10: Consciência pesada

Sem entender por que Hector resolveu falar sobre aquele assunto, Ava levanta a cabeça e encara os olhos dele. De repente, nota uma mudança sútil; o olhar dele não está mais tão frio como estava mais cedo. Tem algo lá, uma profundidade meio sentimental que não havia notado antes.

Suavemente, ela se afasta e o segura pela mão, conduzindo-o até o lugar onde havia deixado o álbum.

— Vi as fotos que tiramos juntos, e mesmo não lembrando de nada, sinto que tudo o que vivemos foi muito lindo e sincero — ela diz, enquanto um sorriso tímido ilumina seu rosto.

Hector permanece em silêncio, engolindo em seco. A sinceridade de Ava e o peso de suas próprias ações fazem com que a mentira que ele mesmo sustentou se torne cada vez mais difícil de manter.

— Me conte mais sobre essas fotos — ela pede, abrindo o álbum com entusiasmo.

Enquanto Ava folheia o álbum, Hector observa as imagens editadas pelo especialista em IA. O trabalho é impecável, cada foto foi perfeitamente manipulada para mostrar uma realidade que não existiu, fazendo parecer que foi ele mesmo quem esteve ao lado dela em cada um desses momentos capturados. Ele sente uma mistura de admiração pela habilidade técnica e uma crescente angústia pela ilusão que essas imagens representam.

— O que estávamos comemorando nessa foto? — Ava pergunta, apontando para uma foto deles em uma praia ao pôr do sol.

Hector olha para a foto e um nó se forma em sua garganta, mesmo assim, ele decide responder:

— Esse dia comemoramos um ano juntos — revela.

— Eu estava tão jovem aqui — ela diz sorridente. — Com quantos anos começamos a namorar?

— Você tinha dezoito — responde.

— E quantos anos tenho agora?

— Vinte e cinco.

— Nossa… — comenta surpresa. — Estamos há sete anos juntos? Isso é uma vida.

— Sim, é mesmo — diz ele.

— Pelo meu sorriso, esse dia parece ter sido incrível — Ava comenta, voltando a olhar para a foto.

— Ele foi… — Hector responde, mas a sua voz falha um pouco enquanto luta com sua consciência.

Enquanto Ava folheia o álbum, cada foto parece trazer um pouco de melancolia por não se lembrar desses momentos supostamente felizes. Percebendo que talvez tenha sido dura demais com Hector, ela decide suavizar o clima.

— Me desculpa por desconfiar de você, Hector. Tudo está muito confuso para mim — ela diz, deixando a voz bem macia para mostrar seu arrependimento. Para reforçar isso, ela se aproxima mais e delicadamente entrelaça seus dedos nos dele, como um gesto de confiança.

Hector sente o calor da mão dela e não consegue evitar um certo conforto com esse contato. Ele olha para as mãos deles juntas e, por um momento, se permite apenas sentir essa conexão.

— Não precisa se desculpar. Sei que nada disso é fácil para você — ele responde, com uma voz mais calma. — Só quero que você se sinta bem.

Ava sorri, aliviada com a resposta que ele lhe dá e, instintivamente, se inclina para ele, diminuindo ainda mais a distância dos dois. Ela coloca sua outra mão no rosto dele, acariciando-o de leve, sinalizando que quer deixar as desconfianças para trás.

Embora normalmente evitasse tal proximidade, naquele momento, Hector não só tolerava o toque das mãos delicadas de Ava, mas desejava secretamente que elas nunca parassem. Havia algo surpreendentemente reconfortante na suavidade de seu toque, uma sensação de calor e conexão que o envolvia completamente.

Era exatamente isso que ele havia buscado, não era? Então, por que, agora que conseguiu o que queria, uma sensação de insegurança lhe invadia?

Sem notar a luta que Hector trava em seus pensamentos, Ava apoia a cabeça no ombro dele e decide colocar seus sentimentos para fora.

— Quando acordei e te vi ao lado da minha cama, levei um susto. — confessa. — Você disse que éramos próximos, mas seus olhos… eles não mostravam o mesmo. Foi por esse motivo que desconfiei do que você disse. Mas agora, olhando essas fotos, sinto um aperto no peito por duvidar de você — revela. — Como você mesmo disse, por que mais iria me resgatar e cuidar de mim tão bem assim, se não fôssemos realmente próximos?

A sinceridade de Ava b**e forte na consciência dele, que hesita.

Por que foi ficar daquele jeito logo agora?

Hector havia meticulosamente planejado cada passo em sua mente. Assim que Ava fosse declarada morta, previa uma queda brusca nas ações da empresa que ela dirigia. Neste momento crítico, ele agiria rapidamente para adquirir a maioria delas. Depois, quando Ava inevitavelmente retornasse à empresa, se depararia com uma realidade chocante: ele não apenas teria comprado uma quantidade significativa de ações, mas também se tornaria um dos sócios majoritários. A jogada era audaciosa e transformaria completamente o equilíbrio de poder que ele tanto buscava.

Mas naquele momento, enquanto ela descansa a cabeça no seu ombro, não sabe mais como lidará com toda aquela história que inventou.

Desde muito tempo, Hector havia deixado de se importar com os sentimentos das pessoas, e com ela não deveria ser diferente… mas estava sendo.

Notando que ele está há muito tempo em silêncio, Ava comenta.

— Já que não tenho memórias gravadas sobre você, que tal fazermos uma? — ela pergunta, erguendo a cabeça e depositando um beijo no rosto dele. — Quero que fique aqui esta noite — pede. Sei que estou fraca e sob cuidados médicos, mas quero dormir abraçada a você — revela.

O convite de Ava o pega de surpresa, mas ele está ciente de que, mesmo sem expectativas para o que poderia acontecer na cama, aceitá-lo não seria a decisão mais prudente. Não naquele momento.

— Eu não posso — responde rapidamente.

Sua resposta faz Ava franzir as sobrancelhas, confusa.

— Por quê? — ela pergunta.

Hector sabe que precisa se afastar para recolocar as ideias no lugar.

— Tenho trabalho acumulado — mente. — Passarei a madrugada no escritório.

Sabia que precisava de um tempo sozinho para pensar; por isso, decide acabar com aquela conversa.

Num gesto rápido e repentino, ele se levanta e fala, tentando parecer decidido.

— É melhor você descansar.

— Mas eu não queria ficar sozinha — Ava insiste.

— Vou pedir para Doris ficar com você, tudo bem?

Antes mesmo dela responder, ele complementa:

— Além disso, já está quase na hora de você tomar a medicação da noite — diz e se afasta, movendo-se até a porta do quarto. — Boa noite, Ava, nos vemos amanhã.

Ele a abre com um gesto determinado e sai, deixando-a sozinha, confusa com a rapidez e a frieza de sua saída.

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