Mundo de ficçãoIniciar sessãoOlívia já estava atrasada quando saiu do metrô naquela manhã.
A chuva fina caía sobre Londres enquanto ela atravessava a rua segurando o casaco contra o corpo e tentando equilibrar o café quente entre os dedos gelados. As pessoas caminhavam apressadas pelas calçadas molhadas, ônibus vermelhos cruzavam a avenida principal e o céu cinza deixava a cidade inteira com aquela aparência melancólica típica que ela nunca conseguiu se acostumar completamente.
Seu celular vibrava sem parar dentro da bolsa.
Ela nem precisava olhar para saber que provavelmente eram cobranças outra vez.
Nos últimos meses, parecia que sua vida tinha se resumido a trabalhar até a exaustão e ainda assim continuar afundando financeiramente. Quanto mais tentava colocar tudo em ordem, mais as coisas pareciam sair do controle.
Quando finalmente entrou na empresa, o ambiente já estava caótico.
Funcionários atravessavam os corredores carregando pastas, telefones tocavam sem parar e um cliente discutia alterações absurdas de última hora perto da recepção. Olívia respirou fundo antes de seguir direto para sua mesa.
— Você tá atrasada — Sophie comentou assim que ela apareceu.
— O metrô parou vinte minutos em Westminster.
— Richard tá surtando desde cedo.
Ótimo.
Exatamente o que faltava.
Olívia deixou a bolsa sobre a cadeira antes de ligar o computador rapidamente.
— O que aconteceu agora?
Sophie soltou uma risada cansada.
— Um dos eventos de amanhã perdeu patrocinadores e ele tá descontando em todo mundo.
Perfeito.
A manhã passou praticamente sem que Olívia percebesse. Entre planilhas, ligações, alterações em contratos e clientes insuportáveis, ela mal teve tempo de respirar. Quando deu por si, já passava das três da tarde e ela sequer havia almoçado.
Seu corpo inteiro parecia pesado.
A cabeça doía.
Os ombros estavam tensos. E seus olhos queimavam de cansaço.Mesmo assim, continuava trabalhando.
Porque precisava daquele emprego mais do que qualquer coisa.
No meio da tarde, enquanto organizava algumas reservas para um evento empresarial, seu celular vibrou novamente sobre a mesa.
Dessa vez ela olhou.
E imediatamente sentiu o estômago apertar.
“Precisamos conversar sobre o aluguel.”
A mensagem da proprietária fez seu peito pesar instantaneamente.
Olívia bloqueou o celular sem responder e fechou os olhos por alguns segundos.
Não agora.
Ela não tinha estrutura emocional pra lidar com aquilo no meio do expediente.
— Tá tudo bem? — Sophie perguntou ao perceber a mudança na expressão dela.
Olívia forçou um sorriso pequeno.
— Só dor de cabeça.
Mentira.
Mas já estava acostumada a fingir que estava tudo bem quando claramente não estava.
O restante do expediente pareceu ainda mais sufocante depois daquilo. Richard passou boa parte do tempo pressionando a equipe por resultados, clientes exigiam alterações impossíveis e um dos fornecedores simplesmente desapareceu horas antes de uma reunião importante.
Quando o relógio finalmente marcou quase oito da noite, Olívia sentia que seu corpo inteiro estava prestes a desligar.
Ela recolheu suas coisas lentamente enquanto algumas pessoas deixavam a empresa aos poucos.
— Você vem? — Camila perguntou surgindo ao lado dela.
Olívia ergueu os olhos confusa.
— Pra onde?
— Pro bar. Você esqueceu?
Ela realmente tinha esquecido.
Camila vinha insistindo havia dias para que saíssem um pouco depois do trabalho. Segundo ela, Olívia estava ficando “emocionalmente parecida com um boleto vencido”.
Normalmente recusaria.
Queria apenas ir pra casa, tomar banho e dormir por umas quinze horas seguidas.
Mas sinceramente?
A ideia de voltar sozinha pro apartamento silencioso parecia ainda pior naquela noite.
— Só uma hora — respondeu cansada.
Camila sorriu imediatamente.
— Isso já é praticamente um milagre.
O bar ficava algumas ruas depois da empresa.
Pequeno, aconchegante e absurdamente cheio para uma quinta-feira à noite. Música baixa tocava no ambiente enquanto grupos de pessoas conversavam entre cervejas e risadas cansadas depois do expediente.
Olívia apoiou os braços sobre a mesa enquanto observava distraidamente a movimentação ao redor.
— Você precisa parar de trabalhar tanto — Camila comentou antes de beber um gole do drink.
Olívia soltou uma risada fraca.
— Minha conta bancária discorda completamente disso.
Camila fez uma careta.
— Você tá vivendo no automático faz meses.
Porque era verdade.
Ela acordava cansada.
Trabalhava cansada. Dormia cansada.E no meio disso tudo ainda precisava fingir que conseguia manter a vida sob controle.
— Às vezes acho que Londres me odeia — murmurou baixo.
— Londres odeia todo mundo. É parte da experiência cultural daqui.
Aquilo arrancou um sorriso verdadeiro dela pela primeira vez no dia.
Camila continuou falando sobre algum cliente insuportável da empresa enquanto Olívia finalmente tentava relaxar um pouco. Talvez fosse exatamente disso que precisava: uma pausa. Mesmo pequena.
Foi então que uma sombra parou ao lado da mesa.
— Senhorita Becker?
Olívia ergueu os olhos imediatamente.
O homem usando terno escuro parecia elegante demais para aquele bar simples. Alto, postura impecável, expressão calma e séria ao mesmo tempo.
Ela franziu levemente a testa.
Tinha a sensação de já ter visto ele em algum lugar.
— Sim?
O homem assentiu educadamente.
— Henrique Ferraz.
Camila lançou um olhar curioso para Olívia enquanto ele continuava:
— Trabalho diretamente para Roman Villar.
O nome imediatamente fez ela lembrar.
Era o homem que acompanhava Roman no evento do hotel Lancaster.
O desconforto surgiu instantaneamente dentro dela.
— Certo… — respondeu devagar.
Henrique percebeu a cautela no olhar dela imediatamente.
— Desculpe aparecer assim. Sei que parece estranho.
— Parece um pouco.
Camila praticamente tentava fingir que não estava ouvindo a conversa, mas a curiosidade estampada no rosto dela tornava aquilo impossível.
Henrique manteve a postura calma.
— Gostaria apenas de conversar sobre uma proposta profissional.
Olívia soltou uma pequena risada desacreditada.
— Eu realmente acho que vocês me confundiram com outra pessoa.
— Não confundimos.
Aquilo fez ela estreitar levemente os olhos.
— Então talvez você possa me explicar por que exatamente um bilionário famoso mandaria alguém me procurar num bar aleatório depois do trabalho.
Henrique hesitou por um instante.
Claramente escolhendo as palavras.
— O senhor Villar está procurando alguém com um perfil específico para um acordo profissional temporário.
— Um acordo profissional? — ela repetiu lentamente. — Isso tá começando a soar perigosamente suspeito.
Camila abaixou o rosto tentando esconder o riso.
Henrique quase sorriu discretamente também.
— Entendo sua desconfiança.
— Espero que entenda mesmo.
Olívia cruzou os braços agora completamente alerta.
— Porque honestamente? Nada sobre isso parece normal.
E realmente não parecia.
Um homem desconhecido aparecendo do nada.
Falando sobre propostas misteriosas. Citando Roman Villar.Aquilo tinha cara de problema.
Dos grandes.
Henrique percebeu imediatamente que pressionar ela naquele momento só pioraria tudo.
Então apenas puxou um guardanapo sobre a mesa e pegou uma caneta do bolso interno do paletó.
— Não precisa responder nada agora — disse calmamente enquanto anotava um número. — Mas caso mude de ideia e queira ouvir a proposta completa…
Ele deslizou o guardanapo até ela.
Olívia sequer olhou.
— Acho difícil isso acontecer.
Henrique sustentou o olhar dela por alguns segundos.
— Talvez.
Então, antes que ela pudesse devolver o papel, ele apenas pegou delicadamente a bolsa dela pendurada na lateral da cadeira, colocou o guardanapo dentro do bolso externo e soltou a alça novamente.
O gesto foi rápido.
Natural demais.
E estranhamente calculado.
— Tenha uma boa noite, senhorita Becker.
Então foi embora.
Simples assim.
Olívia permaneceu alguns segundos encarando as costas dele desaparecendo entre as pessoas do bar.
O silêncio durou exatamente até Camila praticamente explodir ao lado dela.
— O QUE FOI ISSO?!
Olívia soltou uma risada nervosa enquanto passava a mão pelo rosto cansado.
— Eu não faço ideia.
Camila se inclinou imediatamente pegando a bolsa dela.
— Roman Villar mandou um advogado atrás de você num bar. Isso definitivamente não acontece com pessoas normais.
E sinceramente?
Olívia começava a achar exatamente a mesma coisa.







