O som da chuva contra as janelas parecia mais alto naquela noite.
Helena Duarte ficou parada no meio da sala, segurando a pequena Luna nos braços enquanto observava o marido colocar roupas dentro de uma mala preta.
Cada movimento de Ricardo era frio, Calculado.
Como se estivesse apenas arrumando objetos antigos que já não tinham utilidade.
Como se ela fosse uma dessas coisas.
— Você vai mesmo fazer isso? — a voz dela saiu baixa, rouca, quase irreconhecível.
Ricardo suspirou, irritado.
Nem sequer olhou em sua direção.
— Não começa, Helena.
A resposta atravessou o peito dela como vidro.
Luna, sonolenta, apertou a camiseta da mãe com os dedinhos pequenos, sentindo a tensão no ar.
Helena beijou os cabelos cacheados da filha tentando esconder o tremor do próprio corpo.
Não chora.
Não na frente dele.
Mas era impossível.
Sete anos.
Sete anos construindo uma vida ao lado daquele homem.
Ela lembrava do pequeno apartamento onde começaram, do colchão velho no chão, das promessas sussurradas na madrugada, das mãos dele segurando as suas e dizendo.
“Eu nunca vou abandonar você.”
Mentira.
Tudo mentira.
Ricardo fechou a mala com força.
Helena sentiu o estômago afundar.
Aquilo estava realmente acontecendo.
— Ela está grávida? — perguntou de repente.
O silêncio confirmou antes mesmo da resposta.
E foi pior.
Muito pior.
Ricardo passou a mão no rosto, claramente sem paciência.
— Vanessa não tem culpa disso.
Vanessa.
Até o nome daquela mulher queimava.
Helena soltou uma risada fraca, quebrada.
— Você destruiu nossa família.
— Nossa família já estava destruída há muito tempo.
Aquilo a fez perder o ar.
Ela o encarou finalmente, procurando qualquer sinal do homem que amou desesperadamente por tantos anos.
Não encontrou nada.
Os olhos de Ricardo estavam vazios.
Distantes.
Frios.
Como se ele já pertencesse a outro lugar.
— Então era isso? — Helena perguntou, sentindo lágrimas escorrerem.
— Eu cuidei da sua vida, abandonei minha carreira, fiquei ao seu lado em tudo, para você me trocar por outra mulher?
— Para de agir como vítima.
A frase bateu como um tapa.
Helena ficou imóvel.
Porque depois de tudo, aquilo foi o que mais me machucou.
Não a traição.
Não o abandono.
Mas o fato de ele ter transformado a dor dela em inconveniência.
Luna começou a choramingar baixinho, sensível ao desespero da mãe.
Helena a apertou contra o peito.
— Ela é sua filha, Ricardo…
Pela primeira vez naquela noite, ele olhou para a menina.
E desviou os olhos rápido demais.
Culpa.
Ainda existia alguma.
Mas não o suficiente para fazê-lo ficar.
— Vou mandar dinheiro todo mês.
Helena sentiu vontade de gritar.
Dinheiro?
Era isso que ele achava que resolveria?
— Ela vai crescer sem pai por causa da sua amante!
Ricardo perdeu a paciência.
— CHEGA!
O grito fez Luna começar a chorar de verdade.
Helena imediatamente a balançou nos seus braços, protegendo-a.
Instinto.
Sempre proteger Luna.
Mesmo enquanto o próprio mundo desmoronava.
Ricardo pegou a mala e caminhou até a porta.
Não hesitou.
Não voltou atrás.
Helena sentiu o coração bater tão forte que doeu fisicamente.
— Ricardo.
Ele parou.
Por um segundo, ela acreditou.
Acreditou que ele fosse voltar.
Que fosse enxergar tudo o que estava destruindo.
Mas então ele falou sem virar o rosto.
— Você vai superar isso.
A porta bateu.
E o silêncio que veio depois foi insuportável.
Helena ficou parada.
Sem respirar.
Sem pensar.
Sem sentir nada além daquele vazio horrível crescendo dentro dela.
Luna chorava em seu colo.
A chuva continuava lá fora.
E ela percebeu, pela primeira vez na vida, que não fazia ideia de como sobreviver sozinha.
As pernas fraquejaram.
Helena deslizou lentamente até o chão da sala, abraçando a filha enquanto as lágrimas finalmente escapavam sem controle.
Ela chorou em silêncio.
Chorou pela mulher que tinha sido.
Pela família que morreu naquela noite.
Pelo amor que acreditou ser eterno.
E, no fundo do peito, uma verdade cruel começou a nascer.
Algumas pessoas não quebram de uma vez.
Elas racham devagar.
Até não sobrar mais nada.