Mundo ficciónIniciar sesiónApós tentar descansar, algo que não consegui fazer, os dias foram passando. A tal da Lira não me procurou, e eu também não a procurei. Era muito dinheiro para deixar escapar e acabar indo para um orfanato.
A todo instante me perguntava se deveria procurá-la e propor um acordo entre nós, uma espécie de manual de sobrevivência. Afinal, um ano não era um dia. — E aí, Rangel? Vai deixar toda aquela herança para um orfanato? — Silvio perguntou, divertido. Revirei os olhos e soltei um suspiro irritado. — Você é meu melhor amigo e conselheiro, mas está sendo péssimo nos dois papéis. Para você é fácil falar. Não será você quem vai colocar uma mulher desconhecida debaixo do mesmo teto. Vou ter que apresentá-la à sociedade, fingir que a amo, quando, na verdade, mal consigo suportá-la. Silvio deu de ombros. — Então faça um acordo com ela. Se não for uma gata-borralheira perdida, umas aulas de etiqueta resolvem. Na frente dos outros vocês fingem amor e carinho. Em casa, vivem como amigos. Assim que ele terminou de falar, o celular tocou. Era Will. Segundo ele, meu tempo estava se esgotando e meu orgulho só estava piorando tudo. Respirei fundo. Precisava do endereço daquela mulher. Silvio entrou em contato com Will e, minutos depois, recebi a localização por mensagem. Passei o dia inteiro trabalhando, mas meus olhos voltavam repetidamente para aquele endereço em um bairro periférico. Sempre fui ganancioso quando o assunto era a herança do meu avô. Mas será que valia a pena tanto sacrifício? Um ano... Um ano inteiro. Meu olhar pousou na fotografia da minha esposa. Essa, sim, era a mulher da minha vida. Mas para me vingar do que aquele velho fez com meu pai, eu me casaria com Lira. Mesmo acreditando que ela fazia parte daquele plano absurdo para dificultar o acesso à herança. E eu não deixaria barato. Não para ela. Não depois de ter aceitado participar daquela armação. Ao final do expediente, pedi ao motorista que me levasse até o endereço. À medida que avançávamos pelos bairros mais simples da cidade, meu desconforto aumentava. Quando chegamos, desci do carro e percebi vários vizinhos observando minha presença com curiosidade. Bati palmas. Um senhor de idade abriu a porta. — Boa noite. Deseja falar com alguém? — Sim. Estou procurando a Lira. — Ela não está. Os olhos dele me analisaram da cabeça aos pés. — O que quer com a minha filha? Lira é uma moça de família. Nunca vi homem nenhum vir procurá-la aqui. Fiquei sem reação. Só faltava ele dizer que ela era virgem e inocente. Quando eu ia responder, ouvi passos atrás dele. Lira apareceu. — O que esse homem quer com você, Lira? — o pai perguntou imediatamente. — Nenhum homem nunca veio atrás de você. O que está acontecendo? Fale logo. Lira engoliu em seco. — Ele é... — É o quê? Desembucha! Ela respirou fundo e disparou: — Meu namorado. Ele é meu namorado. Meu maxilar travou. Namorado? — Namorado? — o pai repetiu, desconfiado. — E por que nunca o trouxe para conhecer a família? — É recente, pai. Como a mamãe não está presente, achei melhor esperar. Mas Rangel está muito apaixonado por mim e decidiu conhecer vocês. Quase engasguei. Apaixonado? Aquilo me deu vontade de socar a parede mais próxima. Aquele velho maldito realmente tinha destruído minha vida. — Então seu nome é Rangel? — perguntou o homem. — Tenho olhos atentos. Sei que você não é do nosso meio. Quais são suas intenções com a minha filha? Olhei para Lira. Ela parecia tão nervosa quanto eu. — Casamento. A palavra saiu antes que eu pudesse pensar. — Quero me casar com Lira. Sei que a senhora da casa não está presente, mas gostaria de pedir a mão da sua filha em casamento. Nem eu sabia de onde tinha tirado forças para dizer aquilo. O pai dela arregalou os olhos. — Está grávida, Lira? — O quê? Claro que não! — ela respondeu, indignada. — Então por que essa pressa toda? — Não pense isso de mim, papai. O homem cruzou os braços. — Se for para ver meu nome e o da nossa família na lama, é melhor aceitarem logo. Lira ficou vermelha de raiva. — O que o senhor está insinuando? Que sou uma qualquer? — Esse homem tem dinheiro! O que quer que eu pense? Que ele te ama? Olha para você e olha para ele! Ele te comprou e depois vai descartá-la. As palavras atingiram Lira como t***s. Lágrimas surgiram em seus olhos. — Pai... — Pegue suas coisas e vá embora com ele! Não quero uma filha sem vergonha morando sob o mesmo teto que eu. — Não admito que fale assim comigo! — ela gritou, chorando. — Vai embora! O silêncio tomou conta da casa. O pai dela virou as costas e desapareceu para dentro da residência. Ficamos sozinhos. Lira chorava copiosamente. Por mais que eu a detestasse, aquela cena me causou um incômodo estranho. — Se quiser vir comigo, se apresse — falei, friamente. — Não tenho todo o tempo do mundo. Ela enxugou as lágrimas. — Para onde vai me levar? — Para minha casa. Para onde mais seria? Minha vida já está um inferno desde que você atravessou o meu caminho. Lira baixou os olhos. — Preciso me despedir dos meus irmãos. Ela subiu. Enquanto esperava, observei a casa simples. Tudo ali era humilde. Aquilo só reforçava minha suspeita de que ela havia se aproximado do meu avô por interesse. Minutos depois, Lira retornou com uma mala pequena. Os olhos inchados denunciavam o quanto havia chorado. Seguimos em silêncio. Quando chegamos à mansão, ela ficou observando tudo ao redor, claramente impressionada. Foi então que Nina surgiu correndo. — Papai! Ela se jogou em meus braços e logo apontou para Lira. — Essa é a minha nova mamãe? Fechei os olhos por um instante. Era exatamente o que eu queria evitar. — Nina, Lira vai passar bastante tempo conosco. A menina observou Lira atentamente. — Por que ela está chorando? Olhei para Lira. Ela desviou o rosto. — Não sei. Precisava manter distância entre as duas. Nina era carente demais. E aquilo poderia complicar tudo. Pedi à governanta que preparasse o quarto de Lira. Depois de deixar Nina jantando, fui mostrar o quarto para ela. Parei diante da porta. — Este será o seu quarto. Se precisar de alguma coisa, peça para Nilva. Ela é a governanta da casa. Lira passou os dedos pela mala. — Eu não sabia que você tinha uma filha. Meu semblante endureceu imediatamente. — E nem precisava saber. Ela me encarou. — Eu só... — E fique longe dela. Lira piscou, surpresa. — O quê? — Não quero Nina muito próxima de você. A mágoa estampou seu rosto. Mas não me importei. Virei as costas e fui para o escritório. Precisava resolver aquilo logo. Peguei o celular e liguei para Will. — Lira já está morando aqui. Depois liguei para Silvio. — Organize o casamento para esta semana. Quanto antes aquele contrato fosse assinado, melhor.






