02

O ritmo dentro do escritório de Filipa Moretti não permitia distrações. Cada minuto do seu dia era calculado, cada reunião cronometrada e cada cliente conduzido com precisão quase cirúrgica. Era assim que ela mantinha sua reputação intacta em Nova York.

E era exatamente por isso que ninguém entrava ali sem autorização.

Ou pelo menos, ninguém deveria.

— Senhor, você não pode entrar.

A voz da secretária veio firme do lado de fora, seguida pelo som apressado de passos tentando conter algo que claramente já tinha saído do controle.

— A doutora Moretti está em reunião, o senhor precisa agendar—

A porta se abriu antes que ela pudesse terminar.

Filipa ergueu o olhar no mesmo instante, incomodada pela interrupção. O primeiro detalhe que captou foi o homem atravessando o escritório com uma tranquilidade irritante, como se aquele espaço também lhe pertencesse. Alto, postura impecável, olhar frio e seguro. Não havia hesitação em nenhum movimento.

Aquilo, por si só, já era ofensivo.

— Você é louco?

A pergunta saiu direta, sem qualquer esforço para suavizar.

— Invadir o meu escritório assim?

Ele não respondeu de imediato. Caminhou até a mesa dela ignorando completamente a tensão no ambiente, como se aquela cena estivesse acontecendo exatamente como ele havia planejado.

— Você vai ser minha esposa.

A frase caiu no ar com uma naturalidade absurda.

Filipa piscou uma única vez, como se seu cérebro estivesse tentando acompanhar algo que simplesmente não fazia sentido.

— Você está louco.

— Não.

A resposta veio calma.

Controlada.

— Eu só estou te informando que você vai se casar comigo.

Ela se levantou devagar, apoiando as mãos sobre a mesa. O olhar endureceu, acompanhando a irritação que subia como uma maré inevitável.

— Eu vou chamar a segurança.

Um leve sorriso surgiu no canto da boca dele. Pequeno. Quase invisível.

Previsto.

— Antes disso, acho melhor você ver isso.

Sem pressa, ele retirou um documento da pasta e o deslizou pela mesa. Em seguida, puxou a cadeira à frente dela e se sentou como se estivesse iniciando uma reunião formal.

Aquilo não era ousadia.

Era provocação.

Filipa sustentou o olhar dele por mais um segundo, avaliando se aquilo poderia ser algum tipo de encenação absurda. Não havia humor ali. Nem dúvida.

Apenas certeza.

Ela pegou o documento.

E no instante em que seus olhos começaram a percorrer as linhas, algo mudou.

Não foi imediato.

Foi sutil.

Mas definitivo.

A respiração travou por meio segundo.

Os dedos apertaram o papel com mais força.

E, pela primeira vez desde que aquele homem entrou ali, Filipa Moretti ficou em silêncio.

— Como você conseguiu isso?

A pergunta saiu mais baixa do que ela gostaria.

Michael inclinou levemente a cabeça, observando cada reação com atenção meticulosa.

— Senhorita Moretti…

A forma como ele pronunciou o nome dela foi lenta, precisa.

— Eu sou um homem muito influente.

Ele se acomodou melhor na cadeira, completamente à vontade.

— Eu consigo tudo o que eu quero.

A pausa foi calculada.

— E eu quero me casar com você.

Filipa levantou o olhar devagar, ainda segurando o documento, tentando reorganizar o próprio raciocínio enquanto o impacto daquilo ainda ecoava dentro dela.

— Isso é uma ameaça.

— Não.

Ele negou com a mesma calma irritante.

— Isso é uma proposta.

Michael abriu a pasta novamente e colocou outro documento sobre a mesa.

— Eu já trouxe o contrato.

Ela não tocou no papel.

— Um casamento por um ano.

— Nós nos casamos, mantemos uma imagem impecável e, quando o prazo acabar, cada um segue o próprio caminho.

Filipa soltou uma respiração controlada, mas seus olhos já não carregavam a mesma estabilidade de antes.

— Ameaça é crime.

Michael se inclinou para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos, reduzindo a distância entre eles de forma calculada.

— Talvez.

O olhar dele não vacilou.

— Mas se esse escândalo vazar…

A pausa foi precisa.

Cruel.

— Eu acredito que ele destrua a sua vida.

O silêncio caiu como um peso morto entre os dois.

— E você construiu uma carreira tão bonita.

A frase veio suave.

Mas carregava violência.

Filipa fechou o documento com mais força do que pretendia, tentando recuperar o controle que sempre teve.

— Por que eu?

A pergunta saiu direta.

Exigindo lógica dentro do absurdo.

Michael não hesitou.

— Porque você é perfeita.

Ele se levantou devagar, ajeitando o terno com elegância impecável.

— Inteligente. Respeitada. Intocável.

Deu um passo à frente.

— Exatamente o tipo de mulher que eu preciso ao meu lado.

A proximidade agora era impossível de ignorar.

— E, diferente das outras…

O olhar dele caiu para o documento nas mãos dela.

— Você tem algo a perder.

Filipa apertou o maxilar.

Raiva.

Frustração.

E algo pior começando a nascer.

— Você é doente.

Michael sorriu de lado.

Como se aquilo fosse irrelevante.

— Talvez.

Ele pegou a pasta, deixando o contrato sobre a mesa.

— Você vai precisar de um tempo para pensar.

A voz suavizou levemente.

Mas a imposição continuava ali.

— Só que eu acho que tempo é uma coisa que você não tem.

Ele caminhou até a porta.

Parou.

Olhou por cima do ombro.

— Imagina se essa informação vaza… sem querer.

Silêncio.

Pesado.

Irrespirável.

— Eu acredito que o seu passado voltaria para te destruir.

E então ele saiu.

Sem pressa.

Sem olhar para trás.

Deixando para trás um escritório que, pela primeira vez em anos, não estava sob o controle de Filipa Moretti.

E aquilo…

Era o começo do problema.

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