04

Filipa não voltou a trabalhar naquele dia. Assim que saiu do escritório, ignorou ligações, adiou compromissos e seguiu direto para casa com a mente funcionando em um ritmo completamente diferente do habitual. Não havia mais espaço para desespero, porque aquilo já tinha passado; o que restava agora era cálculo, frio, preciso e necessário, exatamente como ela estava acostumada a lidar com qualquer problema que ameaçasse o controle da própria vida.

Ao entrar no apartamento, largou a bolsa sobre a bancada sem sequer olhar ao redor e caminhou direto para o banheiro, sentindo a necessidade quase física de tirar aquele dia da pele, como se a água pudesse levar junto a sensação incômoda de ter sido surpreendida, de ter perdido o domínio por alguns minutos, algo que simplesmente não combinava com quem ela era.

O banho foi rápido, mas suficiente para reorganizar os pensamentos, alinhando cada ideia no lugar certo, devolvendo a ela a clareza que sempre a guiou. Quando saiu, já não era mais a mesma mulher que havia atravessado aquela porta mais cedo; o cabelo preso, a expressão neutra e a postura firme deixavam evidente que Filipa Moretti havia retomado o controle, pronta para enfrentar o problema em vez de evitá-lo.

Vestiu um robe leve, pegou o contrato e se sentou no sofá, cruzando as pernas com elegância enquanto iniciava a leitura com atenção total, analisando cada cláusula com o mesmo rigor que aplicava em seus casos mais importantes. Não passou os olhos pelas páginas, não ignorou detalhes, porque sabia que ali dentro estava tudo o que precisava para entender o tipo de jogo que Michael Philips estava propondo.

A cada linha, ficava mais claro que ele não fazia nada sem planejamento. O contrato era detalhado, estratégico e claramente estruturado para proteger exclusivamente os interesses dele, o que arrancou um leve sorriso no canto dos lábios dela, não por diversão, mas por reconhecimento.

Arrogante, pensou, deixando o papel repousar por um instante enquanto avaliava a situação com mais profundidade.

Mas não era apenas arrogância.

Ele era perigoso.

Filipa pegou o celular sem hesitar e digitou rapidamente um número que raramente utilizava, aguardando apenas o tempo necessário para que a ligação fosse atendida antes de falar com objetividade.

Ela informou o nome de Michael Philips, pediu um levantamento completo e deixou claro que queria tudo, desde empresas e histórico financeiro até vida pessoal, escândalos e qualquer informação que pudesse ser usada contra ele, encerrando a ligação sem esperar confirmação, porque sabia exatamente o tipo de resposta que receberia.

Se ele tinha informações sobre ela, ela teria mais sobre ele.

Simples assim.

Horas depois, o material começou a chegar, e Filipa abriu o primeiro arquivo ainda no sofá, percorrendo cada informação com atenção crescente até que sua expressão mudou, não por surpresa, mas por compreensão do tamanho real do homem com quem estava lidando. Michael Philips não era apenas influente; ele era um império consolidado, dono de um grupo empresarial gigantesco, com atuação internacional e um patrimônio que colocava qualquer concorrente em segundo plano, o tipo de poder que não se ignorava.

E Filipa não gostava de se sentir pequena.

Fechou o arquivo com calma, deixando o celular ao lado enquanto reorganizava mentalmente o cenário. Aquilo mudava algumas coisas, mas não todas, porque, independente do tamanho dele, ninguém era intocável.

Ela voltou ao contrato com um olhar ainda mais crítico e, ao chegar ao final do documento, encontrou o que procurava. O número. Sem hesitar, fez a ligação e aguardou, mantendo a respiração controlada enquanto chamava uma, duas vezes, até que na terceira tentativa ele atendeu.

A voz dele veio calma, previsível, e Filipa não perdeu tempo com formalidades; disse que precisavam negociar, definiu o encontro para o dia seguinte em seu escritório e encerrou a ligação da mesma forma direta com que iniciou, sem espaço para prolongamentos desnecessários.

Na manhã seguinte, o ambiente no escritório estava diferente, mais contido, como se a tensão estivesse presente mesmo sem ser compreendida pelos outros. Quando Michael entrou, dessa vez sem ser impedido, Filipa já o aguardava, pronta.

Sem cumprimentos, indicou a sala privada e seguiu na frente, certa de que ele a acompanharia, o que de fato aconteceu. A porta foi fechada assim que entraram, isolando completamente o ambiente, deixando claro que aquela conversa não era para ser ouvida por mais ninguém.

Filipa se posicionou de frente para ele, mantendo a postura firme, sem oferecer lugar ou demonstrar qualquer sinal de receptividade, deixando evidente que ali não havia espaço para jogos de aparência.

Ela foi direta, como sempre era.

Disse que não haveria sexo, que aquela cláusula seria retirada, empurrando o contrato na direção dele com a segurança de quem sabia exatamente o que estava exigindo. Michael reagiu com um leve riso, observando-a com um interesse mais evidente, mas não cedeu; explicou que não poderia traí-la, que aquilo fazia parte do acordo e que certas exigências eram inegociáveis, incluindo a presença dela em eventos ao seu lado.

Filipa não se abalou.

Avaliou.

Calculou.

E então cedeu, mas não sem impor suas próprias condições.

Ela exigiu que ele usasse seus contatos para beneficiar sua carreira, trazendo clientes e abrindo portas que, sozinha, levaria mais tempo para alcançar. Em seguida, deixou claro que queria compensação financeira, estabelecendo um valor mensal alto o suficiente para mostrar que não estava entrando naquele acordo em desvantagem.

Michael não se ofendeu.

Pelo contrário.

Pareceu satisfeito.

O jogo estava equilibrando.

Filipa ainda deixou claro que também havia investigado ele e que, embora ainda não tivesse encontrado nada relevante, tinha tempo suficiente para isso, o que arrancou dele uma reação quase divertida, como se aquilo tornasse tudo ainda mais interessante.

A negociação seguiu com ajustes, definições e exigências de ambos os lados, até que a tensão mudou de natureza quando ele trouxe o assunto da criança.

O impacto foi interno.

Controlado.

Mas real.

Filipa respondeu com firmeza, sem demonstrar fraqueza, afirmando que não havia problema, mantendo a postura intacta mesmo com a pressão silenciosa daquele ponto específico.

Michael aceitou sem questionar e avançou para os próximos passos, definindo prazos para o anúncio do noivado e do casamento, deixando claro que havia pressa, não por vontade própria, mas por influência do pai.

Aquilo fez Filipa perceber que ele também não estava completamente no controle.

E isso era uma vantagem.

Quando ele se aproximou mais uma vez, diminuindo a distância entre eles, a tensão voltou a crescer, não mais apenas como disputa de poder, mas como algo mais complexo, mais perigoso, algo que ainda não tinha nome, mas que já existia.

Ele deixou claro que não pretendia se casar, mas que, agora que estavam naquela situação, faria aquilo funcionar.

E, pela primeira vez, Filipa não enxergou aquilo apenas como um acordo.

Enxergou como um jogo.

E ela não tinha a menor intenção de perder.

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