Mundo de ficçãoIniciar sessãoAngelina Clark
Música ambiente tocava em um volume confortável, preenchendo a boate com um ritmo suave enquanto as luzes coloridas piscavam em tons azulados. Era uma segunda-feira tranquila, e o movimento ainda era baixo. Assim que passei pela entrada e me aproximei do bar, Carla me lançou um olhar atento. Ela estava organizando algumas garrafas na prateleira, mas parou ao me ver. — Você me parece diferente hoje, Angel — comentou, franzindo a testa. Dei de ombros, soltando um suspiro leve. — Deve ser porque finalmente resolvi o problema que mais estava me assombrando. Consegui ter uma bela noite de sono depois de dias dormindo mal. Os olhos dela se suavizaram por um instante, mas logo voltaram a me analisar com cautela. — Isso é ótimo, claro… Mas o que aconteceu? Arrumou um emprego? Carla sabia que minha situação estava difícil. Eu via nos olhos dela a preocupação sincera, e por isso me preparei para sua reação antes de responder. — Na verdade, não. — Cruzei os braços, hesitante. — Mas consegui dinheiro suficiente para quitar meus aluguéis e evitar que eu vire uma sem-teto. Ela arqueou uma sobrancelha, desconfiada. — Angel… Me explica isso direito, porque minha cabeça já começou a imaginar várias coisas, e nada delas parece muito legal. Engoli em seco, desviando o olhar por um segundo antes de voltar a encará-la. — Bom… Eu não te contei, mas há um tempo o Felipe me pediu para ser sua barriga de aluguel. — Observei a expressão dela se transformar em pura surpresa. — Isso ia contra todos os meus princípios, mas, diante do desespero, ontem resolvi aceitar. O silêncio entre nós se prolongou por alguns instantes. — Ele quitou meus aluguéis. Hoje fizemos vários exames… Ele pagou a mais pela urgência. Devem ficar prontos até quinta, eu acho. A boca de Carla se abriu levemente, mas nenhuma palavra saiu. Seus olhos se arregalaram como se eu tivesse acabado de lhe dizer que planejava me mudar para outro planeta. Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, um cliente se aproximou do bar, nos obrigando a interromper a conversa para atendê-lo. Quando terminamos, ela se inclinou sobre o balcão, me olhando fixamente. — Angel… Era mais fácil ter aceitado minha ajuda. Isso é uma cilada. — Sua voz saiu num tom baixo, mas carregado de preocupação. — Você tem um coração lindo, é uma pessoa amorosa… Como vai fazer para não se apegar a essa criança? Respirei fundo, sentindo um aperto no peito. Eu já tinha pensado nisso. Pensado e repensado, na verdade. Mas não podia me dar ao luxo de hesitar agora. — Car… Eu não queria ficar devendo nada a ninguém. Não ia me sentir bem simplesmente aceitando dinheiro de vocês. — Me esforcei para manter a voz firme. — Sei que vai ser complicado, mas eu vou dar um jeito. Ela continuou me olhando, o olhar dela era um misto de angústia e carinho. Então, sem dizer mais nada, se inclinou e me envolveu em um abraço apertado. — Oh, amiga… Eu só estou preocupada. Só quero que você fique bem, sabe? Fechei os olhos por um instante, permitindo-me aproveitar aquele conforto. — Eu sei, Car. Você é incrível por se preocupar… Mas essa era minha única chance. Ela suspirou contra meu ombro, então se afastou o suficiente para me encarar outra vez. — Tudo bem. Eu não vou te julgar. Mas sempre que precisar, estarei aqui. Tudo bem? Sorri de leve, sentindo o calor daquela promessa sincera. — E eu também estarei aqui pra você, Car. Ela sorriu de volta, e voltamos ao trabalho. A segunda-feira era sempre tranquila por ali, então entre um atendimento e outro, ainda conseguimos conversar. Mas, no fundo, eu sabia que aquela conversa ainda estava longe de terminar. A noite seguia tranquila na boate, com o som ambiente preenchendo os espaços entre as conversas dispersas dos poucos clientes presentes. Eu e Carla estávamos no bar, atendendo de forma automática, quando Felipe chegou e se acomodou no banquinho de sempre. — Boa noite, meninas — ele nos cumprimentou com um sorriso fácil, ajeitando-se no assento. — Boa noite, Fe — respondi. — Boa noite, Felipe — Carla ecoou antes de cruzar os braços. — Qual a boa pra hoje? — Uma batata com queijo e uma Coca-Cola, por favor. Ela acenou com a cabeça e saiu para buscar o pedido, deixando-nos a sós. — Você parece bem animado hoje — comentei, observando como ele parecia inquieto, os dedos tamborilando levemente no balcão. — Ansioso é a palavra certa. Até os resultados saírem, acho que nem vou conseguir dormir. Sorri, tentando transmitir confiança. — Eu acho que vai estar tudo certo. Assim que os exames saírem, já podemos seguir para o segundo passo. Tenhamos fé, tudo vai dar certo. Ele soltou um suspiro, mas a tensão em seus ombros permaneceu. — Eu sei… Só que pode ser que não funcione de primeira, sabe? Minha mente às vezes me faz pensar no pior. Inclinei a cabeça, observando-o com mais atenção. A insegurança era evidente em seu olhar, um misto de medo e esperança. — Não se torture com isso. — Falei suavemente. — Tente focar no agora, um passo de cada vez. Tudo ficará bem, certo? Felipe me olhou por um momento e, então, abriu um sorriso — aquele sorriso que fazia meu coração dar um leve tropeço. — Você pode até ser só uma menina, Angel, mas sabe exatamente o que dizer. Meu rosto esquentou contra minha vontade, e tentei disfarçar desviando o olhar. Mas era impossível ignorá-lo. O cara era lindo, cheiroso, e ainda por cima tão gentil que tornava difícil não me perder um pouco ali. Antes que eu pudesse responder qualquer coisa, Carla reapareceu, colocando o prato e o copo na frente dele. — Aqui está — disse de forma casual, mas, ao passar por mim, inclinou-se e sussurrou: — Amiga, você tá muito ferrada. Meu corpo ficou tenso na hora. — O quê? Por quê? — sussurrei de volta, confusa. Carla soltou um risinho discreto e se afastou, mas não sem antes deixar sua bomba: — Você se apaixonou pelo cara que quer uma barriga de aluguel para ter um filho sem precisar de uma namorada. Fiquei ali, imóvel, absorvendo aquelas palavras enquanto ela saía. Felipe continuava focado na comida, sem ter a menor ideia da batalha interna que explodia dentro de mim. Joguei a cabeça para trás e soltei um suspiro pesado. Droga. Eu realmente estava bem ferrada. Aqui está a cena revisada, com mais detalhes, aprofundamento emocional e fluidez na interação entre os personagens: — Tá tudo bem, Angel? A voz de Felipe me tirou do torpor por um instante. — Tá sim, Fe. Tentei sorrir, mas antes que pudesse sustentar a expressão, meu corpo enrijeceu ao ver Iron se aproximando do balcão. Ele já vinha rondando minha casa, o que por si só já era desconfortável. Mas aparecer no meu trabalho? Isso era demais. Agarrei o pano de limpeza com mais força, mantendo minha postura firme. — O que você quer, Iron? Já te paguei esse mês. Ele abriu um sorriso de canto, debochado, e se encostou no balcão como se estivesse completamente à vontade. — Eu sei, loira. Mas isso aqui é um bar, não é? Vim tomar um belo uísque. Pisquei, irritada. Eu sabia que não era apenas isso, mas preferi evitar uma cena. Me afastei para preparar a bebida e coloquei o copo diante dele. — Aí está. Agora, de verdade, o que você quer? Ele girou o copo entre os dedos, demorando de propósito antes de me encarar. — Nada demais. O chefe só me pediu pra ficar de olho em você mais de perto. Sabe como é… Seu pai fugiu, ninguém tem ideia de onde ele se meteu. Então, não queremos que você cometa o mesmo erro. O peso de suas palavras caiu sobre mim como uma pedra no estômago, mas mantive meu rosto impassível. — Não vou fugir, Iron. Não se preocupe. Agora, por favor, me deixa em paz. Me afastei antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa e voltei para perto de Felipe. O olhar dele era puro questionamento, e antes que ele precisasse perguntar, soltei um suspiro pesado. — Não se preocupe. Iron está me vigiando mais de perto. Segundo ele, o chefe acha que eu vou fugir como meu pai. Felipe franziu a testa, sua expressão se fechando de imediato. — Angel, eu não tô gostando nada disso. Esse pessoal é perigoso. Nós da polícia conhecemos bem gente como eles. A forma como ele disse aquilo fez um arrepio subir pela minha espinha. — Eu sei… Mas acho que se eu continuar pagando todo mês e ignorar a presença dele, tudo vai dar certo. Felipe soltou um suspiro pesado e passou a mão pelos cabelos, claramente frustrado. — Eu queria poder proteger você disso. Me deixa pagar essa dívida. Minha garganta apertou. — Não. Isso não. — Sacudi a cabeça, determinada. — Essa história já é assombrosa o suficiente. E você já está fazendo muito por mim. Ele me encarou, parecendo inconformado. — Eu não estou fazendo nada. Fizemos um acordo. — Eu sei… — Mordi o lábio. — Mas olha, isso é coisa minha, tudo bem? Se as coisas saírem do controle, você vai ser o primeiro a saber. Felipe ficou em silêncio por um momento, claramente contrariado. Então, murmurou: — Tudo bem… Mas saiba que eu vou tentar encontrar o cabeça disso tudo. Eu não vou ficar quieto. É por você… Mas também é o meu trabalho. Meu coração pulou um batimento. “É por você.” Droga. Tentei não me iludir, mas ele jogava palavras assim e tornava tudo mais difícil. — Só toma cuidado. — Minha voz saiu mais baixa, quase um pedido. — Eu não sei o quão perigosa essa gente pode ser. Felipe segurou meu olhar, firme. — Não se preocupe, Angel. Estou acostumado a lidar com eles. E até com gente pior. Assenti, forçando um pequeno sorriso, mas minha mente estava longe. Por um instante, me permiti pensar no pequeno ser que eu iria gerar e entregar para ele. Como seria a vida dessa criança? Felipe era um cara bom, isso eu não podia negar. Mas sua vida era corrida, cheia de riscos e incertezas. Como ele conciliaria tudo isso com a paternidade? E quando o bebê crescesse? Balancei a cabeça, afastando esses pensamentos antes que criassem raízes. Eu não podia me apegar. Esse era o único jeito. Felipe, por sua vez, continuava me observando, como se tentasse decifrar o que passava na minha cabeça. — Angel… — Hm? — Você sabe que pode contar comigo, né? A forma como ele disse aquilo me fez engolir em seco. Forçadamente, me obriguei a sorrir e dei um pequeno aceno com a cabeça. — Eu sei, Fe. Ele sorriu de volta, mas havia algo em seu olhar que me dizia que ele não acreditava totalmente em mim. E talvez… Nem eu mesma acreditasse. Como em todas as noites, eu, Fe e Carla ficamos conversando sobre coisas triviais. Felipe contou algumas histórias engraçadas do trabalho, aquelas situações inusitadas que só ele parecia atrair. Carla, por sua vez, relembrou momentos hilários que já aconteceram na boate, desde clientes desastrados até pedidos completamente absurdos. Eu? Eu apenas escutava, rindo das histórias, aproveitando aquele momento de leveza que parecia raro na minha vida ultimamente. Minha vida estava uma bagunça, isso era inegável. Mas, de alguma forma, conhecer os dois fez tudo valer a pena. Quando minha hora finalmente chegou, nos despedimos. Felipe insistiu em me levar para casa, e, como de costume, aceitei. O caminho foi tranquilo, confortável, sem a necessidade de muitas palavras. Ao chegarmos, ele estacionou em frente ao meu prédio e se virou para mim com aquele sorriso fácil que, ultimamente, estava se tornando perigoso demais para o meu coração. — Boa noite, Angel. — Boa noite, Fe. Ele se inclinou e depositou um beijo suave na minha bochecha. Meu peito se apertou de um jeito estranho, mas me obriguei a ignorar. Isso não podia significar nada. Não deveria significar nada. Com um sorriso contido, saí do carro, observando enquanto ele se afastava. Cada um seguiu para sua casa. Como tem que ser. Ou, pelo menos, era o que eu tentava me convencer.






