Mundo de ficçãoIniciar sessãoOlívia acordou com o som insistente da chuva batendo contra a janela do apartamento. Por alguns segundos permaneceu imóvel na cama, encarando o teto escurecido enquanto tentava reunir forças para levantar. Seu corpo inteiro ainda parecia pesado da noite anterior. Não pelo bar, nem pela bebida. Mas pela conversa estranha com Henrique. Ou melhor… pela proposta estranha.
Mesmo sem ele ter explicado diretamente, Olívia sabia que aquilo não era normal. Um advogado aparecer do nada num bar simples depois do expediente claramente não significava coisa boa. E o pior? Ela continuava pensando naquilo mais do que deveria.
Seu celular despertou novamente sobre a mesinha ao lado da cama.
07:02.
Ótimo.
Mais um dia.
Ela soltou um suspiro cansado antes de finalmente levantar. O apartamento pequeno permanecia silencioso enquanto caminhava até a cozinha. A pia ainda estava cheia de louça, algumas contas permaneciam espalhadas sobre a bancada e a geladeira parecia cada vez mais vazia a cada semana. Olívia apoiou as mãos na pia por alguns segundos enquanto observava o ambiente pequeno e bagunçado.
Às vezes sentia que sua vida inteira tinha virado uma sequência interminável de problemas pequenos tentando sufocar ela aos poucos. Aluguel atrasado, contas acumuladas, trabalho desgastante e ansiedade constante. E agora ainda existia um advogado misterioso surgindo do nada falando sobre propostas profissionais suspeitas envolvendo um dos homens mais ricos de Londres.
Definitivamente o universo estava se divertindo às custas dela.
Enquanto preparava café rapidamente, seu olhar caiu sobre a bolsa jogada no sofá da sala. Mais especificamente sobre o guardanapo dobrado dentro do bolso externo. O número de Henrique ainda estava lá.
Ela ficou alguns segundos encarando aquilo à distância.
Curiosa.
Mas desconfiada demais para admitir.
No fim, apenas desviou o olhar e terminou de se arrumar para o trabalho.
O dia na empresa foi um caos absoluto desde o momento em que Olívia entrou no prédio. Richard parecia particularmente insuportável naquela manhã, clientes mudavam detalhes importantes de última hora, fornecedores atrasavam entregas e uma reunião importante precisou ser reorganizada inteira depois de um erro da equipe financeira.
Olívia mal conseguiu respirar o dia inteiro.
Quando finalmente sentou por alguns minutos perto do horário do almoço, sentia a cabeça latejar de cansaço. Sophie apareceu ao lado da mesa dela segurando alguns documentos antes de observar discretamente a expressão exausta no rosto da amiga.
— Você tá péssima hoje.
Olívia soltou uma pequena risada cansada enquanto pegava o copo de café já frio ao lado do computador.
— Obrigada pela sinceridade.
— Não foi um elogio.
Aquilo arrancou dela um sorriso breve, mas desapareceu rápido demais. Sophie continuou observando ela em silêncio por alguns segundos antes de perguntar:
— Problemas com dinheiro outra vez?
Olívia travou por um instante curto demais.
Porque odiava quando as pessoas percebiam.
Odiava parecer vulnerável, desorganizada ou frágil. Mesmo claramente estando tudo isso ultimamente.
— Só tô cansada — respondeu desviando o olhar.
Sophie não insistiu. Talvez porque todo mundo ali estivesse cansado demais para aprofundar a vida de alguém.
O celular de Olívia vibrou discretamente sobre a mesa naquele instante. Número desconhecido. Seu coração acelerou automaticamente e, por um segundo ridículo, ela pensou em Henrique.
Mas não era.
A decepção involuntária irritou ela imediatamente.
Porque não fazia sentido nenhum se sentir decepcionada por aquilo.
Era melhor manter distância daquela situação estranha. Muito melhor.
Mesmo assim, durante a tarde inteira, Olívia se pegou pensando várias vezes na conversa do bar. No jeito calmo de Henrique, na forma como parecia observar tudo cuidadosamente antes de falar e principalmente no fato de que Roman Villar — um homem absurdamente rico e influente — aparentemente sabia quem ela era.
Aquilo continuava parecendo absurdo.
Ela sequer pertencia ao mesmo mundo daquele homem.
Roman Villar era o tipo de pessoa que aparecia em capas de revista financeira, frequentava eventos milionários e fechava contratos internacionais como se fossem simples reuniões de rotina.
E ela?
Mal conseguia pagar o aluguel.
No fim do expediente, Londres parecia ainda mais fria. Olívia caminhava devagar pela calçada molhada enquanto segurava o casaco contra o corpo. O vento gelado bagunçava alguns fios do cabelo ruivo enquanto ela atravessava as ruas movimentadas tentando ignorar o cansaço acumulado do dia inteiro.
Seu celular vibrou novamente dentro da bolsa.
Dessa vez, era Camila.
— Me diz que você não morreu trabalhando.
Olívia soltou uma risada baixa enquanto esperava o sinal abrir.
— Ainda não.
— Então ótimo. Porque eu preciso urgentemente saber tudo sobre o advogado gostoso do bilionário.
Ela revirou os olhos imediatamente.
— Camila…
— Não faz essa voz. Você literalmente viveu uma cena de filme ontem.
— Aquilo não foi uma cena de filme. Foi estranho.
— Estranho e interessante.
— Estranho e suspeito.
Camila gargalhou do outro lado da linha.
— Você pelo menos pensou na proposta?
Olívia hesitou por um instante.
Porque pensou.
Mais do que deveria.
— Não existe proposta ainda — respondeu por fim. — Só um homem misterioso aparecendo num bar falando igual personagem de série sobre máfia empresarial.
— E mesmo assim você guardou o número.
Droga.
— Ele colocou na minha bolsa.
— Mas você não jogou fora.
Olívia ficou em silêncio.
Porque não tinha resposta praquilo.
O pior era justamente isso.
Parte dela queria esquecer completamente aquela história.
Mas outra parte…
estava curiosa.
Curiosa demais.
— Você devia ouvir pelo menos — Camila insistiu. — Vai que é alguma oportunidade incrível?
— Ou tráfico internacional de órgãos.
Camila gargalhou imediatamente.
— Você é paranoica.
Talvez fosse mesmo.
Mas Londres ensinava rápido que pessoas ricas raramente faziam coisas sem interesse por trás. E alguém como Roman Villar definitivamente não procuraria uma mulher aleatória sem motivo.
Quando desligou a ligação alguns minutos depois, Olívia já estava perto do prédio onde morava. Subiu as escadas lentamente até o terceiro andar enquanto procurava as chaves dentro da bolsa distraidamente.
Foi então que viu.
Outro envelope preso na porta.
Seu estômago afundou imediatamente.
Ela arrancou o papel dali antes mesmo de entrar no apartamento.
Aviso de atraso.
Outra vez.
Olívia fechou os olhos por alguns segundos sentindo o peito apertar lentamente. O dinheiro simplesmente não estava sendo suficiente. E no ritmo em que as coisas continuavam piorando, logo deixaria de existir qualquer margem para respirar.
Quando entrou no apartamento, o silêncio pareceu ainda mais sufocante naquela noite. Ela deixou a bolsa sobre o sofá antes de caminhar lentamente até a cozinha. As contas continuavam espalhadas sobre a bancada, a luz fraca deixava o ambiente melancólico e a sensação de fracasso parecia ainda mais pesada agora.
Olívia respirou fundo antes de apoiar as mãos na pia.
Então, quase sem perceber, seu olhar voltou novamente para a bolsa jogada no sofá.
Mais especificamente para o guardanapo dobrado dentro dela.
O número de Henrique ainda estava lá.
Esperando.
E pela primeira vez…
a ideia de ligar deixou de parecer completamente impossível.







