Mundo de ficçãoIniciar sessãoRoman odiava reuniões logo cedo.
Principalmente reuniões onde meia dúzia de homens ricos fingiam preocupação profissional enquanto, na verdade, estavam questionando silenciosamente sua capacidade de continuar no comando da própria empresa.
O ambiente da sala principal da Villar Group permanecia impecável como sempre. A enorme mesa de vidro refletia as luzes frias do teto enquanto telas exibiam gráficos financeiros, contratos internacionais e projeções para os próximos meses. Tudo parecia organizado por fora.
Diferente da situação real.
Roman observava os executivos à sua frente em silêncio enquanto um dos acionistas terminava de apresentar os números do trimestre.
— As ações continuam estáveis financeiramente — o homem dizia cuidadosamente — mas a preocupação do mercado em relação à imagem da presidência aumentou nas últimas semanas.
Roman apoiou lentamente os dedos sobre a mesa.
— Você quer chegar em algum ponto específico ou pretende continuar girando em volta dele?
O homem limpou discretamente a garganta.
— Os investidores japoneses estão preocupados com a exposição negativa envolvendo seu nome.
Claro que estavam.
Nos últimos meses, os tabloides pareciam obcecados pela vida pessoal dele. Manchetes sobre relacionamentos fracassados, especulações sobre comportamento frio, entrevistas antigas distorcidas propositalmente. Tudo virava notícia.
Roman suportaria aquilo sem dificuldade se afetasse apenas ele.
Mas agora começava a atingir a empresa.
E isso mudava tudo.
— O contrato com o grupo Takahashi representa bilhões — outro executivo comentou. — Precisamos garantir estabilidade antes da assinatura oficial.
Roman permaneceu imóvel.
Controlado.
Frio. Impecável.Mas internamente sentia a irritação crescer cada vez mais.
Porque havia construído aquele império praticamente sozinho. Trabalhou durante anos até transformar a Villar Group em uma das empresas mais influentes da Europa.
E agora empresários que nunca arriscaram metade do que ele arriscou estavam questionando sua imagem porque jornalistas decidiram transformar sua vida pessoal em entretenimento público.
Patético.
— Minha vida privada nunca impediu essa empresa de crescer — respondeu friamente.
— Não antes — um dos acionistas rebateu com cautela. — Mas agora existe preocupação internacional envolvendo sua estabilidade emocional e comportamento público.
Aquilo quase arrancou uma risada dele.
Estabilidade emocional.
Como se empresários multimilionários realmente se importassem com sentimentos.
Tudo aquilo era sobre dinheiro.
Sempre era.
Roman desviou o olhar lentamente para as enormes janelas atrás da sala. Londres permanecia cinza do lado de fora, coberta pela chuva fina típica daquela cidade.
Fria.
Distante. Controlada.Exatamente como ele gostava.
Ou costumava gostar.
— O grupo Takahashi quer uma imagem mais… familiar da presidência — Henrique comentou calmamente pela primeira vez durante a reunião. — Eles acreditam muito em estabilidade pessoal associada à estabilidade empresarial.
Roman fechou lentamente a pasta sobre a mesa.
— Então talvez eles devam fechar contrato com um terapeuta. Não comigo.
Alguns executivos desviaram o olhar imediatamente.
Henrique apenas suspirou discretamente.
Porque conhecia Roman o suficiente para perceber quando ele estava perto de perder a paciência de verdade.
E aquilo raramente terminava bem.
— Precisamos resolver isso antes da assinatura oficial — outro acionista insistiu. — A imprensa continua pressionando sua imagem.
Roman apoiou as costas na cadeira lentamente.
— E qual exatamente seria a solução brilhante de vocês?
O silêncio que tomou conta da sala praticamente respondeu sozinho.
Casamento.
Relacionamento público.
Noiva. Família. Qualquer coisa que vendesse a ideia de estabilidade emocional.Ridículo.
Mesmo assim…
necessário.
Roman odiava admitir aquilo até para si mesmo.
Mas Henrique tinha razão.
A situação começava a sair do controle.
A reunião terminou quase uma hora depois deixando o ambiente do escritório ainda mais pesado.
Roman permaneceu sozinho na sala principal observando Londres pela janela enquanto afrouxava discretamente a gravata. Sua cabeça doía.
Não pelas cobranças.
Ele sabia lidar com pressão melhor do que qualquer um naquela empresa.
O problema era outro.
Pela primeira vez em muitos anos, sentia que precisava moldar parte da própria vida para proteger algo que construiu sozinho.
E aquilo o irritava profundamente.
A porta se abriu alguns segundos depois.
Henrique entrou calmamente carregando algumas pastas.
— Você quase assustou metade da diretoria hoje.
Roman soltou uma risada baixa, sem humor.
— Ótimo.
Henrique deixou os documentos sobre a mesa antes de observar ele por alguns segundos.
— Eles estão começando a ficar realmente preocupados.
— Eles estão começando a ficar inconvenientes.
Henrique ignorou o comentário.
— O grupo Takahashi antecipou a reunião final.
Roman virou o rosto lentamente.
— Quando?
— Em três semanas.
Aquilo fez o silêncio pesar novamente dentro da sala.
Três semanas.
Era pouco tempo.
Pouquíssimo.
Henrique então respirou fundo antes de continuar:
— Precisamos resolver sua imagem antes disso.
Roman fechou os olhos rapidamente por um segundo.
Cansativo.
Tudo aquilo parecia absurdamente cansativo.
— E aí? — Henrique perguntou. — Vai continuar rejeitando todas as soluções ou finalmente vai aceitar que precisa fazer alguma coisa?
Roman caminhou lentamente até o bar no canto da sala e serviu whisky no copo com movimentos calmos.
— Você fala como se casamento por contrato fosse uma solução normal.
— No seu caso? Talvez seja a única possível.
Roman tomou um gole da bebida sem responder imediatamente.
Porque no fundo sabia que Henrique provavelmente estava certo.
E odiava isso.
Henrique então puxou outra pasta mais fina dentre os documentos sobre a mesa.
Olívia Becker.
Roman reconheceu o nome antes mesmo de abrir.
Aquilo sozinho já era irritante.
— Ela recusou ouvir a proposta ontem — Henrique comentou.
Roman ergueu levemente os olhos.
— Você já falou com ela?
— Encontrei ela num bar depois do trabalho.
Roman permaneceu em silêncio esperando ele continuar.
— Ela ficou desconfiada imediatamente. Achou que fosse algum tipo de esquema estranho envolvendo milionários excêntricos.
Aquilo quase fez Roman rir de verdade pela primeira vez no dia.
Quase.
— Inteligente da parte dela.
Henrique arqueou levemente a sobrancelha.
— Então agora você admira mulheres que recusam sua fortuna?
Roman ignorou completamente a provocação.
Mas algo naquela informação chamou atenção dele.
Olívia recusou.
Sem hesitar.
Sem curiosidade aparente. Sem tentar tirar vantagem.Ela sequer quis ouvir a proposta inteira.
Aquilo era novo.
E talvez exatamente por isso continuasse prendendo a atenção dele mais do que deveria.
Henrique apoiou os braços sobre a mesa antes de continuar:
— Não vai ser fácil convencer ela.
Roman observou lentamente a chuva escorrendo pelos vidros enormes do escritório.
Estranhamente…
isso tornava tudo ainda mais interessante.
Porque quase todo mundo ao redor dele sempre queria alguma coisa.
Dinheiro.
Status. Poder.Mas Olívia Becker parecia apenas querer distância.
E talvez fosse exatamente isso que fazia Roman continuar pensando nela.
Mesmo sem admitir.
— Continua acompanhando a situação dela — disse por fim.
Henrique estreitou levemente os olhos.
— Acompanhando profissionalmente?
Roman lançou um olhar frio na direção dele.
— Não testa minha paciência hoje.
Henrique soltou uma risada baixa antes de pegar novamente as pastas.
Mas antes de sair da sala, ainda comentou:
— Você sabe que isso pode acabar ficando pessoal, né?
Roman não respondeu imediatamente.
Permaneceu olhando Londres silenciosamente enquanto girava o whisky dentro do copo.
Pessoal.
Ele não permitia que nada fosse pessoal havia anos.
E mesmo assim…
pela primeira vez em muito tempo…
alguma coisa começava a parecer perigosamente fora do controle.







