CASAMENTO COM A SECRETÁRIA
CASAMENTO COM A SECRETÁRIA
Por: Yla
CAPÍTULO 1 RANGEL

Deixei a neve do Canadá para trás e desembarquei nos Estados Unidos acreditando que finalmente teria alguns dias de paz. Mas a vida parecia ter prazer em me provar o contrário.

Assim que liguei o celular, a tela iluminou com o nome de Will.

Advogado do meu avô.

Melhor amigo dele.

E, infelizmente, o homem encarregado de resolver todos os problemas que aquele velho deixava pelo caminho.

Revirei os olhos.

Meu avô era uma bomba-relógio. Mesmo morto, provavelmente ainda encontraria uma forma de explodir a vida de alguém.

Ignorei a ligação.

Segundos depois, o telefone tocou novamente.

Franzi a testa.

Will não era do tipo insistente.

Meu estômago se contraiu.

Algo estava errado.

Respirei fundo e atendi.

— Alô, Will.

Do outro lado da linha, o silêncio durou alguns segundos.

— Seu avô faleceu esta manhã.

Senti meu corpo enrijecer.

Por mais complicada que fosse nossa relação, aquela notícia me atingiu como um soco inesperado.

— O quê?

— Precisamos da sua presença imediatamente. A leitura do testamento será após o enterro.

E desligou.

Na minha cara.

Fiquei olhando para a tela apagada do celular.

Morto.

O velho finalmente tinha partido.

Mas conhecendo-o como eu conhecia, a verdadeira dor de cabeça ainda estava por vir.

Passei a mão pelos cabelos e soltei uma risada amarga.

— Nem morto vai me deixar em paz...

Troquei de roupa, vestindo um terno preto, e segui para o velório.

---

A cerimônia foi fechada.

Minha decisão.

Detestava gente falsa.

E funerais eram o habitat natural da falsidade.

Pessoas que não ligavam para o falecido apareciam chorando.

Outras inventavam histórias de amizade.

E algumas já estavam calculando quanto receberiam da herança.

Meu avô tinha sido um homem difícil.

Orgulhoso.

Controlador.

Capaz de deserdar o próprio filho sem perder uma noite de sono.

Mesmo assim, ali estava eu.

Seu único neto.

Esperando descobrir qual seria sua última jogada.

Sílvio permaneceu ao meu lado durante todo o enterro.

Quando tudo terminou, seguimos para a sede da empresa.

A tensão dentro da sala era quase palpável.

Will colocou uma pasta sobre a mesa.

Meu coração acelerou.

Era agora.

— Vamos começar — anunciou.

Abriu o documento e iniciou a leitura.

— "Deixo para meu neto, Rangel, todos os hotéis no Canadá, todas as fazendas, metade da minha fortuna e cinquenta por cento da Lídermed Indústria de Equipamentos e Artigos Médicos e Hospitalares S.A."

Por alguns segundos, fiquei sem reação.

Metade?

Metade?

Meu sangue ferveu.

Levantei tão rápido que a cadeira quase caiu para trás.

— Como é que é?!

Minha voz ecoou pela sala.

— Apenas cinquenta por cento?

Will ergueu os olhos.

— Ainda não terminei.

Cerrei os punhos.

Meu maxilar doía de tão travado.

— Continue.

Ele prosseguiu.

— "Para se tornar proprietário integral do patrimônio da empresa, Rangel deverá se casar com Lira, minha secretária."

O mundo pareceu parar.

Piscar.

Respirar.

Pensar.

Nada funcionava.

— O QUÊ?!

Explodi.

— Está de brincadeira comigo?!

Will continuou impassível.

— "Caso não aceite, os cinquenta por cento restantes serão destinados a um orfanato."

— Não!

Bati as mãos na mesa.

O impacto fez os papéis estremecerem.

— Isso é uma loucura!

Passei as mãos pelo rosto.

Andei de um lado para o outro.

Voltei.

Andei novamente.

Meu coração parecia prestes a sair pela boca.

— Eu vou impugnar isso.

— Não vai.

— Vou sim!

— Não vai.

— Por quê?

— Porque está tudo dentro da lei.

A resposta me atingiu como uma marretada.

Olhei para o teto.

Respirei fundo.

Respirei de novo.

Não adiantou.

Continuava com vontade de estrangular alguém.

— Quem diabos é essa Lira?

Will fechou a pasta.

— Vou chamá-la.

---

Minutos depois, a porta se abriu.

E ela entrou.

A primeira coisa que notei foram seus olhos.

Expressivos.

Assustados.

A segunda foi sua beleza.

Discreta.

Natural.

Sem exageros.

Ela parecia completamente deslocada naquele ambiente.

Como um passarinho preso entre lobos.

Mas não me deixei enganar.

Ninguém recebia metade de uma fortuna sem motivo.

Nenhum.

— O que está acontecendo? — ela perguntou, olhando para Will.

Sua voz era suave.

Confusa.

Ou fingidamente confusa.

Cruzei os braços.

— Vai dizer que não sabia que meu avô estava deixando metade da herança para você?

Ela me encarou.

Depois olhou para Will.

E então voltou a me encarar.

A expressão de choque parecia genuína.

— Isso é impossível.

— Ah, claro.

Sorri sem humor.

— E eu sou o Papai Noel. — Falei alto.

Ela franziu a testa.

— Qualquer pessoa acharia isso absurdo.

— Não mais absurdo do que uma secretária receber metade de um império.

Vi seus olhos se estreitarem.

A indignação surgiu instantaneamente.

— Está insinuando o quê?

Dei um passo à frente.

— Que talvez você fosse amante dele.

O choque em seu rosto foi imediato.

Depois veio a raiva.

Pura.

Violenta.

— Como ousa?!

Seu rosto ficou vermelho.

Os olhos brilhavam.

— Tenha respeito!

— Respeito? Eu deveria ter respeito?

— Nunca tive absolutamente nada com seu avô!

— Chega!

Will bateu a mão na mesa.

O silêncio caiu sobre a sala.

Pesado.

Sufocante.

— Vou reler o testamento. Depois vocês brigam.

---

Will releu novamente e quando terminou a leitura, a situação só piorou.

Muito pior.

Porque existiam mais cláusulas.

Muitas mais.

— Vocês deverão permanecer casados por um ano.

Olhei para Will.

— O quê? — Perguntei sem acreditar.

— Morando juntos.

— O quê?! — Lira também não acreditou.

— Sem relacionamentos extraconjugais.

Lira empalideceu.

— Não.

Ela balançou a cabeça.

— Não vou fazer isso.

— Vai sim — retruquei.

Ela virou para mim imediatamente.

— Como é?

— Seu nome está no documento.

Apontei para a pasta.

— Não venha fingir que está sofrendo. Metade daquela fortuna cairá no seu colo.

Os olhos dela faiscaram.

— Eu não estou fingindo!

— Claro que está.

— Não preciso do dinheiro dele!

— Mentira.

— Você não me conhece!

— E você acha que eu acredito nessa encenação?

— Encenação?!

Ela deu um passo na minha direção.

— Você é arrogante.

— E você é interesseira.

O silêncio que veio depois parecia capaz de incendiar a sala inteira.

Se os olhares matassem, nós dois já estaríamos enterrados ao lado do meu avô.

---

Saí dali antes que dissesse algo pior.

Ou fizesse algo pior.

Do lado de fora, Sílvio me alcançou.

— Rangel.

Ignorei.

— Rangel!

Parei.

— O quê?

Ele sorriu de canto.

— A Lira é linda.

Lancei-lhe um olhar mortal.

— Nem começa.

— Estou falando sério.

— Não me importa.

— Talvez não seja tão ruim.

— Pare.

— Sua filha precisa de alguém.

Fechei os olhos.

A dor veio instantaneamente.

Clise.

Sempre Clise.

— Não fale dela.

Minha voz saiu baixa.

Rouca.

Machucada.

Sílvio suspirou.

— Já faz cinco anos.

— E eu a amo muito mais.

Ele não respondeu.

Porque não havia resposta.

---

Quando cheguei em casa, Nina correu para mim.

— Papai!

Normalmente eu a pegaria no colo.

A encheria de beijos.

Mas minha mente estava em outro lugar.

Mesmo assim, ajoelhei e a abracei.

— Oi, princesa.

Ela sorriu.

E aquele sorriso quase me salvou.

Quase.

Depois que a coloquei para dormir, fui para o quarto.

Fiquei parado diante da fotografia de Clise.

Passei os dedos pela moldura.

A saudade apertou meu peito.

Como sempre.

Como todos os dias.

— Eu não posso fazer isso.

Minha voz saiu em um sussurro.

— Não posso.

Entrei no banho tentando afastar os pensamentos.

Mas foi inútil.

Porque entre a imagem da minha falecida esposa...

Surgiu o rosto da mulher que eu conhecera poucas horas antes.

Os olhos indignados.

A voz furiosa.

A maneira como me enfrentou sem medo.

E pela primeira vez naquele dia, senti algo diferente da raiva.

Algo que me incomodou muito mais.

Curiosidade.

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