CAPÍTULO 1

Meses antes….

O despertador tocou às seis em ponto, quebrando o silêncio suave do pequeno quarto. Clarisse abriu os olhos lentamente, ainda envolta no conforto dos últimos instantes de sono. Por alguns segundos, permaneceu imóvel, observando o teto enquanto organizava os pensamentos para mais um dia comum.

Ao se levantar, ajeitou os cabelos castanhos diante do espelho, prendendo algumas mechas rebeldes atrás da orelha. Seus olhos castanhos ainda carregavam um leve traço de cansaço, mas havia algo firme neles — uma determinação tranquila, construída ao longo dos anos. Desde os treze, quando perdeu os pais, Clarisse aprendeu a seguir em frente sem fazer muito barulho. Sem reclamar. Sem olhar para trás por tempo demais.

Vestiu-se com simplicidade, e antes de sair, lançou um olhar para o anel em sua mão. Um pequeno brilho dourado que carregava promessas. Um sorriso discreto surgiu em seus lábios.

Faltavam poucos meses para o casamento com Nicholas.

As ruas de Campos já estavam movimentadas quando ela chegou à escola. O ar da manhã ainda trazia um frescor leve, misturado ao cheiro de padarias abertas e conversas apressadas. Ao atravessar o portão, o som das crianças tomou conta de tudo — risadas, passos corridos e vozes animadas.

Clarisse cumprimentou alguns alunos com gentileza, recebendo abraços espontâneos e sorrisos largos. Havia algo naquele ambiente que a ancorava. Uma sensação de rotina segura, previsível. Diferente da vida que já tivera.

Na sala de aula, o tempo passou entre explicações, perguntas e pequenos momentos de distração. Um aluno que não conseguia se concentrar, outro que ria alto demais, uma menina que insistia em mostrar o desenho que havia feito. Clarisse lidava com tudo com paciência, encontrando equilíbrio no caos leve da infância.

Por vezes, sua mente se afastava por segundos. Pensava na casa que dividiria com Nicholas, na vida estável que construiriam. E, estranhamente, isso a tranquilizava.

Tudo parecia certo.

No intervalo, Clarisse seguiu para a sala dos professores com um café recém-passado nas mãos. O cheiro quente e familiar a acompanhava enquanto ela empurrava a porta.

— Finalmente — comentou Sabrina, sem tirar os olhos da tela. — Achei que você não vinha hoje.

— Desculpa a demora, uma criança decidiu que a tabuada de sete era uma ofensa pessoal hoje de manhã — respondeu Clarisse com um sorriso leve, doce, quase inocente.

Gabriela soltou uma risadinha baixa, ainda concentrada nas provas.

— Pelo menos você sobreviveu — comentou ela.

— Eu e a criança. — disse Clarisse, tranquila. — Estamos em processo de reconciliação matemática.

Sabrina ergueu o olhar devagar.

— Você fala como se tudo fosse um conto fofinho, Clarisse.

Clarisse piscou, sem entender exatamente o tom.

— Não é fofinho… é só… cotidiano.

Sabrina sorriu de canto.

— Você sempre consegue deixar tudo leve assim?

— Eu acho que se tudo for pesado o tempo inteiro, a gente não consegue respirar — respondeu Clarisse com simplicidade, dando de ombros. — Pelo menos comigo funciona.

Sabrina a observou por alguns segundos a mais do que o comum.

— Você é… interessante.

— Isso é bom ou ruim? — perguntou Clarisse, sincera, inclinando levemente a cabeça.

— Depende de quem está olhando — respondeu Sabrina, voltando ao celular, mas sem realmente encerrar o assunto.

O ambiente voltou ao habitual por alguns minutos: papéis, anotações, pequenos comentários sobre alunos e provas. Clarisse bebia seu café com calma, ocasionalmente sorrindo para algo dito por Gabriela ou Luana.

Até que Gabriela quebrou o ritmo.

— Vocês ficaram sabendo?

O tom foi diferente.

Mais baixo.

Mais sério.

Sabrina foi a primeira a reagir.

— Se for mais uma reclamação de pai de aluno, eu juro que vou pedir transferência pra uma ilha deserta.

— Não é isso — disse Gabriela.

Luana respirou fundo antes de completar:

— Ele voltou.

Clarisse inclinou levemente a cabeça, curiosa, mas sem qualquer urgência.

— “Ele” quem?

Sabrina respondeu antes de qualquer outra pessoa.

Alfonso Albuquerque.

O nome caiu no ambiente com um peso estranho.

Clarisse piscou.

— Alfonso… isso parece nome de personagem de livro antigo.

Sabrina soltou um riso curto.

— Em partes, ele até virou isso na cidade.

— Virou o quê? — perguntou Clarisse, ainda leve, sem perceber a densidade do assunto.

Sabrina apoiou o cotovelo na mesa, encarando-a com mais atenção.

— Um problema.

Clarisse franziu de leve a testa, mas ainda sem dramatizar.

— Isso é muito vago. — respondeu dando de ombros.

— É o suficiente por aqui — respondeu Sabrina.

Gabriela hesitou, mas falou:

— Ele ficou fora do país por anos… agora voltou porque o pai está doente.

— E vai assumir os negócios da família — completou Luana.

Clarisse assentiu devagar.

— Isso parece… responsabilidade, na verdade.

Sabrina soltou um riso baixo, quase descrente.

— Você sempre encontra um lado bonitinho nas coisas, não é?

Clarisse sorriu, sem se ofender.

— Eu tento não julgar alguém que eu não conheço.

Sabrina inclinou levemente a cabeça.

— Isso é muito você.

— Isso é só… justo — respondeu Clarisse, suave, mas firme.

Sabrina sustentou o olhar por mais alguns segundos.

— Dizem que ele não é alguém que merece justiça. — acrescentou Sabrina com desdém.

Clarisse tomou um gole do café antes de responder.

— “Dizem” é uma palavra muito grande para pouca certeza.

Sabrina sorriu de lado.

— Você é sempre assim tão… confiável com estranhos? — provocou Sabrina triunfante.

Clarisse pensou por um instante, então respondeu com simplicidade:

— Eu prefiro acreditar que as pessoas têm histórias, não rótulos.

Sabrina riu baixo, quase como se achasse aquilo divertido demais.

— Você falaria isso até de alguém perigoso?

Clarisse manteve o tom calmo.

— Eu não o conheço. — dei de ombros, se encostando na poltrona — Porém, eu acredito que todo mundo merece ser visto além do que falam.

Sabrina não respondeu de imediato.

Apenas a observou.

— Você é mesmo diferente daqui, Clarisse.

— Talvez eu só não goste de complicar o que ainda não entendi — respondeu ela, sincera.

O silêncio se instalou por um instante.

Até que Luana completou, mais séria:

— O problema é que aqui ninguém espera entender antes de decidir.

Clarisse ficou em silêncio por um segundo.

Depois, sorriu leve.

— Então talvez isso diga mais sobre a cidade do que sobre ele.

Sabrina soltou um riso baixo.

— Você sempre consegue ser… doce e irritantemente sensata ao mesmo tempo.

Clarisse riu também, leve.

— Eu acho que isso é um elogio.

— É sim — respondeu Sabrina, mas o tom já não era totalmente brincalhão.

Clarisse não respondeu.

Apenas pegou o café novamente, agora completamente frio.

Levou aos lábios, mas não bebeu.

Em vez disso, ficou olhando para o reflexo escuro no líquido.

Pensativa.

O que exatamente significou aquele olhar? Pensou em Sabrina.

De repente, o celular vibrou sobre a mesa, quebrando o fluxo da dos seus pensamentos. Clarisse olhou de imediato, quase por instinto, e por um breve segundo seu coração antecipou o nome que mais esperava ver.

Nicholas.

Um sorriso leve, quase tímido, surgiu em seus lábios antes mesmo de desbloquear a tela. Era aquele tipo de felicidade simples, automática, como se o mundo ficasse um pouco mais leve só de saber que ele estava lembrando dela.

Mas então seus olhos encontraram a tela.

Não era Nicholas.

Era alguém desconhecido.

Um contato sem foto, sem identificação clara — apenas um número e uma notificação silenciosa.

— Alô? — sua voz saiu leve, sem pressa.

Do outro lado, silêncio.

Apenas um ruído distante.

Clarisse franziu de leve a testa, mantendo a calma.

— Quem está falando?

Mais um segundo de pausa.

— Aqui fora! — disse a pessoa do outro lado da linha.

E então, nada.

A ligação caiu.

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