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Garotinha? Ela é uma mulher agora, Said...

— Garotinha? Ela é uma mulher agora, Said... — Rashid tenta se defender, recuando um passo diante da minha fúria. — Eu a reencontrei por acaso no Kashgar, onde ela trabalha como odalisca.

Outro choque. Um golpe ainda mais brutal que o primeiro.

Allah! Odalisca? A pequena e doce Samira, dançando para os olhos famintos de homens em um clube noturno? A imagem é tão grotesca, tão distante da menina que eu conheci, que sinto uma náusea repentina.

Limpo a garganta, tentando engolir o gosto amargo que inundou minha boca. O silêncio retorna, pesado e acusador.

Na época em que tia Zumira morreu, eu estava passando por um momento conturbado, um verdadeiro inferno pessoal na minha vida, e confesso, com uma pontada de vergonha que raramente sinto, que nem me atentei que a pobre Samira ficaria sem emprego, jogada à própria sorte. Desde então, nunca mais a vi. O mundo continuou girando, e eu a esqueci.

Estreito os olhos, focando toda a minha ira em Rashid.

— Você dormiu com ela? — A pergunta sai como um chicote.

Meu primo, assim como eu, não está no jogo dos relacionamentos duradouros. Ele, por ser muito jovem, tem apenas vinte anos, o sangue fervendo e a inconsequência guiando seus passos. E eu... eu tenho meus próprios motivos, cicatrizes profundas demais para permitir que alguém se aproxime novamente.

— Não! Khara! — Rashid se aproxima ainda mais da minha mesa, espalmando as mãos sobre a madeira polida, o desespero agora evidente em cada traço do seu rosto. — Por favor, Said, agora que sabe que é Samira, dê total assistência que ela precisa. Ela não tem mais ninguém.

Eu travo a mandíbula com tanta força que meus dentes rangem. Os músculos do meu rosto se retesam.

Meu coração se tornou uma pedra, uma rocha impenetrável e fria, depois de tudo que passei com Tânia. A traição dela secou qualquer fonte de empatia que pudesse existir em mim. Hoje, dificilmente me sinto afetado por alguma coisa. Lido com qualquer tipo de situação, seja uma crise bilionária na empresa ou uma tragédia pessoal alheia, da mesma forma fria e calculista que encaro os meus interesses financeiros. No entanto, agora, neste exato momento, sinto meu coração pesado, como se chumbo corresse em minhas veias.

Aquela garotinha, com seu sorriso tímido e olhar esperançoso, não merecia essa vida. Não merecia acabar em um palco do Kashgar, e muito menos esse trágico destino, presa a aparelhos em um leito de hospital.

Mas que grande merda! A culpa, um sentimento que eu havia banido da minha existência, b**e à minha porta. Eu deveria ter dado toda a assistência quando tia Zumira morreu. Eu falhei com ela.

Respiro fundo, puxando o ar gelado do escritório para tentar esfriar a fornalha que se acendeu no meu peito.

— Eu assumo "a sua responsabilidade" — digo, as palavras saindo amargas, mastigadas. — Mas vou deixar claro uma coisa, Rashid: daqui por diante, esquece Samira. Apague-a da sua memória. Não pense que, nas suas voltas para casa, nos seus intervalos de folga, dará continuidade ao seu joguinho, ao seu relacionamento. Ela está fora dos seus limites.

— Já disse que não tivemos nada! — meu primo me olha infeliz, os ombros caídos, a derrota estampada em sua postura. — E quanto a ela... nem sei se sairá dessa. O estado dela é crítico.

As palavras dele pairam no ar, um presságio sombrio. Quando Rashid finalmente deixa o meu escritório, arrastando os pés, a porta se abre e minha secretária surge na soleira, a expressão preocupada.

— O que houve? Vocês brigaram? Ouvi gritos.

 

Soraia Al Shabar, quarenta e cinco anos, uma mulher de postura impecável e olhar perspicaz. Trabalha para mim há uma década e já trabalhava para o meu falecido baba antes de eu assumir a pesada cadeira de presidente da Exagon. Ela me conhece melhor do que a maioria.

Eu conto para ela o que aconteceu. Faço isso do meu jeito habitual: frio, direto, sem rodeios, dissecando os fatos como se lesse um relatório de lucros e perdas.

— Deus! Coitada da garota — ela diz com grande consternação, levando a mão ao peito. Mas então, conhecendo minha aversão a sentimentalismos, força um sorriso na minha direção. — Mas, não vamos pensar no pior, Said. Com certeza Allah irá ajudá-la neste momento de dor. Ele é misericordioso.

Rio no meu interior, um riso seco e sem humor. Soraia tratou de não dramatizar as coisas, de engolir a própria angústia. Ela sabe que detesto drama, que abomino lágrimas e lamentações inúteis.

— Precisa de mim para alguma coisa? — ela questiona, a voz voltando ao tom profissional. Ela conhece minhas limitações físicas por causa da ausência de um dos braços. Está sempre atenta às minhas necessidades, antecipando meus movimentos: como fechar o botão rebelde do paletó, ajeitar minha gravata de seda, abrir pastas pesadas.

— Não! Pode ir. Eu também estou de saída. Avise Omar, por favor. Diga que desça com o carro.

Omar é meu motorista particular, um homem silencioso e leal, e é outro que já trabalhava para a nossa família desde a época de meu baba. Ambos, Soraia e Omar, são extremamente eficientes. Não estão comigo por afeto, estão comigo porque pago bem e exijo perfeição. É uma transação clara, sem emoções envolvidas.

— Está certo, senhor.

Quando ela sai e fecha a porta com um clique suave, o silêncio retorna, mas agora é ensurdecedor. Reclino meu corpo para trás e derrubo a cabeça sobre o encosto de couro macio da cadeira. Fecho os olhos, mas a escuridão não traz alívio.

Allah! A pequena Samira está com a vida por um fio no hospital. O som dos monitores cardíacos parece ecoar na minha mente.

Mas que grande merda!

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