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CAPÍTULO 05 — Uma Noite de Liberdade 🔥 Sofia Bellandi

Sofia Bellandi

Se eu realmente tivesse que me casar em breve, pelo menos queria sentir que havia aproveitado um pouco da minha própria vida. Não estava pensando em fazer nenhuma loucura. Também não pretendia desrespeitar minha família.

Mas, sinceramente? Queria saber como era beijar alguém antes que um marido fosse escolhido para mim. Era pedir demais? Na minha opinião, não.

Giulia insistia havia semanas para que eu saísse com ela. Nada de restaurantes sofisticados. Nada de jantares beneficentes. Muito menos o Corona Club, a boate da nossa própria família. Eu não era idiota.

Se Dominic descobrisse que resolvi justamente aparecer em um dos estabelecimentos dos Bellandi escondida, provavelmente mandaria alguém me buscar antes mesmo de eu atravessar a entrada.

Por isso aceitei o convite para uma casa noturna do outro lado da cidade. Discreta. Movimentada. E, principalmente, longe de qualquer pessoa ligada à famiglia.

O plano era simples. Sair de casa usando uma calça larga, um moletom preto e um boné. Giulia me esperaria do lado de fora da propriedade com uma pequena mala contendo minhas roupas. Só me arrumaria quando estivéssemos bem longe dali. Sem perguntas e sem meu irmão surtando. 

Esperei a casa mergulhar na tranquilidade da madrugada.

Quando tive certeza de que todos acreditavam que eu já estava no quarto, desci pela escada dos fundos. Meu coração batia depressa. O mais engraçado era perceber o quanto aquilo parecia ridículo. 

Eu era irmã do Don da La Corona Nera. Mesmo assim, estava escapando de casa como uma adolescente tentando burlar um castigo. Se Dominic descobrisse, eu jamais ouviria o fim daquela história.

Atravessei o jardim em passos rápidos, escolhendo os caminhos menos movimentados da propriedade. Conhecia aquele lugar desde de criança. Sabia exatamente onde as câmeras tinham pontos cegos e quais trajetos raramente eram utilizados pelos seguranças durante a troca de turno.

Quando alcancei a saída lateral, encontrei o carro de Giulia parado do outro lado da estrada. Ela abaixou o vidro e fez um gesto apressado para que eu atravessasse. Faltavam apenas alguns metros.

Estava quase livre. 

Foi nesse instante que ouvi, atrás de mim, o ronco grave de um motor ganhando vida.

Meu corpo inteiro enrijeceu.  Continuei caminhando como se nada tivesse acontecido, mas uma sensação estranha começou a percorrer minha espinha. 

Lancei um olhar discreto por cima do ombro.

Um sedã preto acabava de deixar a garagem da propriedade. E, por um motivo que eu ainda não conseguia explicar... Tive a nítida impressão de que Augusto Montserrat estava bem atrás de mim.

O ronco do motor ficou cada vez mais próximo. Pouco depois, o carro emparelhou comigo e o vidro do motorista começou a descer.

— Sofia? – Continuei andando como se não tivesse escutado. — Sofia...

Mantive o mesmo ritmo. Talvez, se eu ignorasse o suficiente, Augusto simplesmente desistisse. Era uma teoria otimista.

— Sofia, porra!

De todas as pessoas da Sicília, tinha que ser justamente Augusto Montserrat. Vai ser azarada lá na China, Sofia.

Acelerei os passos na esperança de alcançar o carro de Giulia antes que a situação piorasse. Não deu tempo. A porta do sedã bateu atrás de mim e, logo em seguida, ouvi os passos dele se aproximando.

— Sofia Bellandi.

Antes que eu pudesse atravessar a estrada, ele segurou meu braço com firmeza, mas sem machucar. Girei sobre os próprios pés.

— Ai, me solta.

— Não. – A resposta veio calma, sem elevar o tom. — Onde você pensa que vai?

Cruzei os braços, sustentando o olhar dele.

— Isso não é da sua conta.

Augusto me encarou por alguns instantes. Não havia irritação em seu rosto, apenas aquela tranquilidade irritante que parecia nunca abandoná-lo.

— Tem razão. – Deu um passo para trás e tirou o celular do bolso. — Então vou ligar para o seu irmão. Tenho certeza de que o Dominic vai adorar saber que a irmã dele está fugindo da propriedade no meio da noite.

Meu sangue ferveu.

— Você não faria isso.

— Quer apostar?

A tela do aparelho se iluminou. Ele realmente ia ligar.

Bufei, completamente indignada.

— Augusto!

Ele apenas aguardou.

— Estou esperando.

Passei a mão pela testa.

— Você é insuportável.

— Já ouvi isso algumas vezes.

— Velho fofoqueiro.

O canto da boca dele se ergueu por um instante.

— E você continua sem responder à minha pergunta.

Apertei os lábios. Droga.

Se Dominic descobrisse antes mesmo de eu entrar na boate, minha última noite de liberdade terminaria ali mesmo.

— Eu vou sair com uma amiga. Satisfeito? – Dei dois passos para trás e apontei para a estrada. — Arrivederci.

Virei as costas e nem consegui dar o terceiro passo.

Augusto voltou a segurar meu braço, desta vez com mais firmeza. No instante em que sua pele encontrou a minha, uma sensação estranha percorreu meu corpo.

Como um pequeno choque. Instintivamente, afastei o braço.

Ele também pareceu sentir. Seu semblante mudou e os olhos desceram para a própria mão, como se tentasse entender o que havia acabado de acontecer.

Nenhum de nós comentou e o momento passou tão depressa quanto surgiu.

— Onde você vai? – A voz dele havia perdido o tom de brincadeira. — E que lugar é esse?

Soltei o ar devagar. Minha paciência estava chegando ao limite.

— Uma casa de dança.

A expressão dele endureceu.

As discretas marcas ao redor dos olhos ficaram mais evidentes, denunciando que a resposta estava longe de agradá-lo.

— Vestida desse jeito?

Uma gargalhada escapou.

— Claro que não. – Apontei para o carro estacionado do outro lado da estrada. — Minha amiga está me esperando. Minha roupa está com ela.

Augusto acompanhou a direção do meu gesto até encontrar o veículo. Depois voltou toda a atenção para mim.

— Então você pretende entrar escondida em uma boate, sem que sua família saiba de nada e só vai você e essa amiga?

— Isso mesmo.

Ele inclinou levemente a cabeça.

— Isso não me parece uma boa ideia.

Cruzei os braços outra vez.

— Eu só quero viver uma noite como qualquer mulher da minha idade.

Ele permaneceu como uma coluna de pedra, pesando cada palavra minha  antes de responder. Quando voltou a falar, o tom era muito mais sereno.

— Sofia...

Balancei a cabeça antes mesmo que continuasse.

— Não começa.

— Eu não estou tentando estragar a sua noite.

Ergui uma sobrancelha. 

— Jura? Porque, até agora, é exatamente isso que você está fazendo.

— Vai levar pelo menos um segurança?

— Eu sei me cuidar.

Augusto olhou pro carro de Giulia, claramente avaliando se ainda fazia sentido insistir naquela conversa. No fim, cedeu.

— Tudo bem. Não vou me meter.

Abri a boca, sem esconder a surpresa.

Ele soltou o ar lentamente.

— Mas me diga qual é a boate. Vou deixar alguns seguranças meus por perto. Se acontecer qualquer coisa, eles entram.

Pisquei algumas vezes.

— Sério?

Ele demorou um instante antes de responder.

— Sim Bellandi.

Meu peito finalmente afrouxou. Eu esperava uma bronca. Uma ligação para Dominic. Ou, no mínimo, que ele me arrastasse de volta para dentro da mansão. Em vez disso…

Augusto só queria garantir que eu voltaria para casa em segurança.

— É a Eclipse.

Ele fez um leve movimento positivo com a cabeça, guardando mentalmente o nome.

— Certo.

Guardou o celular no bolso do paletó.

— Só não faça nenhuma besteira, tudo bem?

Levei a mão à testa em uma continência exagerada.

— Sim, senhor.

Ele lançou um olhar impaciente.

— E nada de aceitar bebida de desconhecidos.

— Sim, senhor.

— Não entre no carro de estranhos.

— Sim, senhor.

— Se sentir que alguma coisa está errada... me liga.

A última recomendação me pegou de surpresa. A brincadeira desapareceu do meu rosto.

— Eu ligo.

Augusto se virou em direção ao próprio carro.

— Divirta-se, Sofia.

Dei alguns passos, mas parei antes de entrar no carro de Giulia. Voltei o rosto na direção dele.

— Obrigada... por confiar em mim.

Ele sustentou meu olhar por um instante.

— Não me decepcione.

Então piscou. Porcaria.

Ainda sentia uma inquietação estranha no corpo. Uma reação completamente inconveniente.

Giulia arrancou com o veículo, mas não antes de lançar uma última espiada pelo retrovisor. Então abriu um sorriso enorme.

— Amiga... quem era aquele gato?

Pronto. Voltei ao meu estado normal.

Revirei os olhos.

— Aquele senhor? É o pai da minha cunhada.

Ela quase freou o carro.

— Senhor? – Olhou para mim como se eu tivesse acabado de cometer uma blasfêmia. — Se aquele homem é velho, então está envelhecendo igual ao vinho da sua família.

Levou a mão ao peito dramaticamente.

— Que delícia de homem.

— Credo... — murmurei, já irritada.

Giulia caiu na risada.

— Não me olha assim. Estou apenas sendo sincera.

Bufei e ajeitei o cinto de segurança.

— Vamos logo antes que mais alguém resolva aparecer para me impedir de sair de casa.

— Relaxa. Daqui a pouco você esquece o empresário bonitão e aproveita a noite.

Virei o rosto para a janela.

— É... tomara.

Mas, por algum motivo completamente idiota...

A sensação de choque da mão de Augusto segurando meu braço ainda insistia em permanecer na minha pele.

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