Mundo ficciónIniciar sesiónO ritmo dentro do escritório de Filipa Moretti não permitia distrações. Cada minuto do seu dia era calculado, cada reunião cronometrada e cada cliente conduzido com precisão quase cirúrgica. Era assim que ela mantinha sua reputação intacta em Nova York.
E era exatamente por isso que ninguém entrava ali sem autorização. Ou pelo menos, ninguém deveria. — Senhor, você não pode entrar. A voz da secretária veio firme do lado de fora, seguida pelo som apressado de passos tentando conter algo que claramente já tinha saído do controle. — A doutora Moretti está em reunião, o senhor precisa agendar— A porta se abriu antes que ela pudesse terminar. Filipa ergueu o olhar no mesmo instante, incomodada pela interrupção. O primeiro detalhe que captou foi o homem atravessando o escritório com uma tranquilidade irritante, como se aquele espaço também lhe pertencesse. Alto, postura impecável, olhar frio e seguro. Não havia hesitação em nenhum movimento. Aquilo, por si só, já era ofensivo. — Você é louco? A pergunta saiu direta, sem qualquer esforço para suavizar. — Invadir o meu escritório assim? Ele não respondeu de imediato. Caminhou até a mesa dela ignorando completamente a tensão no ambiente, como se aquela cena estivesse acontecendo exatamente como ele havia planejado. — Você vai ser minha esposa. A frase caiu no ar com uma naturalidade absurda. Filipa piscou uma única vez, como se seu cérebro estivesse tentando acompanhar algo que simplesmente não fazia sentido. — Você está louco. — Não. A resposta veio calma. Controlada. — Eu só estou te informando que você vai se casar comigo. Ela se levantou devagar, apoiando as mãos sobre a mesa. O olhar endureceu, acompanhando a irritação que subia como uma maré inevitável. — Eu vou chamar a segurança. Um leve sorriso surgiu no canto da boca dele. Pequeno. Quase invisível. Previsto. — Antes disso, acho melhor você ver isso. Sem pressa, ele retirou um documento da pasta e o deslizou pela mesa. Em seguida, puxou a cadeira à frente dela e se sentou como se estivesse iniciando uma reunião formal. Aquilo não era ousadia. Era provocação. Filipa sustentou o olhar dele por mais um segundo, avaliando se aquilo poderia ser algum tipo de encenação absurda. Não havia humor ali. Nem dúvida. Apenas certeza. Ela pegou o documento. E no instante em que seus olhos começaram a percorrer as linhas, algo mudou. Não foi imediato. Foi sutil. Mas definitivo. A respiração travou por meio segundo. Os dedos apertaram o papel com mais força. E, pela primeira vez desde que aquele homem entrou ali, Filipa Moretti ficou em silêncio. — Como você conseguiu isso? A pergunta saiu mais baixa do que ela gostaria. Michael inclinou levemente a cabeça, observando cada reação com atenção meticulosa. — Senhorita Moretti… A forma como ele pronunciou o nome dela foi lenta, precisa. — Eu sou um homem muito influente. Ele se acomodou melhor na cadeira, completamente à vontade. — Eu consigo tudo o que eu quero. A pausa foi calculada. — E eu quero me casar com você. Filipa levantou o olhar devagar, ainda segurando o documento, tentando reorganizar o próprio raciocínio enquanto o impacto daquilo ainda ecoava dentro dela. — Isso é uma ameaça. — Não. Ele negou com a mesma calma irritante. — Isso é uma proposta. Michael abriu a pasta novamente e colocou outro documento sobre a mesa. — Eu já trouxe o contrato. Ela não tocou no papel. — Um casamento por um ano. — Nós nos casamos, mantemos uma imagem impecável e, quando o prazo acabar, cada um segue o próprio caminho. Filipa soltou uma respiração controlada, mas seus olhos já não carregavam a mesma estabilidade de antes. — Ameaça é crime. Michael se inclinou para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos, reduzindo a distância entre eles de forma calculada. — Talvez. O olhar dele não vacilou. — Mas se esse escândalo vazar… A pausa foi precisa. Cruel. — Eu acredito que ele destrua a sua vida. O silêncio caiu como um peso morto entre os dois. — E você construiu uma carreira tão bonita. A frase veio suave. Mas carregava violência. Filipa fechou o documento com mais força do que pretendia, tentando recuperar o controle que sempre teve. — Por que eu? A pergunta saiu direta. Exigindo lógica dentro do absurdo. Michael não hesitou. — Porque você é perfeita. Ele se levantou devagar, ajeitando o terno com elegância impecável. — Inteligente. Respeitada. Intocável. Deu um passo à frente. — Exatamente o tipo de mulher que eu preciso ao meu lado. A proximidade agora era impossível de ignorar. — E, diferente das outras… O olhar dele caiu para o documento nas mãos dela. — Você tem algo a perder. Filipa apertou o maxilar. Raiva. Frustração. E algo pior começando a nascer. — Você é doente. Michael sorriu de lado. Como se aquilo fosse irrelevante. — Talvez. Ele pegou a pasta, deixando o contrato sobre a mesa. — Você vai precisar de um tempo para pensar. A voz suavizou levemente. Mas a imposição continuava ali. — Só que eu acho que tempo é uma coisa que você não tem. Ele caminhou até a porta. Parou. Olhou por cima do ombro. — Imagina se essa informação vaza… sem querer. Silêncio. Pesado. Irrespirável. — Eu acredito que o seu passado voltaria para te destruir. E então ele saiu. Sem pressa. Sem olhar para trás. Deixando para trás um escritório que, pela primeira vez em anos, não estava sob o controle de Filipa Moretti. E aquilo… Era o começo do problema.






