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— CLARISSE!
O grito ecoando em sua mente a fez despertar de um sono profundo.
Como um raio, a voz de Nicholas, seu noivo, reverberou dentro dela.
De repente, as memórias da cerimônia — ou quase — vieram à tona, misturadas à dor daquele momento.
— Nicholas... — sussurrou Clarisse, melancólica, enquanto encarava o ambiente ao seu redor por um longo tempo.
Com esforço, ela se ergueu da cama e ficou de pé ao lado dela. O alívio inundou seu corpo ao perceber que ainda conseguia respirar. Com as mãos ao peito, sentiu o toque do tecido do vestido e compreendeu. Era um sinal.
— Ele não me tocou. — concluiu em pensamento.
De repente, um lampejo de urgência percorreu o seu corpo, arrepiando cada centímetro de sua pele.
— A qualquer momento, ele pode chegar!
Correndo até a porta à sua frente, Clarisse tentou abri-la com desespero.
— Está trancada... — murmurou.
O cenário era óbvio, mas ainda restava uma ponta de esperança.
Miseravelmente, Clarisse cedeu.
O tecido branco, adornado com cristais azul-turquesa, cobria o seu corpo até o chão. Ao encarar os pés da cama, contemplou mais uma vez a sua realidade, e então, Clarisse se desesperou.
Em silêncio.
A calamidade que a envolvia se partiu quando Clarisse percebeu o som de passos lentos se aproximando do outro lado da porta. Cada batida no assoalho de madeira ecoava dentro dela, como um aviso — ou uma promessa. Seu corpo enrijeceu, mas não recuou; ao contrário, algo mais sombrio e indesejado se insinuava em seu peito. Medo… e desejo. Um desejo proibido, impronunciável, que a fazia arder de culpa ao lembrar-se de que era noiva.
A maçaneta girou.
O clique soou alto demais.
A porta se abriu lentamente, revelando-o como uma sombra que ganhava forma.
— Alfonso… — Clarisse sussurrou ao contemplar a figura diante dos seus olhos.
Alto. Imponente. Com os seus olhos azuis, que brilhavam com uma intensidade quase selvagem.
Clarisse o encarou, e seus olhos se encontraram.
Seu olhar felino, enigmático de Alfonso, a prendeu no lugar — não como quem ameaça, mas como quem já a possui. Clarisse sentiu o ar faltar. Ela o temia… e ainda assim, contra toda lógica, contra toda moral, era incapaz de desviar os olhos.
— Minha Clarisse. — disse Alfonso aproximando-se da silhueta feminina. Ele a encarou.
Uma de suas mãos deixou o bolso facilmente para repousar, sobre a face macia e ruborizada de Clarisse. Que suspirou com o contato.
Clarisse entretanto, não se moveu.
O toque de Alfonso queimou em sua pele como uma marca invisível, fazendo o corpo de Clarisse reagir antes mesmo que sua mente pudesse protestar. Clarisse sentiu o mundo ao redor perder força, como se tudo se resumisse à presença dele ali, tão próximo, tão impossível. — ela não deveria — Contudo, havia algo nos olhos de Alfonso que a desafiava, que a instigava a ultrapassar limites que ela sempre respeitou.
E isso a apavorava.
Ainda assim, os seus pés permaneceram cravados no chão. Parte dela gritava para fugir, para lembrar do compromisso… mas a outra parte — mais silenciosa, mais perigosa — queria ficar e descobrir até onde aquilo poderia ir.
Sem aguardar por resposta, Alfonso a envolveu em um abraço firme, trazendo-a contra o próprio corpo com uma naturalidade desconcertante. Não era bruto, mas também não era gentil — era seguro demais, como se já soubesse que ela não resistiria por muito tempo. Clarisse sentiu a respiração falhar ao perceber o quão fácil era simplesmente… permanecer ali. Suas mãos hesitaram no ar por um instante antes de repousarem, ainda incertas, contra o peito dele.
— Eu não deveria estar aqui… — murmurou Clarisse, em um fio de voz que traía sua própria convicção.
Alfonso não respondeu de imediato; apenas a observou, como se estivesse esperando que ela entendesse algo que ainda não havia sido dito.
O silêncio entre eles se tornou carregado, quase palpável, preenchido por uma tensão que não precisava de palavras. Clarisse ergueu o olhar, encontrando novamente os olhos azuis que pareciam enxergar além de suas defesas. Havia perigo ali — ela sabia disso com absoluta clareza. Mas também havia um mistério que a dominava, que a mantinha presa naquele instante. Seus dedos se fecharam levemente contra a camisa dele, num gesto pequeno, quase imperceptível, mas carregado de significado. Ir embora ainda era uma opção. Permanecer, no entanto, parecia inevitável.
Alfonso a encarou com intensidade, como se pesasse cada fragmento de sua hesitação. Então, lentamente, um sorriso surgiu em seus lábios — perfeito e perigoso — revelando de forma sutil seus caninos. Clarisse sentiu o coração apertar diante daquela visão, odiando o quanto achava aquilo… belo. — Vou lhe oferecer a única oportunidade de ir embora. — A voz dele saiu firme, quase solene. Aquelas palavras deveriam libertá-la, dar-lhe força para correr, para se afastar antes que fosse tarde demais. Mas algo dentro dela se recusava a obedecer.
O silêncio que se seguiu foi mais ensurdecedor do que qualquer grito.
Clarisse sabia que bastava um passo para trás.
Apenas um.
Ainda assim, permaneceu onde estava, presa àquele olhar que a desvendava, àquele homem que representava tudo o que ela deveria rejeitar.
— Eu… não vou partir. — As palavras escaparam antes que Clarisse pudesse contê-las. Carregadas de uma verdade crua que a fez prender a respiração.
Por um breve instante, o tempo pareceu suspenso entre eles.
Alfonso não respondeu com palavras. Seu olhar se suavizou apenas o suficiente para revelar algo mais profundo — algo que ia além do perigo.
Lentamente, ele se inclinou, dando a ela espaço, oferecendo uma última chance de recuar. Entretanto, Clarisse não se moveu.
E foi nesse silêncio de escolha que tudo se decidiu.
Quando seus lábios finalmente se encontraram, o beijo não foi hesitante — foi intenso, ardente, carregado de tudo o que haviam tentado negar.
Não havia suavidade, mas também não era brusco; era inevitável.
Um encontro que selava não apenas o desejo, mas o caminho sem volta que ambos, agora, haviam escolhido.







