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A eficiência é a única linguagem que tolero.

O cheiro de antisséptico e desespero impregna o ar. Estou na UTI, em frente à cama de Samira, olhando para ela através do vidro que nos separa, e ao mesmo tempo, sem barreiras para a realidade brutal. Meu coração b**e erraticamente, um tambor descompassado no meu peito, e a sensação que tenho é física, sufocante: há uma grande pedra entalada na minha garganta, arranhando a cada respiração.

Inferno! Para ser perfeitamente honesto, eu não gostaria de estar vivendo essa situação. Eu queria estar no meu escritório, lidando com números, contratos, coisas que eu posso controlar. Não aqui, diante da fragilidade humana.

Passo os olhos pelo rosto de Samira, pálido, quase translúcido sob a luz fria fluorescente. Tubos e fios a conectam a máquinas que respiram por ela, que monitoram cada batida fraca do seu coração.

Realmente, aquela menininha assustada de dezessete anos se foi. Os traços amadureceram, as maçãs do rosto estão mais definidas, os lábios mais cheios. Parece que estou diante de outra pessoa agora, uma mulher marcada pela vida. Mas uma coisa não mudou, uma constatação que me atinge com tristeza: ela perdeu aquela expressão de anjo. A inocência foi arrancada dela, substituída pelas sombras do Kashgar e agora, pela sombra da morte.

Após um breve tempo ali parado, imóvel como uma estátua, absorvendo a gravidade da situação, saio do quarto. O corredor é longo e impessoal.

Nos próximos minutos, o médico me coloca a par de sua situação clínica. Ele fala em termos técnicos, mas o tom é sombrio. E por mais frio que meu coração seja, por mais espessa que seja a armadura que construí, suas palavras não são fáceis de digerir. Elas descem rasgando.

Seu cérebro continua inchado. O trauma foi severo. Seu quadro ainda é extremamente grave. Cada hora é uma batalha.

Encaro o médico sem palavras. Minha mandíbula está tão tensa que dói. O barulho da minha forte respiração se torna audível no corredor silencioso, um som áspero de quem luta para manter o controle.

Eu odeio me sentir afetado por algo. Odeio essa vulnerabilidade que se infiltra pelas rachaduras da minha indiferença.

Sem sentimentos é o sinônimo de sem decepções. Essa foi a regra que me manteve vivo. E agora, olhando para a porta daquela UTI, sinto que essa regra está prestes a ser testada.

Uma semana depois, sexta-feira...

Palácio Nisba

Said Harun Nisba

O espelho à minha frente reflete a imagem de um homem que a sociedade moldou e que o destino, com sua crueldade peculiar, marcou. Rafad, meu assistente pessoal, um homem de movimentos precisos e silenciosos, fecha o último botão do meu paletó de seda, um tecido que desliza suavemente contra a pele, mas que não consegue disfarçar a verdade. A manga vazia, cuidadosamente enfiada no bolso, é mais do que um detalhe de alfaiataria; é um lembrete constante, uma cicatriz visível de que sou diferente, de que a completude física me foi negada. É a prova irrefutável de uma batalha travada desde o berço.

— Precisa de mim para mais alguma coisa, Sid? — A voz de Rafad é um sussurro respeitoso, quase inaudível.

— Não. Pode ir. — Minha resposta é curta, como sempre. A eficiência é a única linguagem que tolero.

Eu me encaro no espelho, e a imagem que me devolve é a de um líder, um Said Harun Nisba que não se dobra. As roupas feitas sob medida, impecáveis em seu corte e caimento, são uma armadura. Elas não encobrem a verdade, mas a adornam com dignidade. Convivo com essa diferença desde que me conheço por gente. Ao invés de um braço normal, tenho um toco que não passa da altura da axila. Uma parte de mim que nunca se desenvolveu, um vazio que a sociedade, muitas vezes, preenche com preconceito.

Já vivi maus momentos por ter nascido assim. As lembranças são como farpas cravadas na memória: o bullying cruel na infância, os olhares de pena disfarçados, a rejeição velada que me transformou em um ser desconfiado. Infelizmente, ser deficiente no meu país é mais complicado do que em outros. Somos muitas vezes considerados incapazes, fracos, um fardo. Contudo, sempre fui um lutador. Desde cedo, coloquei no meu coração que prosseguiria minha vida com raça, com uma força inabalável que me impulsionava a superar cada obstáculo, a provar a cada um que a verdadeira força reside na mente e no espírito.

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