victor cruzou os braços, apoiando o ombro na lateral da estante como se estivesse se divertindo com aquilo. — Currículo não faz ninguém aguentar a rotina de uma fazenda — ele respondeu, com a mesma frieza de antes. — Aqui o trabalho começa antes do sol nascer. Tem dia que você passa horas no meio do curral, com poeira, barro e um animal de meia tonelada que pode te derrubar se você errar. Ele deu um passo à frente. — Não é exatamente o tipo de trabalho que alguém acostumado com cidade grande costuma aguentar. Eu sustentei o olhar dele. — Então talvez seja melhor o senhor me testar antes de decidir que eu não sirvo. — Olha, Ana Júlia… — ele começou, passando a mão pelo cabelo de forma impaciente. — Não estamos interessados. Procuramos alguém com mais experiência na área. O tom de voz era quase indiferente, como se estivesse encerrando um assunto banal. Como se eu não estivesse ali. Senti meu estômago se contrair, mas mantive a postura. Não ia dar a ele o gosto de me ver constrangida. Antes que eu pudesse responder, Lilian se levantou da cadeira. — Cunhado, me deixe… — ela começou, claramente incomodada com a forma como ele conduzia a situação. A palavra ficou no ar por um instante. Cunhado. Aquilo explicava muita coisa. Victor virou o rosto na direção dela, lançando um olhar rápido que parecia misturar impaciência e autoridade. — Lilian, nós já conversamos sobre isso — ele disse, com firmeza. — A fazenda precisa de alguém que saiba exatamente o que está fazendo. Ele voltou a me encarar. — Não é lugar para aprender. Por um segundo, tive a nítida impressão de que ele já tinha decidido tudo antes mesmo de entrar naquele escritório. Como se minha presença ali fosse apenas uma formalidade. Lilian cruzou os braços, claramente contrariada. — Você nem ao menos viu o currículo dela com atenção. Victor soltou um pequeno suspiro, como alguém que estava ficando cansado daquela conversa. — Não preciso ver currículo para saber quando algo não vai funcionar. O silêncio que se seguiu pareceu esticar o ar dentro do escritório. E, naquele momento, eu percebi duas coisas muito claramente. A primeira: Victor Sampaio era exatamente o tipo de homem arrogante que achava que sua palavra era suficiente para encerrar qualquer discussão. A segunda: eu definitivamente não estava disposta a aceitar aquilo em silêncio. Lilian levou a pasta com meus documentos que estava sob sua mesa e entregou ao Victor, que folheou-a impacientemente. — Exatamente como imaginei, uma patricinha paulista. O comentário caiu no ar como uma provocação deliberada. Por um segundo, fiquei tentada a simplesmente virar as costas e ir embora. Aquela entrevista já tinha passado dos limites do razoável. Mas alguma coisa dentro de mim — talvez orgulho, talvez teimosia — me manteve exatamente onde eu estava. Ergui o queixo levemente. — Olha, senhor Victor — comecei, tentando manter o tom o mais controlado possível —, não sei com base em que está fazendo esse pré-julgamento, mas nunca fui patricinha. Ele me observou com um olhar quase divertido, como se estivesse esperando exatamente esse tipo de reação. — Não? — perguntou, apoiando o peso do corpo contra a mesa de Lilian. — Não. Cruzei os braços sem perceber. — Ter estudado na USP não significa que eu tenha passado a vida inteira em um condomínio de luxo andando de carro importado. O silêncio no escritório voltou a se instalar por alguns segundos. Lilian observava a cena com atenção, claramente curiosa para ver até onde aquela conversa iria. Victor inclinou a cabeça levemente, como se estivesse reconsiderando alguma coisa. — Então me diga — ele falou, com um tom mais baixo — o que exatamente uma veterinária formada em uma das melhores universidades do país está fazendo no meio do Mato Grosso tentando trabalhar na minha fazenda? Por um instante, sustentei o olhar dele. Mas alguma coisa dentro de mim já estava cansada daquela disputa silenciosa. Soltei o ar devagar. — Estava procurando um trabalho — respondi. — Mas acho que estou realmente no lugar errado. As palavras saíram mais calmas do que eu me sentia por dentro. Virei o rosto na direção de Lilian, que parecia visivelmente desconcertada com a situação. A simpatia que ela havia demonstrado desde o início agora estava misturada a um certo constrangimento. — Dona Lilian, agradeço pela sua simpatia e pela disposição em me receber. Peguei minha bolsa, sentindo o peso da viagem inteira cair sobre meus ombros de uma vez só. Por um segundo, pensei em quantas horas de estrada tinham me trazido até ali… e em como aquela entrevista tinha terminado em poucos minutos. Ainda assim, mantive a postura. Eu podia até ir embora daquela fazenda. Mas não ia sair dali diminuída. Caminhei em direção à porta, sentindo o olhar dos dois sobre mim. Cada passo parecia mais pesado que o anterior, mas eu me recusei a demonstrar qualquer hesitação. Minha mão já estava próxima da maçaneta quando a voz dele soou atrás de mim. — Uma semana. Parei no mesmo instante. Virei-me lentamente, tentando entender se tinha ouvido direito. — O quê? — perguntei, confusa. Victor estava parado próximo à mesa de Lilian, com a expressão tão impassível quanto antes, como se aquilo não fosse uma mudança repentina de decisão. — Você tem uma semana de teste na fazenda — disse, com naturalidade. — Trabalhando com os animais. Ele deu alguns passos na minha direção. — Quero ver se é tão boa quanto realmente diz ser. Por um segundo, fiquei sem saber se aquilo era uma oportunidade… ou apenas mais uma provocação. Victor passou por mim sem esperar resposta. O movimento foi rápido e decidido, como tudo nele parecia ser. Ao alcançar a porta, ele a abriu. — Se sobreviver à primeira semana, talvez possamos conversar sobre uma contratação. Então saiu do escritório. A porta se fechou atrás dele com um clique seco, deixando o silêncio ocupar o ambiente novamente. Fiquei parada por alguns segundos, ainda processando o que tinha acabado de acontecer. Quando me virei para Lilian, ela estava me olhando com um sorriso que misturava divertimento e um certo alívio. — Parabéns — disse ela. Incrédula, franzi a testa. — Pelo quê? Lilian apoiou o cotovelo na mesa, ainda sorrindo. — Você acabou de conseguir algo que quase ninguém consegue. Ela inclinou levemente a cabeça. — Fazer Victor Sampaio mudar de ideia.






