Mundo de ficçãoIniciar sessãoAngelina Clark
Um mês depois… Já fazia um mês desde que eu e o Fe transamos. Nos primeiros dias, foi estranho vê-lo e não lembrar de nós dois juntos daquela forma, dos toques, dos beijos, da conexão que sentimos naquela noite. Mas, com o tempo, tudo voltou ao normal – ou quase. A possibilidade de estar grávida fez com que nos aproximássemos ainda mais. Ele estava ansioso, cheio de expectativas, já fazendo planos, e eu… bem, eu tentava não me deixar levar. Carla, por outro lado, me deu um sermão daqueles. Disse que eu estava me metendo em algo muito perigoso emocionalmente, que isso só faria meu sentimento pelo Fe crescer ainda mais e que, no final, quem sairia machucada seria eu. Mas, mesmo com toda sua preocupação, ela não me deixou sozinha quando comecei a sentir os primeiros enjoos. Ela esteve ao meu lado quando comprei os testes e, agora, enquanto espero aqueles malditos cinco minutos passarem, sinto a presença dela mesmo que não esteja aqui fisicamente. Ando de um lado para o outro, o coração batendo descompassado, as mãos suando. Se der positivo, não há mais volta. Será real. Meu corpo será casa para um pequeno ser humano que, no fim, não será meu. E é isso que me apavora. Não é a gravidez, não é a mudança, não é o medo de Fe me rejeitar. Porque a rejeição de um homem, por mais que doa, a gente supera. Mas e se eu me apegar? E se eu não conseguir entregar esse bebê no final? Como é que se supera algo assim? O som do despertador do celular me faz pular, arrancando-me dos meus pensamentos. Meu peito sobe e desce pesadamente enquanto me viro para os testes sobre a pia. Respiro fundo, tentando reunir coragem, e dou o primeiro passo em direção a eles. Um. Depois outro. Meu coração martela tão forte que tenho medo que ele pare. E então eu vejo. Duas palavras pequenas, mas que mudam tudo. Positivo. Em um. Em dois. Minha garganta se fecha, meu peito se enche de emoções conflitantes. Meu primeiro instinto é sorrir – um sorriso genuíno, misturado com surpresa, medo e um tipo de felicidade que eu não deveria sentir. Porque agora é real. Estou grávida. Estou carregando uma vida dentro de mim. E, ao mesmo tempo, a realidade b**e cruelmente. No fim, essa vida não será minha. Minha mão treme quando pego um dos testes, encarando aquele veredicto inegável. Meu corpo inteiro sente a verdade se assentar. Eu serei uma barriga de aluguel. E eu não sei se meu coração vai sobreviver a isso. — Olá, bem-vindo. Eu serei sua casa por alguns meses. Espero que seja confortável aí dentro — murmuro, passando a mão na minha barriga ainda lisa, sentindo um calor diferente se espalhar pelo peito. Fico ali, sozinha, processando a imensidão dessa realidade que agora se concretiza. Eu estou grávida. Dentro de mim, há uma nova vida crescendo. Mas, antes que eu me permita afundar nessa mistura de emoções, lembro-me de algo importante: essa notícia não é só minha. Não sou eu quem deveria comemorá-la sozinha. Respiro fundo e pego o celular. Meus dedos tremem um pouco enquanto digito. 📲 — Ei, Angel, está tudo bem? A resposta vem rápido, como se ele já estivesse esperando algo. — Está sim. Eu queria te mostrar algo. Você pode vir até aqui? Há uma pausa. Sei que ele está tentando entender o que pode ser tão urgente. — Claro. Tem certeza de que está tudo bem? Estou preocupado. Você tem sentido mal-estar… Sorrio de leve, imaginando sua testa franzida do outro lado da tela. — Juro, tá tudo bem! — Certo. Em 20 minutos estarei aí. Beijos. — Beijos. 📲 A espera é torturante. Meu coração parece uma bomba-relógio, cada batida mais forte do que a anterior. Caminho de um lado para o outro, tentando organizar o que vou dizer, como vou reagir. Tento me convencer de que isso não deveria ser tão emocional para mim. Mas é. Então, finalmente, a campainha toca. Corro para abrir a porta, e assim que vejo Fe ali, o ar parece escapar dos meus pulmões. Ele me encara com aquele olhar atento, preocupado, esperando por qualquer sinal de que algo está errado. Mas antes que ele possa perguntar qualquer coisa, simplesmente me jogo em seus braços. O abraço é apertado, quente, seguro. Por um instante, fecho os olhos, permitindo-me sentir o conforto daquele momento. — Angel, tá tudo bem? — ele pergunta, a voz baixa e calma, mas cheia de expectativa. Me afasto apenas o suficiente para olhá-lo nos olhos e aceno com a cabeça. — Pode sentar ali no sofá. Eu já volto. Ele obedece sem questionar, embora eu perceba que sua inquietação só aumenta. Seus olhos me seguem enquanto me afasto em direção ao banheiro. Lá dentro, respiro fundo mais uma vez. Sobre a pia, os dois testes de gravidez, já higienizados, me encaram como um lembrete inevitável do que está por vir. Pego-os com cuidado, como se fossem pequenos segredos prestes a serem revelados. Ao voltar para a sala, encontro Fe sentado na ponta do sofá, os cotovelos apoiados nos joelhos, tamborilando os dedos nervosamente. Assim que me vê, ele se ajeita, os olhos cravados em mim. Sem dizer nada, me aproximo e estendo os testes para ele. Meu coração b**e forte. Meus olhos ardem. — Parabéns, papai! — digo animada, estendendo os testes para ele. Fe pega os dois, encarando as palavras estampadas ali como se precisasse absorver cada letra. Seus olhos brilham, e ele fungou discretamente, claramente emocionado. Para ele, isso é um sonho se tornando realidade, e eu posso imaginar o turbilhão de sentimentos que deve estar passando por sua cabeça agora. De repente, ele levanta e me puxa para um abraço apertado, me envolvendo completamente. Seu coração b**e acelerado contra o meu peito, e eu sinto a felicidade transbordando dele. — Obrigada por me ajudar nessa, Angel. Eu tô tão feliz que eu nem sei o que fazer! Eu sorrio, retribuindo o abraço com força. — Vai dar tudo certo. Pelo menos por alguns meses eu serei a casinha dele, depois tenho certeza que você vai saber lidar com isso. Ele se afasta um pouco para me olhar nos olhos, ainda segurando os testes como se fossem o troféu mais importante da sua vida. — Eu quero participar de tudo, Angel. Todas as consultas, seus desejos, cada pequena mudança. Quero estar por perto, então qualquer novidade me avise que eu venho correndo. A forma como ele diz isso, cheio de emoção e empolgação, me faz sorrir. — Quando eu tiver desejo no meio da madrugada, eu vou te lembrar desse pedido. — brinco. Ele ri, passando a mão pelos cabelos. — Isso é surreal! Eu nem sei por onde começar. O que faço agora? Já compro as coisas? — pergunta, visivelmente eufórico. — Calma! — seguro suas mãos, tentando conter sua empolgação. — Primeiro, a gente marca um médico para ver as vitaminas que tenho que tomar, ajustar minha alimentação e fazer exames. Depois, mais pra frente, a gente pensa em quartinho, roupinhas e tudo mais. Ele assente, mas seus olhos ainda brilham com a ansiedade de quem quer fazer tudo ao mesmo tempo. Então, hesitante, ele pergunta: — Seria pedir muito pra você me ajudar a escolher tudo? Minha garganta se fecha por um instante. Isso é complicado. Vai mexer com meu lado sentimental de um jeito que eu não sei se vou conseguir lidar. Respiro fundo antes de responder. — Fe, esse é um momento lindo, e você precisa desfrutá-lo sozinho. Desculpa… Ele abaixa um pouco o olhar, como se soubesse que pedir isso era demais. — Eu sei que é um pedido grande, mas… mesmo que a criança seja minha, eu quero que você participe. Quero que o bebê te conheça. Quero que você o visite. Meu coração aperta. Eu sabia que, mais cedo ou mais tarde, essa conversa surgiria. Mas a verdade é que eu não posso me apegar. Não posso desejar algo que não é meu. — Não é assim que funciona, Fe. — minha voz sai mais baixa. — Mas não se preocupe, você vai se sair muito bem nessa. — Tento sorrir para aliviar o peso da conversa. Ele suspira, pensativo, mas então me encara com um brilho diferente no olhar. — Então me deixa ter pelo menos uma foto sua grávida? Quero essa recordação. Você é linda, Angel. Imagino que grávida vá ficar ainda mais. Sinto o rosto esquentar. Eu nunca fui dessas de tirar fotos, registrar momentos, mas… algo no jeito como ele pede me faz ceder. — Olha, eu não sou muito de fotos, mas… a gente pode tirar algumas. Acho que vou gostar de ter uma recordação desse momento também. Ele sorri, satisfeito com minha resposta. — Como tá seu dia hoje? Tá de folga? — Estou tranquila, mas acho que preciso ir ao mercado comprar algumas coisas. — digo, pensativa. O sorriso dele se alarga. — Ótimo! Vamos almoçar e depois podemos fazer umas compras. Tenho que manter você e esse bebezinho saudáveis. Balanço a cabeça, sorrindo. — Já prevejo que você não vai sair do meu pé. Ele ri. — Não vou ser um chato nem paranoico, mas quero aproveitar essa fase. Depois sei que vou ter muito trabalho. Meu peito aperta com essa frase. “Depois”. Como será depois? Será que ainda seríamos amigos? Será que ele ainda seria tão cuidadoso e carinhoso? Ou será que esses meses seriam apenas um capítulo passageiro na vida dele? Balanço a cabeça, afastando esses pensamentos. — Tudo bem, vamos ao mercado. Mas o senhor lembra do nosso trato, né? Alimentação é por minha conta. — pisco para ele. Ele cruza os braços, fingindo indignação. — Achei que você tinha entendido a frase ‘todo suporte durante a gravidez’. Sinto meu estômago revirar. O jeito como ele fala, como se eu pudesse contar com ele para tudo, me atinge de um jeito inesperado. Eu não deveria me sentir assim. Eu não deveria querer acreditar nessas palavras. Mas por algum motivo, hoje, decido apenas aproveitar o momento.






