3

O silêncio que tomou conta do escritório depois que ele saiu não era comum. Não era o silêncio produtivo que acompanhava sua rotina organizada, nem aquele que vinha depois de uma reunião bem conduzida. Era um silêncio denso, sufocante, como se o ar tivesse se tornado pesado demais para ser ignorado.

Filipa permaneceu imóvel por alguns segundos, ainda de pé atrás da mesa, com o documento nas mãos. Seus olhos estavam fixos no mesmo ponto, mas sua mente não acompanhava. Era como se um raciocínio tivesse sido interrompido no meio, deixando apenas um vazio difícil de preencher.

Aquilo não fazia sentido.

Não podia fazer.

Ela sempre teve controle. Cada decisão, cada passo, cada escolha da sua vida foi planejada para evitar exatamente aquele tipo de situação. Não havia espaço para erros no mundo que ela construiu. Não havia espaço para passado.

E, ainda assim, ele estava ali.

Naquela folha.

Nas mãos dela.

Filipa piscou lentamente, como se o gesto fosse suficiente para reorganizar tudo. Respirou fundo, uma vez, depois outra, tentando trazer o corpo de volta ao estado normal. Aquela técnica sempre funcionava em audiências, em negociações difíceis, em qualquer situação de pressão.

Mas não ali.

Ela soltou o documento sobre a mesa com mais força do que pretendia e levou a mão até a testa, fechando os olhos por um segundo.

— Isso não pode estar acontecendo.

A frase saiu baixa, quase um sussurro, como se dizer em voz alta pudesse tornar aquilo menos real.

Caminhou até a janela com passos firmes demais, como se estivesse tentando provar para si mesma que ainda tinha domínio sobre alguma coisa. A vista da cidade continuava a mesma. Imensa. Indiferente. Segura.

Tudo lá fora seguia normal.

Só dentro dela que não.

Filipa apoiou as mãos no vidro frio, buscando estabilidade na própria respiração. Seu reflexo apareceu fraco na superfície, mas ainda assim suficiente para lembrá-la de quem era.

Ou, pelo menos, de quem se tornou.

Porque aquela mulher ali não era a mesma de antes.

Não podia ser.

Ela se afastou rapidamente, como se o próprio reflexo tivesse se tornado desconfortável demais para encarar. Voltou para a mesa e encarou o documento outra vez, mas dessa vez não o tocou. Era como se apenas olhar já fosse suficiente para trazer tudo de volta.

E trouxe.

Não como lembrança organizada.

Mas como um corte brusco no tempo.

Um som.

Uma sensação.

Um medo antigo, familiar demais.

O ambiente mudou sem aviso. O escritório desapareceu, substituído por um espaço pequeno, apertado, frio. O azulejo branco refletia a luz artificial de forma agressiva, enquanto o som da própria respiração ecoava alto demais dentro daquele banheiro.

Filipa estava sentada no chão, com as costas apoiadas na parede e os joelhos dobrados contra o corpo. As mãos tremiam.

E o teste ainda estava ali.

Na frente dela.

Positivo.

Ela piscava repetidas vezes, como se aquilo fosse desaparecer se insistisse o suficiente, como se fosse apenas um erro que alguém pudesse corrigir.

Mas não era.

— Não…

A voz saiu quebrada, arrastada pelo desespero que crescia rápido demais.

As lágrimas vieram sem controle, descendo quentes pelo rosto enquanto ela levava as mãos à cabeça, puxando levemente os cabelos como se aquilo ajudasse a pensar.

— O que eu vou fazer?

A pergunta se repetia, baixa, constante, sem resposta.

— O que eu vou fazer…

Não havia solução naquele momento. Apenas o eco da própria voz e o som irregular da respiração tentando não se transformar em um choro descontrolado.

Tudo o que ela queria ainda não existia.

Tudo o que ela sonhava parecia impossível.

E, pela primeira vez na vida, Filipa não tinha plano.

Não tinha saída.

Não tinha controle.

A lembrança se intensificou por um instante.

E então se quebrou.

O escritório voltou de uma vez, trazendo com ele o ar pesado, o silêncio e o presente.

Filipa abriu os olhos bruscamente, como se estivesse voltando de um mergulho fundo demais. A respiração ainda estava acelerada, o peito subindo e descendo em um ritmo que denunciava o impacto daquilo tudo.

Ela levou alguns segundos para se recompor.

Poucos.

Mas suficientes.

Porque aquela versão dela precisava ficar no passado.

E ficaria.

Filipa passou as mãos pelo rosto, apagando qualquer vestígio de emoção antes que pudesse se fixar. Endireitou a postura, puxou a cadeira e se sentou novamente, agora com movimentos mais controlados.

Dessa vez, ela pegou o documento.

Leu.

Com atenção.

Com frieza.

Com a mente funcionando novamente.

Se ele tinha aquilo, significava que existiam brechas.

E se existiam brechas, existiam caminhos.

Michael Philips achava que tinha controle da situação. Achava que estava lidando com uma mulher encurralada. Achava que aquilo era um jogo ganho antes mesmo de começar.

Filipa deixou o papel sobre a mesa com calma, os olhos agora muito mais firmes do que antes.

— Não.

A palavra saiu diferente dessa vez.

Não como negação.

Mas como decisão.

Ela não construiu tudo o que tinha para ser derrubada por um homem que acreditava que podia comprar a vida dela como se fosse um contrato qualquer.

Se ele queria jogar, então ele tinha escolhido a pessoa errada.

Filipa puxou o contrato para mais perto, abrindo na primeira página e analisando cada cláusula com precisão.

Se ela fosse entrar naquele jogo, não seria como vítima.

Seria como adversária.

E, dessa vez, ela não pretendia perder.

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