Mundo ficciónIniciar sesiónAugusto Montserrat
Durante todo o caminho de volta, continuei martelando a decisão de ter deixado Sofia ir sozinha para aquela boate. Eu deveria ter impedido? Avisado Dominic? Ou simplesmente ter colocado dois seguranças para acompanhá-la já era suficiente? Nenhuma resposta parecia a certa.
Assim que entrei no apartamento, fui direto para o banho. A água quente ajudou a aliviar a tensão acumulada durante o dia, embora minha cabeça continuasse ocupada demais para relaxar de verdade.
Vesti uma calça de moletom confortável, dispensei até a cueca. Vantagens de morar sozinho. Já tinha jantado na casa da minha filha, então caminhei até a cozinha apenas para abrir a gaveta onde guardava alguns chocolates.
Peguei um Caribe abri a embalagem e o levei à boca. Aquele chocolate sempre gerava discussão entre os brasileiros. Metade odiava. A outra metade amava. Eu fazia parte do segundo grupo.
E, para minha satisfação, Alina puxou exatamente esse gosto de mim. Lembrei da ligação que recebi meses atrás. Minha filha, grávida, simplesmente decidiu que precisava de um Caribe às duas da manhã.
Dominic atravessou metade de Palermo procurando o bendito chocolate. Na época fiquei com pena do italiano. A compaixão durou uns cinco minutos. Depois achei a situação engraçada demais para não rir da cara dele.
Mordi mais um pedaço do chocolate e caminhei até o escritório.
Antes de começar a analisar alguns relatórios, enviei uma mensagem para Theo.Eu: Fique de olho na Sofia. Qualquer problema, me avise imediatamente.
Ele respondeu poucos segundos depois. Theo: Pode deixar, chefe.Voltei ao trabalho ou pelo menos tentei. Quase uma hora depois, meu celular vibrou novamente. Era Theo.
Theo: Chefe, a senhorita Sofia parece que bebeu além da conta e está se recusando a ir embora.
Logo abaixo havia uma fotografia.
Abri a imagem.Cacete...
Passei a mão pelo rosto. Que roupa era aquela? Se alguma coisa acontecesse com aquela menina, parte da culpa seria minha. Porque fui eu o burro quem permitiu que ela saísse. Ampliei a foto.
O vestido dourado destacava cada curva do corpo dela.
O decote era elegante, mas chamativo, e a abertura nas costas descia muito mais do que eu considerava prudente para alguém que estava embriagada em uma casa noturna.Os cabelos negros estavam presos em um coque frouxo, deixando alguns fios escaparem ao redor do rosto. A pele brilhava discretamente sob as luzes do ambiente, coberta por algum tipo de iluminador que refletia cada foco de luz da pista.
Não era cego. Muito menos inocente. Sofia Bellandi chamava atenção por onde passava. Bonita daquele jeito... Sozinha… E bêbada.
Massageei as têmporas.— Merda...
Fechei o notebook sem nem salvar o relatório que estava lendo. Foda-se.
Eu dei minha palavra de que ela poderia sair. Agora também era minha responsabilidade garantir que voltasse para casa em segurança.Vesti uma roupa, peguei as chaves do carro e o celular.
Antes de sair, joguei um sobretudo por cima. Estava um frio do cacete e aquela menina tinha saído usando praticamente um pedaço de pano.Poucos minutos depois, já seguia pelas ruas de Palermo em direção à boate. Rezando para chegar antes que aquela Bellandi arrumasse alguma confusão. Quando cheguei, meu humor já estava no limite.
O som da música atravessava as paredes da boate, fazendo o chão vibrar a cada batida.
Gente por todos os lados, álcool sendo servido sem parar e corpos se esfregando na pista como se o mundo fosse acabar naquela noite. Eu odiava aquele tipo de ambiente.Passei pelos seguranças, que me reconheceram imediatamente depois que Theo apareceu ao meu lado, e subi para o camarote reservado. Vazio.
Franzi o cenho.— Cadê ela?
— Estava aqui há poucos minutos, chefe. Desceu para dançar com a amiga.
Apoiei as mãos na grade de vidro e percorri a pista iluminada pelas luzes coloridas.
Centenas de pessoas. Por um instante pensei que levaria vários minutos para encontrá-la. Não levei.Como se existisse um maldito ímã entre nós, meus olhos foram direto para ela. Sofia.
O vestido dourado brilhava sob os refletores, tornando impossível que passasse despercebida. Ela estava de costas para mim, completamente envolvida pela música.Rebolava sem qualquer preocupação. Sem imaginar que estava sendo observada.
Meu maxilar travou ao ver um homem dançava colado nela. As mãos dele deslizavam pela cintura da italiana e, aos poucos, desciam para um lugar que fizeram meu sangue ferver. Não esperei mais um segundo.Desci as escadas praticamente atropelando quem cruzava meu caminho.
As pessoas precisavam abrir espaço para que eu passasse. Cada passo aumentava ainda mais a irritação que queimava dentro do peito.O sujeito ria de alguma coisa que Sofia dizia enquanto voltava a segurá-la pela cintura. Foi o suficiente. Alcancei os dois e segurei o pulso do idiota antes que encostasse nela outra vez.
Ele se virou imediatamente.— Qual é o seu problema?
Minha voz saiu baixa. Fria.
— O problema… – Apertei um pouco mais o pulso dele. — É você colocar as mãos onde não deve.
Na mesma hora, Sofia virou o rosto na nossa direção. Assim que me reconheceu, seus olhos se arregalaram.
— Augusto?
— Vamos, Sofia.
Ela cruzou os braços e me encarou com evidente teimosia.
— Não vou.
Fechei os olhos por um breve instante e soltei o ar devagar. Hoje minha paciência estava sendo testada. Antes que eu respondesse, o sujeito que dançava com ela deu uma risada debochada.
— Ei, tio... aqui não é lugar para velho. Vai procurar um bingo.
Nem tive tempo de reagir. Sofia girou o corpo e acertou um soco bem no rosto do idiota.
O impacto foi tão inesperado que até eu fiquei imóvel Caralho. Aquilo foi... surpreendentemente sexy.Ela apontou um dedo para o homem caído.
— Ele não é seu tio. – Sua voz saiu firme e arrastada ao mesmo tempo. — Ele é um CEO fodão. Ouviu?
O sujeito levou a mão ao rosto e levantou completamente transtornado.
— Sua vadia!
Ele deu um passo à frente e ergueu o braço como se fosse revidar. Só podia estar completamente louco.
Nem precisei me mover, levantei discretamente o indicador e foi o bastante. Theo surgiu ao meu lado junto com outros dois homens, imobilizando o infeliz antes que ele chegasse perto dela.
— Me solta! — ele gritou, debatendo-se. — Me solta, porra!
Theo apertou um pouco mais a chave de contenção.
— Fica quieto.
O homem continuava esperneando.
— Vocês sabem quem eu sou?
Theo sequer demonstrou interesse.
— Nem queremos saber.
O sujeito cuspiu um monte de ofensas enquanto tentava se desvencilhar.
— Vocês vão se arrepender, seus filhos da puta!
Olhei para Theo.
— Coloquem esse idiota para fora.
— Sim, chefe.
Sem dizer mais uma palavra, meus homens arrastaram o sujeito em direção à saída da boate. Só então voltei minha atenção para Sofia. Ela permanecia exatamente onde estava.
Com as bochechas coradas pelo álcool, os cabelos parcialmente soltos e uma expressão que misturava irritação e diversão. A Bellandi ainda teve a coragem de sorrir para mim.
Como se não tivesse acabado de transformar minha noite em um caos.






