CAPÍTULO 2 LIRA

Acordei assustada, o coração disparado e a respiração pesada.

Tinha acabado de sonhar que o senhor Leopoldo havia morrido.

Levei alguns segundos para perceber que estava segura no meu quarto, mas a sensação ruim continuava ali, agarrada ao meu peito como um aviso.

— Que sonho horrível... — murmurei, passando a mão pelo rosto.

O senhor Leopoldo era mais do que um patrão. Durante anos, ele havia me tratado com respeito, me ensinado tudo o que eu sabia sobre trabalho e negócios. Não queria nem imaginar uma vida sem ele.

Levantei da cama e me preparei para mais um dia de luta.

Minha vida era uma eterna corrida contra as contas.

Economizava cada centavo do salário para ajudar em casa. Às vezes, me perguntava por que algumas pessoas pareciam nascer com tudo enquanto outras precisavam lutar até para respirar.

Mas eu não podia desistir.

A esperança sempre foi a única coisa que ninguém conseguiu tirar de mim.

Quando desci as escadas, encontrei meu irmão sentado no sofá, com as mãos na cabeça.

Ele chorava.

Meu coração gelou imediatamente.

— O que aconteceu? — perguntei, correndo até ele.

— A mamãe... — Sua voz falhou. — Ela passou mal durante a madrugada. Estava sangrando. O pai a levou para o hospital.

Senti minhas pernas enfraquecerem.

— O quê?

— Ele não quis te acordar.

Peguei o celular com as mãos tremendo.

— Por que ele não me chamou? Eu poderia ajudar!

— Você chegou tarde do trabalho ontem. O pai não quis te preocupar.

As lágrimas já queimavam meus olhos.

— Espero que não seja nada grave...

Liguei para meu pai.

Uma vez.

Duas.

Três.

Nenhuma resposta.

A angústia começou a me sufocar.

Durante todo o caminho até a empresa continuei ligando sem parar, mas ele simplesmente não atendia.

Quando finalmente cheguei ao escritório, algo parecia estranho.

Silencioso demais.

Pesado demais.

Assim que saí do elevador, o segurança veio ao meu encontro.

Seu rosto abatido me deixou ainda mais nervosa.

— Lira...

Meu coração afundou.

— O que houve?

Ele baixou a cabeça.

— O senhor Leopoldo sofreu um infarto esta manhã.

Por um instante, o mundo parou.

As vozes desapareceram.

O chão pareceu sumir sob meus pés.

Sentei na primeira cadeira que encontrei antes que minhas pernas cedessem completamente.

— Não... — sussurrei.

As lágrimas começaram a cair.

— Não pode ser.

Ontem ele estava sorrindo.

Ontem estava trabalhando.

Ontem estava vivo.

— Você sabe que ele já estava com uma idade avançada — o segurança falou com gentileza.

Balancei a cabeça em negativa.

Não queria ouvir.

Não queria aceitar.

— E agora? — murmurei. — O que será de todos nós?

O que seria de mim?

Do meu emprego?

Da minha família?

Tudo estava desmoronando rápido demais.

Meu patrão havia morrido.

Minha mãe estava internada.

E eu não conseguia fazer nada para impedir nenhuma das duas tragédias.

Tentei participar do funeral, mas a cerimônia foi restrita à família.

Voltei para casa carregando uma tristeza difícil de explicar.

Mas o pior ainda estava por vir.

Quando entrei, encontrei meu pai sentado à mesa.

Seu olhar estava destruído.

Meu coração apertou.

— Pai...

Ele demorou para falar.

Como se as palavras fossem pesadas demais.

— Sua mãe está com suspeita de câncer.

O chão desapareceu novamente.

Dessa vez de verdade.

Levei a mão à boca.

O ar faltou.

Meu irmão me segurou antes que eu caísse.

E então eu chorei.

Chorei como nunca havia chorado.

Porque naquele momento tive medo.

Muito medo.

Medo de perder a pessoa mais importante da minha vida.

---

No fim da tarde, meu celular tocou.

Era Will.

Advogado do senhor Leopoldo.

Ele pediu que eu comparecesse urgentemente ao escritório.

Meu estômago afundou.

— Pronto — murmurei. — Agora vou ser demitida.

Vesti meu velho vestido florido e fui.

Cada passo dentro daquela empresa parecia uma despedida.

Passei pela minha mesa e senti os olhos encherem de lágrimas.

Anos da minha vida estavam ali.

Quando Will apareceu, me conduziu até uma sala de reuniões.

— Venha comigo, Lira.

Assim que entrei, encontrei dois homens.

Um deles me observava como se eu fosse uma criminosa.

Seu olhar era frio.

Duro.

Intimidador.

Senti um arrepio percorrer minha espinha.

Aproximei-me de Will.

— O que está acontecendo?

— Sente-se.

Obedeci.

E então ouvi algo que jamais imaginei ouvir.

Testamento.

Herança.

Casamento.

Bilhões.

Meu cérebro simplesmente travou.

Quando percebi, aquele homem arrogante chamado Rangel já estava me acusando de ter sido amante do senhor Leopoldo.

As palavras dele me atingiram como t***s.

Cada acusação machucava.

Cada olhar de desprezo me humilhava.

— Você é nojento! — explodi.

— E você é uma interesseira!

— Nunca precisei me vender para ninguém!

— Então explique por que meu avô deixou metade da fortuna para você!

Eu mesma queria saber.

Mas ele não me deu oportunidade.

Já havia me julgado.

Condenado.

Humilhado.

Saí daquela sala chorando.

Ferida.

Indignada.

Destruída.

---

Minha primeira parada foi o hospital.

Quando entrei no quarto, meu coração se partiu.

Minha mãe parecia tão frágil.

Tão pequena naquela cama.

Tão diferente da mulher forte que sempre conheci.

— Filha... — ela sorriu ao me ver.

Um sorriso cansado.

Dolorido.

Sentei ao seu lado imediatamente.

— Eu te amo, mãe.

Minha voz falhou.

— Amo tanto que dói.

Ela segurou minha mão.

— Também te amo.

As lágrimas escorreram sem controle.

— Aquela casa não é nada sem você.

Ela sorriu.

Mas seus olhos estavam cheios de medo.

— Quero que cuide dos seus irmãos por mim.

— Não!

Balancei a cabeça imediatamente.

— Não fale isso.

— Lira...

— Não fale!

Minha voz saiu quebrada.

— Você vai sair daqui. Eu vou fazer de tudo para isso acontecer.

Tudo.

Até mesmo aceitar aquele casamento absurdo e entregar também a minha liberdade.

Até mesmo viver ao lado do homem mais arrogante que já conheci.

Porque nenhuma escolha era mais importante do que salvar minha mãe.

Nenhuma.

Absolutamente nenhuma.

Naquela noite dormi na poltrona do hospital.

Mas o sono não trouxe descanso.

Trouxe medo.

Quando amanheceu e os exames ficaram prontos, veio a confirmação.

Câncer.

A palavra caiu sobre mim como uma sentença.

Minha mãe chorou.

Meu pai chorou.

Meus irmãos choraram.

E eu também.

Mas escondida.

Porque alguém precisava ser forte.

Mesmo que por dentro eu estivesse completamente quebrada.

Nos dias seguintes procurei emprego.

Procurei empréstimos.

Procurei soluções.

Bati em portas.

Recebi recusas.

Bati em mais portas.

Recebi mais recusas.

Era como se o mundo inteiro estivesse fechando as portas na minha cara.

E, quanto mais o tempo passava, mais as palavras de Will voltavam para minha mente.

"Cartão sem limite."

"Fortuna."

"Casamento."

Fechei os olhos.

Talvez eu não estivesse lutando apenas contra uma doença.

Talvez estivesse lutando contra o destino.

E, pela primeira vez na vida, eu não sabia se conseguiria vencer.

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