Mundo de ficçãoIniciar sessãoAugusto Montserrat
Meu celular vibrou exatamente quando eu encerrava uma videoconferência com a filial de Singapura. Bastou olhar o nome de Dominic na tela para imaginar que não se tratava de negócios.
Atendi imediatamente.
— Diga.
— Augusto, nossa pequena recebeu alta.
Por um instante, todo o resto perdeu a importância. Nenhum contrato assinado, aquisição bilionária ou expansão internacional se comparava ao alívio de ouvir aquelas quatro palavras.
— Como ela está?
— Muito melhor. Os médicos disseram que ainda precisa de alguns cuidados, mas agora pode terminar a recuperação em casa.
Passei a mão pelo rosto.
— Essa é, sem dúvida, a melhor notícia do meu dia.
— Achei que gostaria de saber antes de qualquer outra pessoa.
— Fez bem.
A ligação permaneceu em suspenso por alguns instantes. Então Dominic voltou a falar.
— Alina está feliz... mas também apavorada.
Um comentário divertido escapou antes que eu percebesse.
— Já começou a achar que qualquer espirro dos bebês exige uma corrida até o hospital?
— Exatamente.
— Bem-vindo ao mundo dos pais de primeira viagem.
Do outro lado da linha, percebi que ele compartilhava da mesma diversão.
— Flora já tomou conta da cozinha. Sofia assumiu a responsabilidade pelo Lorenzo enquanto fomos buscar a Heleninha. E minha mãe praticamente proibiu qualquer pessoa de carregar um copo de água dentro daquela casa.
A imagem se formou com facilidade na minha cabeça. Flora organizando tudo.
Sofia completamente encantada pelos sobrinhos. Domenico fingindo que não estava emocionado. E Dominic observando Alina como se ela ainda pudesse desaparecer a qualquer instante.Minha filha estava exatamente onde deveria estar.
— Obrigado por cuidar dela, Dominic.
Dessa vez, ele respondeu sem hesitar.
— Ela é a minha vida, Augusto.
Não havia exagero naquela frase. Nem necessidade de provar qualquer coisa.
Apenas a verdade dita por um homem completamente apaixonado pela própria esposa.— Eu sei.
Encerramos a ligação poucos minutos depois.
Caminhei até a enorme janela do escritório e permaneci contemplando o movimento da cidade muito abaixo de mim.Heleninha finalmente iria conhecer a própria casa. Lorenzo e a irmã estariam juntos pela primeira vez fora do hospital. Talvez aquele fosse, de fato, o início da vida deles como família.
Apoiei as mãos sobre a mesa e permaneci ali por alguns instantes. Durante muitos anos, tudo o que fiz teve um único objetivo.
Garantir que Alina tivesse um futuro seguro. Hoje, ela possui muito mais do que isso. Tinha um marido que a amava sem reservas, dois filhos saudáveis e uma família inteira disposta a protegê-la.
❤️🔥💙❤️🔥
Cinco dias.
Era esse o tempo que Heleninha finalmente estava em casa.Assim que concluí os compromissos daquela manhã, segui direto para a residência de Dominic e Alina. Já havia criado o hábito de aparecer sem avisar.
Felizmente, naquela família ninguém parecia se importar. Pelo contrário. Sempre havia uma porta aberta, café passado e alguém disposto a me arrastar para dentro.Foi Flora quem atendeu.
— Chegou na hora certa.
Acompanhei-a até a sala e encontrei Alina acomodada no sofá, amamentando Helena.
O cansaço continuava evidente em seu rosto. As noites mal dormidas e a rotina intensa com dois recém-nascidos cobravam seu preço. Ainda assim, os dias de incerteza haviam ficado no hospital.Agora os dois filhos estavam sob o mesmo teto, e isso parecia devolver à minha menina uma tranquilidade que eu não via havia semanas.
Dominic ocupava o lugar ao lado dela, completamente envolvido naquela cena.
Seus olhos alternavam entre Alina e a filha com uma atenção quase obsessiva, como se ainda precisasse se convencer de que ambas realmente estavam ali, seguras.Esperei até que Helena terminasse de mamar. Alina a manteve apoiada sobre o próprio ombro, fazendo pequenos afagos em suas costas até ouvir o arrotinho discreto que arrancou uma expressão satisfeita de todos nós.
Foi só então que me aproximei.
— Posso?
Ela estendeu a bebê na minha direção.
— Claro, pai.
Recebi minha neta com todo o cuidado que aqueles poucos quilos inspiravam.
Cinco dias atrás, ela ainda estava cercada por fios, monitores e aparelhos que insistiam em lembrar como a vida podia ser frágil. Agora descansava tranquila em meus braços.Diferente do irmão, Helena carregava os traços dos Bellandi quase por completo.
Os cabelinhos escuros, rebeldes e levemente ondulados lembravam imediatamente os de Alina, apenas isso tinha de semelhança com minha filha. A pele clara contrastava com as bochechas coradas, e os olhinhos curiosos pareciam atentos a tudo ao redor, mesmo sem compreender absolutamente nada daquele mundo.Então seus dedinhos envolveram meu indicador. Uma força minúscula e suficiente para desmontar qualquer homem.
— Você já descobriu como conquistar o seu avô... não foi, principessa?
Ela apenas me encarou, completamente alheia ao efeito que causava em todos daquela família.
— Ela está ganhando peso muito bem — comentou Alina. O orgulho em sua voz era impossível de esconder. — A pediatra ficou bastante satisfeita com a evolução dela.
Assenti sem desviar os olhos da minha neta. Existiam vitórias que dispensavam comemorações grandiosas. Bastava segurá-la por alguns minutos para entender que cada noite mal dormida, cada oração e cada segundo de medo tinham valido a pena.
Heleninha estava em casa e isso era tudo o que realmente importava.Ainda segurava Helena nos braços quando a porta de entrada foi aberta.
Segundos depois, Sofia Bellandi atravessou a sala.Junto com ela veio o perfume frutado, marcado pelas notas suaves de pêssego que eu já era capaz de reconhecer antes mesmo de vê-la. Curiosamente, fazia alguns dias que não sentia aquela fragrância, e só então percebi que havia sentido sua ausência.
— Ciao, famiglia.
A saudação foi respondida quase ao mesmo tempo por todos que estavam na sala.
Foi então que algo me chamou a atenção. Tinha um peso discreto em sua voz. Quase imperceptível. Mas suficiente para despertar minha curiosidade.— Cadê a minha piccolina?
Enquanto perguntava, percorreu o ambiente até encontrar Helena acomodada em meus braços.
A delicadeza que tomou conta de sua expressão contrastava com a mulher expansiva que eu havia aprendido a conhecer nos últimos meses. Sofia costumava chegar fazendo piadas, provocando algum dos irmãos ou transformando qualquer conversa comum em um espetáculo particular.
Naquele dia, porém, havia algo diferente. Ela parecia distante e mais contida.
Caminhou até mim e estendeu os braços.— Posso?
Entreguei Helena com cuidado.
Assim que a sobrinha encontrou abrigo em seu colo, a tensão estampada em seu rosto começou a desaparecer aos poucos. Os ombros relaxaram. O semblante recuperou parte da leveza habitual. Bastou sentir o corpinho da menina junto ao peito para que qualquer preocupação fosse empurrada para o segundo plano.Observei a cena sem dizer uma palavra. Algumas pessoas tinham o raro dom de transmitir segurança apenas com a própria presença. E, pelo visto, Sofia Bellandi parecia encontrar a sua justamente nos braços da sobrinha.
❤️🔥💙❤️🔥
Estava sentado de frente para a lareira.
O clima em Palermo havia esfriado nos últimos dias, tornando o calor do fogo especialmente agradável naquela noite. Dominic ocupava a poltrona ao meu lado, com um copo de uísque nas mãos. Notei, quase sem querer, que já fazia alguns dias que ele não acendia um cigarro. Alina vivia reclamando daquele hábito.— Conseguiu largar?
Ele lançou um rápido olhar para o maço de cigarros esquecido sobre a mesa de centro.
— Estou tentando.
Tomou um gole antes de continuar.
— Não quero que meus filhos cresçam sentindo cheiro de fumaça toda vez que eu entrar em casa.
Assenti.
Era uma decisão inteligente.Passamos alguns minutos falando sobre Lorenzo e Helena, até que o rumo da conversa mudou naturalmente.— Confesso que fiquei preocupado com a Alina nas primeiras semanas.
Voltei toda a atenção para ele.
— Aconteceu alguma coisa?
Dominic apoiou os antebraços nas pernas.
— Ela quase não queria comer. Dormia muito pouco, chorava por qualquer motivo... e se culpava por tudo o que acontecia.
Meu estômago revirou.
Era exatamente o cenário que eu temia desde o nascimento dos gêmeos.— Achei que estivesse entrando em depressão pós-parto. Felizmente, os médicos explicaram que era compatível com o puerpério. Principalmente depois de tudo o que aconteceu com a Helena.
Concordei.
Minha filha havia enfrentado uma gravidez difícil, um parto prematuro e ainda precisou deixar uma das filhas internada enquanto voltava para casa com o outro bebê.
Qualquer mulher sairia abalada de uma situação como aquela.A expressão dele voltou a ficar mais leve.
— E ainda morre de vergonha de deixar eu vê-la sem roupa.
Fiz uma careta.
— Bellandi...
Ele levantou as mãos, rendido.
— Eu sei. Esse detalhe definitivamente um pai não precisava ouvir.
— Ainda bem que você percebeu.
Apesar da brincadeira, a preocupação continuava presente. Minha filha sempre foi extremamente reservada com o próprio corpo. Depois da gravidez, era natural que estivesse ainda mais insegura.
Dominic bebeu mais um gole antes de mudar de assunto.
— Estou pensando em organizar uma festa daqui a dois meses.
— Qual seria a ocasião?
— Quero apresentar oficialmente os bebês à famiglia e aos nossos aliados.
A ideia fazia sentido. Mas ele ainda não havia terminado.
— Também pretendo aproveitar o evento para iniciar oficialmente o processo de escolha do marido da Sofia.
Um desconforto imediato tomou conta de mim.
Dias antes, eu havia conversado com Domenico sobre o assunto. Ela não era contra se casar. Era contra perder o direito de escolher com quem dividiria a própria vida. Infelizmente, como irmã do Don, esse privilégio nunca pertenceu apenas a ela.Se recusasse todos os candidatos... a decisão acabaria recaindo sobre Dominic.
Cruzei uma perna sobre a outra e encarei o italiano.— Já tem alguém em mente?
Ele sustentou meu olhar, como se avaliasse muito mais do que a pergunta. Então girou lentamente o uísque dentro do copo.
— Sim... – Fez uma breve pausa. — Tenho.
— O filho do capo Santino Bellucci. O velho já fez essa proposta algumas vezes, mas a Sofia ainda era muito nova. Agora a situação é diferente.
Dominic apoiou o copo sobre a mesa de centro.
— Rocco Bellucci é, de longe, um dos homens que mais defende os direitos das mulheres dentro da organização. Não pensa como a maioria dos capos. É respeitado, preparado e tem uma boa relação com a famiglia.
— Hm...
Foi tudo o que consegui dizer.
Por fora mantive a mesma expressão serena. Por dentro…Algo naquele assunto me incomodava mais do que deveria. Talvez fosse apenas porque, dias antes, Sofia havia confessado o medo de acabar presa a um homem que não a respeitasse.Ou talvez porque eu já tivesse me acostumado com a presença dela implicando comigo toda vez que me via.
Afastei aquele pensamento antes que ele ganhasse espaço. A vida dela não dizia respeito a mim. Muito menos a escolha do marido.
Ergui novamente o copo.— Espero que ela consiga se resolver, então.
Dominic assentiu.
— Também espero.
A chama da lareira estalou ao fundo, preenchendo o breve intervalo entre nós. Sem perceber, minha mente voltou à imagem de Sofia segurando Helena nos braços.
Ela sorria. Mas seus olhos contavam uma história completamente diferente. E, pela primeira vez desde que a conheci, desejei sinceramente que ela encontrasse alguém capaz de fazê-la sorrir de verdade.
Antes que eu pudesse responder qualquer coisa, minha filha surgiu na sala com passos leves, segurando uma xícara de chá fumegante entre as mãos.
Os cabelos ruivos estavam presos de qualquer jeito e ela usava uma roupa confortável, típica de quem já havia desistido de tentar manter qualquer elegância durante a maternidade. Assim que chegou perto de nós, nem pediu licença.
Simplesmente acomodou a xícara sobre a mesa e se jogou no colo do marido, encaixando-se ali como se aquele fosse seu lugar favorito no mundo. Dominic passou um braço ao redor da cintura dela automaticamente. Como se aquele gesto fosse um reflexo.
Balancei a cabeça, fingindo indignação.
— Perdi minha filha mesmo.
Alina ergueu o rosto para mim.
— O papel de dramático não combina com você, pai.
Uma risada sincera escapou antes que eu pudesse responder.
Continuamos conversando por mais alguns minutos. Os bebês permaneciam dormindo no quarto e a casa inteira parecia desfrutar daquela rara tranquilidade. Em determinado momento, a voz de Alina começou a ficar cada vez mais baixa. As respostas demoravam um pouco mais para sair. Até que simplesmente pararam. Ela havia adormecido.
A cabeça repousava no peito de Dominic enquanto uma das mãos permanecia fechada sobre a camisa dele. O italiano apenas abaixou os olhos na direção da esposa e afastou delicadamente uma mecha de cabelo que caía sobre seu rosto.
Não houve reclamação. Nem qualquer tentativa de acordá-la. Só um cuidado silencioso de quem conhecia exatamente o tamanho do cansaço que ela carregava.
Dominic sorriu de canto antes de voltar a atenção para mim.— Bom, sogro... Preciso levar minha bambolina para a cama.
— Eu também já vou.
Dominic acomodou melhor Alina nos braços antes de voltar a falar.
— Vai ficar quanto tempo desta vez?
Passei a mão na barba por fazer.
— Pretendo permanecer mais tempo na Sicília, mas ainda não tenho certeza. Estou dividindo parte das decisões com o Enzo, porém minha herdeira faz muita falta nos negócios.
O italiano soltou um comentário carregado de provocação.
— Que pena, Augusto. Sinto muito por você. – Esperou apenas o tempo suficiente para aumentar meu aborrecimento antes de completar — Não posso dizer o mesmo. Ganhei uma CEO para a minha organização que é mais do que excelente. Desde que a Alina assumiu parte das empresas, minha fortuna só cresceu.
Estalei a língua.
— Acho que vou começar a treinar minha neta desde cedo.
Dominic apoiou as costas no sofá.
— Faça outro filho e deixe a minha em paz.
Inclinei a cabeça.
— Você realmente acha que, depois dos quarenta, eu tenho disposição para começar tudo de novo?
— Problema exclusivamente seu.
— Muito fácil falar quando o problema é dos outros.
Uma gargalhada baixa escapou dele. Antes que eu encontrasse uma resposta à altura, Alina murmurou alguma coisa incompreensível durante o sono e se aninhou ainda mais junto ao peito do marido.
Nossa conversa morreu ali. Apenas observamos a cena.
Dominic ajeitou delicadamente outra mecha de cabelo atrás da orelha dela, tomando o cuidado de não despertá-la.— Buonasera, Dominic.
— Buonasera, Augusto.
Deixei a residência poucos minutos depois.
Atravessei os jardins da propriedade sem qualquer pressa, enquanto o frio daquela noite tornava o ar ainda mais cortante.
Entrei no carro, dei partida no motor e segui lentamente em direção ao portão principal.
Foi então que algo prendeu minha atenção. Mais adiante, próximo à saída da propriedade, uma figura inteiramente vestida de preto caminhava em passos rápidos.A cabeça se movia de um lado para o outro, em uma vigilância constante, procurando qualquer sinal de que estava sendo seguida. Aquilo não tinha a menor aparência de alguém fazendo uma caminhada noturna. Parecia...
Que estava tentando fugir.






