Sinto meu corpo tremer de raiva só de me lembrar disso.
Por causa da minha deficiência, sempre lidei com as mulheres de forma calculista, quase transacional. Elas eram um meio para um fim, usadas para aplacar minha necessidade sexual, para preencher um vazio momentâneo. Para isso, sempre saí com odaliscas, mulheres que me olhavam da mesma maneira fria e desinteressada que eu olhava para elas. Não havia espaço para emoções, para a vulnerabilidade que o amor exigia. Era um jogo de espelhos, onde cada um via no outro apenas o reflexo de suas próprias carências.
Mas um dia, essa dinâmica mudou. E essa mudança ocorreu quando conheci Tânia. A lembrança dela ainda me assombra, uma sombra persistente em meu passado. Aquele par de olhos verdes... eram a coisa mais linda de se ver, um oceano de esmeraldas que prometia um paraíso. E quando aqueles lábios carnudos se curvaram em um sorriso na minha direção, um sorriso que parecia carregado de interesse genuíno, eu a desejei. Não apenas fisicamente, mas de uma forma que eu, em minha frieza calculista, nunca havia experimentado.
Mas Tânia não era uma das odaliscas com quem eu saía. Ela era uma garota de família, com uma reputação a zelar, um futuro a construir. Para tê-la, eu teria que apostar pela primeira vez em uma relação, em algo que ia além do efêmero, do puramente carnal. Era um risco, um salto no escuro para um homem que sempre pisou em terreno firme.
Depois de três eventos sociais onde participei, onde seus olhos insistiam em segurar os meus, em me prender em um laço invisível, eu disse para mim mesmo, em um momento de rara vulnerabilidade:
"Não seja covarde! Seja um homem de verdade e aposte nessa relação!"
E hoje, com a amargura de quem provou o fel, posso dizer que foi a pior burrada que fiz na minha vida. Estremeço só de pensar em como fui enganado, em como aquela mulher mentiu com seus gemidos sussurrados em meu ouvido, com suas palavras cheias de sedução e elogios vazios. Tudo não passava de uma farsa, uma encenação meticulosa para me prender em sua teia.
Mas um dia, sua dissimulação teve um fim. A máscara caiu, revelando a face da traição. Isso ocorreu quando já estávamos um ano casados, e eu comecei a notar que ela estava muito diferente da mulher que eu havia desposado. A paixão inicial havia se esvaído, substituída por uma distância fria, um véu de mistério que ela tentava, sem sucesso, esconder.
Sinto meu corpo tremer de raiva só de me lembrar disso. A memória daquela época é um veneno que ainda corre em minhas veias. Ela andava muito estranha, extremamente distraída, com um brilho nos olhos que não era para mim. Às vezes, eu a flagrava sorrindo para o celular, os dedos ágeis digitando mensagens que eu sabia não serem para mim. A dúvida, um parasita cruel, começou a corroer minha mente.
Comecei a achar que era muito bom para ser verdade que ela realmente estivesse comigo por realmente gostar de mim. Aquele homem seguro e confiante que eu era, desmoronou, dando lugar a uma insegurança que eu jamais pensei que sentiria. Comecei a achar que houvesse algo errado ocorrendo por trás dos bastidores do nosso casamento, uma peça oculta que eu não conseguia enxergar.
Carregando a dúvida algoz de que ela estivesse me traindo, tomei uma decisão fria e calculista, típica do Said que eu era antes de Tânia. Coloquei um detetive particular para seguir todos os seus passos, para desvendar a teia de mentiras que ela havia tecido. Não foi surpresa quando ele me disse que ela estava se encontrando em suas saídas com um CEO americano. A ficha caiu. Descobri que ele tinha participado de uma de nossas festas há seis meses, uma que o prefeito de Nova York nos deu para festejar nossa estadia nos Estados Unidos. A ironia era cruel.
Resumindo, fui otário por muito tempo. Um tolo que se deixou levar por um par de olhos verdes e um sorriso sedutor. Pacientemente, esperei o momento oportuno para pegá-la em adultério. Abrandei meu ódio, o transformei em uma arma silenciosa. E como ela, representei um marido satisfeito, alheio à sua infidelidade, enquanto por dentro, eu fervia em um caldeirão de ressentimento.
E valeu toda a minha dor, toda a minha paciência. A vingança, afinal, é um prato que se come frio. Dois dias depois da descoberta, menti que ficaria preso o dia inteiro no escritório em uma reunião de negócios e que só voltaria bem à noitinha. A veia em meu pescoço salta só de pensar em como ela sorriu plena e feliz quando eu comuniquei isso a ela. Aquele sorriso, antes um convite, agora era um punhal. E embora o fluxo do meu sangue estivesse disparado, cheio da minha raiva contida, consegui sorrir de volta, um sorriso tão convincente que ela jamais desconfiaria que tudo não passava de uma armadilha meticulosamente planejada para pegá-la em adultério.
E isso ocorreu. Tão logo ela me viu pelas costas, ela tratou de se encontrar com ele no Shopping e então seguiram para um motel barato, de quinta categoria. Ardilosamente, ela sabia que se usasse um hotel cinco estrelas, alguém poderia reconhecê-la, e sua farsa seria desmascarada antes da hora. A astúcia dela era quase admirável, se não fosse tão repugnante.
Com a alma partida em duas, uma rachadura profunda que jamais se fecharia, avancei com passos duros e decididos pelo corredor do motel. Abrindo a porta com um estrondo que ecoou no silêncio do quarto, dou imediatamente com a cena dos amantes deitados na cama, se beijando, se abraçando com uma loucura que me revirava o estômago. Imediatamente, fotos dos dois foram tiradas pelo meu assistente, que me acompanhava, enquanto eles nos olhavam pasmos, a surpresa e o terror estampados em seus rostos, a nossa presença no quarto desmascarando a farsa.