ANALU
Não foi um envelope. Foi um pacote. Um maço de papel com grampo, cheio de palavras que pareciam em outra língua. “Intimação”, “Audiência de Conciliação”, “Guarda Provisória”, “Bem-estar da Criança”. O carteiro entregou com aquela cara neutra de quem tá só cumprindo ordens, mas os olhos dele escanearam o apartamento, o corredor simples, a minha cara pálida na porta. Eu senti a vergonha como um soco, seguida de um medo gelado. A justiça oficial, aquela que tem carimbo e assinatura, tinha colocado os olhos na nossa vida.
Levei os papéis para dentro com as mãos trêmulas. O cheiro do papel novo, de tinta de impressora, era o cheiro do nosso mundo desabando. Cayo tava na oficina, consertando uma moto. Eu fui até lá e só fiquei parada na porta, segurando o maço contra o peito. Ele levantou o olhar da correia do motor, viu minha cara, e a chave inglesa na mão dele tremeu um pouco.
— Chegou? — a pergunta dele foi seca, como se ele já soubesse a resposta.
Eu só balancei a cabeça e estend