Mundo de ficçãoIniciar sessãoAngelina Clark
Dias depois… Era domingo, ainda bem cedo, e tudo que eu queria era estar na minha cama, ignorando o mundo. Mas depois da mensagem do síndico, não tinha como simplesmente voltar a dormir. “Angelina, você só tem mais essa semana pra pagar o aluguel ou procurar outro lugar. Me desculpa, menina, mas já fiz vista grossa todos esses meses porque seu pai fez isso com você. Só que eu não posso mais.” Fiquei encarando a tela do celular, como se as palavras fossem mudar se eu olhasse tempo suficiente. Mas não mudaram. E, no fundo, eu entendia. Ele não era o vilão da história—eu que estava errada. Eu só nunca imaginei que seria tão difícil conseguir um emprego nesse tempo. Fiz entrevistas, bati de porta em porta, mas sem experiência e apenas com o ensino médio, as oportunidades eram quase inexistentes. Até tentei emprego como doméstica, mas aparentemente sou “nova demais”, “bonita demais”, “com cara de quem não sabe fazer nada”. Pois é. Ouvi isso mais vezes do que gostaria. Felipe e Carla, que agora posso considerar oficialmente meus amigos, já se ofereceram para me ajudar. Mas aceitar? Nem pensar. Eu não ia me sentir bem. Odiei a ideia de dever algo a alguém. Depois de muito quebrar a cabeça, a única saída que encontrei foi também a que mais me incomodava. Uma solução que ia contra tudo o que eu acreditava. Aceitar ser barriga de aluguel para o Felipe. Dessa forma, eu não estaria “devendo” nada a ele. Seria um acordo. Algo justo. Talvez assim eu me sentisse um pouco menos mal por aceitar dinheiro. Tá, eu sei que estou tentando me enganar. No fundo, essa situação toda me parece péssima. Mas entre engolir meu orgulho ou acabar sem um teto… Bem, já não tenho muito o que escolher. Pego o telefone e ligo para o Felipe. 📲 — Fe, bom dia. Desculpa ligar tão cedo, mas preciso falar com você. Do outro lado da linha, ele parece despertar do sono, a voz rouca de quem acabou de acordar. — É muito sério? Aconteceu alguma coisa? — Não é nada grave, mas é importante. Ele faz uma pausa antes de responder: — Posso te buscar para o almoço? A gente conversa com calma. — Tudo bem, parece ótimo. — Mais tarde passo aí. Beijo. 📲 Chamada encerrada. Solto um suspiro longo e encaro o celular na minha mão. Está feito. Levanto-me devagar, sentindo meu estômago revirar de ansiedade. Depois de um café rápido, coloco algumas coisas em ordem pela casa, como se isso pudesse me ajudar a organizar a bagunça dentro da minha cabeça. Em seguida, vou para o banho, lavando os cabelos com calma, como se a água quente pudesse aliviar a tensão. Depois de secá-los, escolho uma roupa mais arrumada, mas leve o suficiente para não me sentir desconfortável. Passo uma maquiagem suave, apenas para disfarçar o cansaço e a cara de quem não dorme direito há dias. Mas nada disso diminui o nervosismo. Foi uma decisão muito grande. Uma daquelas que pesam como uma âncora no peito. Isso mudaria minha vida completamente. Eu teria que me adaptar a tudo que estava por vir e, acima de tudo, precisava me preparar mentalmente para não criar vínculo com esse bebê. Porque ele não seria meu. Essa verdade martelava na minha cabeça. E, para piorar, Felipe tornava tudo ainda mais difícil. Porque ele não era só um amigo incrível—era alguém por quem eu tinha me apaixonado. Um sentimento platônico, claro. Eu sabia que ele não queria uma namorada, e eu também não era ingênua o bastante para alimentar esperanças. Somos amigos. Eu vou alugar meu útero para ele. Sem vínculos. Depois disso, continuaremos sendo amigos. E tá tudo bem. Ou pelo menos é isso que eu preciso me convencer. Da janela do meu pequeno apartamento, vi o carro do Felipe entrar na rua e estacionar. Meu coração acelerou no mesmo instante. Era agora. Fechei a cortina, peguei minha bolsa e o celular e desci as escadas com passos rápidos, tentando ignorar o frio na barriga. Quando cheguei à calçada, ele já me esperava, encostado no carro, me observando com um meio sorriso. — Oi, tudo bem? — minha voz saiu um pouco mais hesitante do que eu gostaria. — Claro. E você? — Ansiosa, mas bem. — Sorri nervosa. Ele franziu a testa, claramente curioso. — Confesso que também estou. Você normalmente é direta sobre o que quer falar, mas hoje não deu nenhuma prévia do assunto. — Digamos que é algo delicado demais para tratar por telefone. Precisamos conversar com calma, então preferi pessoalmente. Ele soltou um suspiro dramático, lançando um olhar de lado. — Ajudou muito com a minha ansiedade e curiosidade, obrigada. — ironizou, ligando o carro. No caminho, o silêncio tomou conta. Não era desconfortável, mas carregado. Ele mantinha os olhos na estrada, e eu encarava a paisagem pela janela, perdida em pensamentos. O trajeto nunca pareceu tão longo. Quando finalmente chegamos, o carro entrou na garagem de uma casa enorme. Alta, imponente, cercada por muros e câmeras de segurança. Mas fazia sentido — um delegado precisava se preocupar com segurança. — Bela casa, senhor delegado. — brinquei, tentando aliviar a tensão. Ele riu. — Digamos que é um luxo que eu gosto de ter. Sempre quis uma família grande. Minha expressão se suavizou. Ele queria uma família. Talvez fosse esse o motivo para estar tão determinado a ser pai agora. Descemos do carro, e ele digitou uma senha na fechadura eletrônica antes de abrir a porta. Tentei desviar o olhar, porque parecia invasivo demais prestar atenção nisso. Assim que entrei, meus olhos percorreram os detalhes da casa. O ambiente era sofisticado, com tons neutros nas paredes e móveis escuros que criavam um contraste elegante. Era tudo muito limpo, organizado, com poucos enfeites — definitivamente um lar que refletia a personalidade dele. Mas foi na cozinha que meus olhos pararam. Moderna, espaçosa, equipada com tudo que alguém apaixonado por culinária poderia sonhar. O curioso? Felipe já havia mencionado que não gostava muito de cozinhar. Será que a ex-noiva gostava? Esse pensamento me incomodou mais do que deveria. — Massa e vinho? Se queria me conquistar, conseguiu. — brinquei, tentando afastar os pensamentos indesejados. — Talvez. Ou talvez só tenhamos gostos parecidos para comida. — respondeu, rindo. Nos sentamos à mesa. Ele serviu vinho para nós dois, e eu me servi de um prato generoso de macarrão com camarão e molho branco. — Quer conversar enquanto comemos ou depois? — perguntei. Ele soltou um suspiro e fez uma careta ansiosa. — Se não se importar… agora. Ri baixinho antes de finalmente soltar as palavras que estavam presas na minha garganta há dias: — Bom, eu pensei muito nessas últimas semanas. Nos tornamos mais próximos, conhecemos melhor um ao outro… e decidi aceitar a proposta de ser sua barriga de aluguel. Falei tudo de uma vez, rápido, como se tirar logo isso do peito fosse me fazer sentir menos nervosa. Felipe ficou em silêncio por um segundo, como se processasse minhas palavras. Mas seus olhos brilharam com algo que me pegou desprevenida: esperança. — Tem certeza? — sua voz saiu mais suave, quase hesitante. Assenti. — Sim. Pensei muito sobre tudo e cheguei à conclusão de que será bom para nós dois. Ele sorriu. Um sorriso genuíno, cheio de gratidão, e segurou minha mão sobre a mesa, entrelaçando nossos dedos de um jeito que fez meu coração dar um pulo. — Obrigado por isso. De verdade. Retribuí o sorriso, sentindo um calor estranho no peito. — Não precisa agradecer. Mas, claro, a parte burocrática ainda precisava ser discutida. Felipe começou a detalhar o acordo: ele arcaria com toda a parte médica, alimentação, inseminação e ainda pagaria todas as minhas dívidas, além de me oferecer uma pensão. Mas isso me incomodou. — Eu concordo com o suporte durante a gravidez, os médicos e os remédios. A inseminação, claro. Mas não quero pensão, e você não precisa quitar todas as minhas dívidas, só o aluguel. O resto eu resolvo. Ele franziu a testa. — Só quero que fique tranquila durante a gravidez. Não quero que fique se esforçando, principalmente na boate. — Eu não vou ficar na boate por muito tempo. Só até encontrar um emprego mais estável. E lá dentro eu sei me cuidar. Ele suspirou, contrariado. — Não gosto muito desses termos, mas… se é assim que você quer, tudo bem. E, com isso, o acordo estava fechado. Terminamos o almoço, lavamos a louça juntos, e quando me preparei para ir embora, Felipe me olhou com um meio sorriso. — Tá cedo. Somos amigos. Acho que podemos assistir a um filme. Hesitei. Mas, sinceramente? Eu não queria voltar para casa agora. — Bom, eu ia ficar atoa hoje, então… aceito seu convite. Nos sentamos no sofá enorme da sala. A TV dele era absurda de tão grande. Ele escolheu um filme de ação, e, embora eu não conhecesse, me ajeitei confortavelmente ao seu lado e me concentrei na tela. Ou, pelo menos, tentei. A verdade era que, por mais que a história fosse interessante, eu estava mais consciente do que nunca da presença dele ao meu lado. Do calor que emanava de seu corpo. Do jeito distraído como ele às vezes passava a mão pelos cabelos ou esticava os braços ao longo do sofá. E foi naquele momento, sentada ali, assistindo a um filme qualquer, que a realidade me atingiu com força. Felipe era meu amigo. Felipe ia ser pai. Felipe nunca me veria de outra forma. E eu precisava, a todo custo, enterrar esse sentimento antes que fosse tarde demais.






