CAPÍTULO 2

Helena não dormiu naquela noite.

Ela ficou sentada no chão da sala até o amanhecer, abraçada a Luna, ouvindo o relógio da parede marcar cada segundo do fim da sua vida.

O apartamento parecia diferente agora, Frio, Vazio, Morto.

As roupas de Ricardo haviam desaparecido do armário.

O perfume dele ainda estava espalhado pelo corredor, impregnado nos lençóis, no sofá, e na pele dela.

Era cruel como a ausência de alguém podia ocupar tanto espaço.

Luna dormia encolhida em seu colo, respirando baixinho, completamente alheia ao desastre que acabara de atingir as duas.

Helena passou os dedos pelos cabelos da filha e sentiu o peito apertar.

Ela precisava ser forte.

Precisava.

Mas como?

Como alguém se levantava depois de ser destruída daquele jeito?

O celular vibrou ao lado dela.

Uma mensagem de Ricardo.

Vou buscar o restante das minhas coisas amanhã.

Sem como você está?.

Sem desculpa.

Sem me perdoa.

Apenas aquilo.

Helena encarou a tela por vários segundos antes de desligar o celular completamente.

Se continuasse lendo mensagens dele, acabaria implorando.

E ela se odiaria por isso.

O sol começou a entrar pelas cortinas da sala, iluminando a bagunça da noite anterior.

Taças quebradas.

Uma almofada no chão.

O ursinho de Luna perto da porta.

Marcas invisíveis de uma guerra silenciosa.

Helena levantou devagar, sentindo o corpo pesado, e caminhou até o banheiro.

Quando viu o próprio reflexo no espelho, quase não se reconheceu.

Os olhos inchados.

O rosto pálido.

Os cabelos presos de qualquer jeito.

Parecia exausta.

Parecia velha.

Parecia alguém que tinha perdido tudo.

Ela abriu a torneira e lavou o rosto, tentando apagar os vestígios da dor.

Inútil.

Algumas dores não desapareciam com água.

O choro de Luna ecoou do quarto.

Helena respirou fundo antes de ir até ela.

— Mamãe está aqui.

A menina ergueu os braços imediatamente.

E aquilo quase destruiu Helena outra vez.

Porque Luna ainda procurava o pai pela casa.

Ainda esperava ouvir a voz dele.

Ainda não entendia que ele tinha ido embora.

Helena a pegou no colo e beijou sua testa repetidas vezes.

— Vai ficar tudo bem! — sussurrou, mesmo sem acreditar nisso.

Horas depois, a campainha tocou.

Helena congelou.

O coração disparou instantaneamente.

Ricardo.

Ele tinha voltado.

Por um segundo patético e humilhante, esperança surgiu dentro dela.

Talvez ele tenha se arrependido.

Talvez tenha percebido a loucura que fez.

Talvez...

Ela abriu a porta rápido demais.

Mas não era arrependimento que estava do outro lado.

Era apenas frieza.

Ricardo entrou sem pedir licença, olhando ao redor com indiferença.

Como um estranho.

Luna abriu um sorriso enorme ao vê-lo.

— Papá!

O som da voz da filha atingiu Helena como uma facada.

Ricardo hesitou por um instante antes de pegar a menina no colo.

E Helena viu.

Viu culpa nos olhos dele.

Mas culpa não era amor.

E definitivamente não era suficiente.

— Você podia ter avisado que vinha — ela disse baixo.

— Não vou demorar.

Aquela resposta fria fez algo dentro dela endurecer.

Ricardo caminhou até o quarto para pegar mais algumas roupas.

Helena o observou em silêncio.

Cada gaveta aberta parecia arrancar outro pedaço dela.

Até que Luna apontou inocentemente para a mala.

— Papá viage?

Ricardo ficou imóvel.

Helena sentiu o ar desaparecer.

A menina era pequena demais para entender abandono.

Mas não é pequena demais para sentir ausência.

— Papai vai trabalhar, princesa — ele mentiu.

Helena fechou os olhos.

Covarde.

Ricardo terminou de arrumar as coisas rapidamente.

Então parou perto da porta.

Por um segundo, o silêncio entre os dois ficou pesado demais.

Helena percebeu que estava esperando alguma coisa.

Um pedido de desculpas.

Um abraço.

Qualquer sinal de humanidade.

Mas Ricardo apenas pegou as chaves do carro.

— Você devia procurar um emprego logo.

Aquilo destruiu o resto da dignidade dela.

Helena sentiu as lágrimas ameaçarem voltar.

Mas dessa vez, ela não chorou.

Não na frente dele.

Nunca mais.

— Vai embora, Ricardo.

Ele a encarou, surpreso pelo tom frio.

Helena abriu a porta.

E sustentou o olhar dele até o fim.

Ricardo saiu sem dizer mais nada.

Sem olhar para trás.

Sem hesitar.

Como alguém que já tinha apagado aquela família da própria vida.

A porta se fechou lentamente.

E dessa vez, Helena não caiu no chão.

Não gritou.

Não implorou.

Ela apenas ficou parada no silêncio do apartamento, segurando Luna contra o peito enquanto algo dentro dela morria devagar.

Porque naquela manhã ela finalmente entendeu:

O homem que amava não existia mais.

E talvez nunca tenha existido.

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